A secretária de Ação Social, Eliete Neves, está à frente de uma das áreas mais importantes para atender a população mais vulnerável de Franca, como idosos, moradores de rua e famílias carentes, neste momento de pandemia. Na última semana ela explicou, em entrevista exclusiva à Live do GCN, transmitida todas as noites a partir das 21h15 na página do portal no Facebook, algumas das ações que tem tomado. Confira os principais trechos da entrevista.
Como está o trabalho na assistência social do município neste momento de preocupação e medo?
Estamos vivendo um dia de cada vez. Não só a cidade, mas para o mundo inteiro essa questão é muito nova. Há quem diga que o mundo vai se dividir entre o antes do coronavírus e depois. Na ação social, estamos avaliando a cada dia. Fazemos um planejamento semanal, porque é complicado. No início não tínhamos ideia de como tudo iria caminhar.
A senhora se assustou com a dimensão e com a velocidade com que tudo aconteceu?
Sim. Fechar fábricas, empresas, acredito que nunca tenha passado pela cabeça de ninguém uma situação como essa. O Brasil está se comportando muito bem. As pessoas, na grande maioria, estão aderindo à quarentena, ficando em casa. Estamos preocupados porque temos poucos testes (para confirmar contágio por coronavírus), mas conseguimos ver que aprendemos a lição da Itália, da Espanha. Então, na área de saúde, acreditamos que o impacto será grande. Quando passar, vai durar ainda mais na área econômica e social. A ação social tem que agir agora, mobilizar a sociedade, porque o reflexo vai durar mais.
A estrutura da secretaria de Ação Social da prefeitura é modesta, tem poucos recursos numa situação normal. Quais são as principais frentes em que a senhora está trabalhando agora, neste cenário de guerra?
Estamos organizando as prioridades. Nossa primeira prioridade neste momento, pensando na população, é alimentação. É pensar naquela família que tem a criança que estava na creche, onde tinha alimentação, e agora ela está em casa o dia todo. Na família que tinha crianças na escola, com merenda escolar de qualidade, e agora está em casa. O prefeito Gilson de Souza já se dispôs a fazer mudanças no orçamento para priorizar a assistência social. Por exemplo, não vamos ter atividades esportivas, então recursos da Feac, da secretaria de Esportes e Lazer, devem vir para a Ação Social. Claro, para a Saúde também. Nós temos na nossa secretaria o topo da prioridade, que é o idoso. Então também é uma prioridade nosso olhar para as instituições de acolhimento de idosos.
Nos asilos e nos lares?
Sim. Nós temos cinco entidades de acolhimento de idosos. Todas estão tendo dificuldade de localizar equipamentos de segurança e, quando encontram, o preço subiu absurdamente.
São as máscaras e luvas, por exemplo?
Máscaras, luvas, aventais... Quem trabalha com idosos tem que usar, obrigatoriamente, segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), os equipamentos que a equipe de saúde usa, porque os idosos são a maior vulnerabilidade nesse momento. Essa semana nosso serviço foi organizar o atendimento ao idoso porque, se ele apresenta qualquer sintoma de dificuldade respiratória, precisa ir para uma quarentena. Mas não pode ser em um local com outros idosos porque todos são grupo de risco. Essa semana nosso empenho foi conseguir um espaço para quarentena (dos idosos), se for o caso, com toda a proteção necessária. O idoso hoje está dentro da nossa prioridade zero. A população de rua também é uma prioridade nossa.
Vocês têm um plano de um hospital de quarentena exclusivo para os moradores de rua?
Sim. Nós já reservamos um ginásio do município com vestiários, chuveiros bem adaptados... Quem faz a avaliação da questão da saúde é o consultório de rua, que faz o trabalho com o morador de rua. Ele vai, agora, identificar possíveis sintomas. (Se houver) necessidade de quarentena, teremos esse espaço onde eles poderão ficar. Lembrando que a pessoa em quarentena não pode circular.
No mínimo por 14 dias?
Isso. Nossa primeira ideia foi oferecer um espaço que não fosse para quarentena, mas para proteção. Onde eles pudessem dormir, se alimentar, fazer higiene pessoal diariamente... Mas se eles aderissem não poderíamos deixar circularem livremente. (Pensamos) um espaço fechado, que seria no colégio Demétrio Soares, no Champagnat. Lá tem duas quadras de esporte, campo de futebol, espaço que daria para ter atividades de lazer... Só que não poderiam circular porque estariam muito próximos dentro do ginásio, mesmo sendo um bom espaço. Aí eles não aderiram, porque, como conhecemos, eles vivem uma vida livre, por mais sofrida que seja. A rotina é essa. Tem a questão da dependência química... Então optamos por respeitar a decisão deles e, se houver a necessidade, eles usarão o espaço para fazer a quarentena e serão acompanhados pela equipe de saúde.
O governo anunciou o pagamento de um benefício de R$ 600 para a população carente. Como alguém sabe se está no cadastro único?
Até agora temos notícias, mas não temos um documento oficial, com orientações. O Ministro das Cidades (Onyx Lorenzoni) prometeu que até terça deve ser liberado o aplicativo para as pessoas (baixarem nos celulares). Acreditamos que neste final de semana vamos receber as orientações oficiais. Assim que recebermos, vamos transformar em uma cartilha de fácil compreensão pela população. Nossa intenção é distribuir nos locais onde as pessoas frequentam, como supermercados e padarias, além da imprensa. Para divulgar o máximo possível.
Há alguma informação que já tenha chegado do governo federal?
Sim. Quem tem direito ao benefício? Tem que ser maior de 18 anos, não pode ter carteira assinada. Quem recebe qualquer benefício como aposentadoria, auxílio doença, também não será beneficiado. Por outro lado, o autônomo, por exemplo, que recolhe e é reconhecido pelo INSS; o informal, que não recolhe o INSS, o desempregado, ou seja, que não tem registro em carteira. Esses têm direito. O outro é o microempreendedor individual, que não tem funcionários, e que recebeu até R$ 28.559 em 2018. O governo tem o registro dele. Ele também tem direito. Duas pessoas por família podem receber. Por exemplo, um é motorista de van escolar, que está sem trabalho, e a mulher é manicure (trabalhando como autônoma), eles podem receber. As mulheres que são arrimo de família, podem receber R$ 1,2 mil. As pessoas que estão no cadastro único serão as primeiras a receber.
Quantas famílias em Franca recebem o Bolsa Família?
Em Franca, temos 9.557 famílias com o perfil para o Bolsa Família. Destas, mais de 4 mil recebem e temos 3,4 mil aguardando liberação do governo federal.
Em Franca existem 4 mil famílias que recebem o Bolsa Família?
Hoje temos muitas famílias na extrema pobreza em Franca. São 6.913 famílias com renda per capita (rendimentos por pessoa) na faixa de R$ 89 por mês. (Outras) 2.664 famílias têm renda per capita na faixa de R$ 178. Ou seja, pensa naquele catador de recicláveis, com 5 pessoas na família, e que ganha R$ 800. Se o governo liberar o recurso para todas as famílias com perfil do Bolsa Família, teremos quase 10 mil famílias francanas beneficiadas. Essa é a nossa realidade.
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