Ana Lúcia Ponce Moreira

'Era para ser uma linda viagem. O corona interrompeu'


| Tempo de leitura: 10 min
Imagem de Ana Lúcia pela Europa: antes da quarentena
Imagem de Ana Lúcia pela Europa: antes da quarentena
Nem mesmo os mais criativos autores poderiam imaginar um filme com um enredo tão rico em histórias. Era uma vez, uma simples farmacêutica de uma pacata cidade que decidiu aperfeiçoar o inglês em poucos meses para viajar pela Europa. A desconfiança começou dentro de casa: o marido não levou a sério.
 
A farmacêutica contrariou pessimistas, arrumou as malas e embarcou para a primeira viagem rumo ao velho continente. Era para ser uma experiência linda. Mas havia um vírus no ar. Uma despretensiosa escala de apenas duas horas no epicentro europeu da epidemia mudou completamente o roteiro da história. O épico, deu lugar ao drama.
 
Nesta história, até mesmo o seu extenso nome causou problemas. Mesmo com saúde plena, foi obrigada a se trancar em Malta, arquipélago situado na região central do Mediterrâneo, entre a Sicília e a costa do Norte da África. Ao invés de passeios por lugares paradisíacos, reclusão na casa de desconhecidos ou no quarto de hotel. Pratos sofisticados foram trocados por refeição controlada. O dinheiro se tornou invisível como o vírus e o inglês não fluía como deveria. Para completar, documento perdido.
 
Apreensão, choro, medo, saudades, três voos cancelados. Depois de oito dias enclausurada e sem saber se teria o que comer, enfim, o dia de retornar para casa chegou. A tão esperada liberdade abriu as asas sobre ela? Que nada! Outra quarentena de 14 dias em casa sem poder, sequer, tocar na filha de 11 anos e no marido.
 
Não é uma ficção baseada no coronavírus. Esta história é real e foi vivida por Ana Lúcia Duarte Fernandes de Barros Ponce Moreira, farmacêutica Sanitarista e Esteta. Pós graduada em Saúde Pública e Estática Avançada, ela é coordenadora da Vigilância em Saúde de Restinga. Foi uma vítima do corona sem nunca ter contraído o vírus. Antes que a história vire livro, Ana Lúcia antecipou detalhes ao Comércio por telefone. 
 
Quando começou a planejar a viagem para Malta?
Em setembro de 2019, eu fiz 39 anos e decidi que até aos 40 anos meu inglês tinha que melhorar. No começo de outubro, voltei a estudar. Minha filha e meu esposo falam inglês, assistem programas em inglês sem legenda e eu não entendo nada. 
Em novembro, minha professora fez um anúncio de promoção Black Friday de intercâmbio. Achei que não era para mim, mas ela me incentivou. Cheguei em casa depois da aula e falei para meu esposo que eu iria para Malta. Ele me olhou como se eu tivesse dito “vou escovar os dentes e já volto”. Claro que fiquei revoltada. No dia seguinte, comentei para um colega de trabalho e também para meu diretor. Por ter férias vencidas, não seria problema conseguir me afastar do serviço para viajar.
 
Foi sua primeira viagem para o exterior?
Não. Eu já havia visitado a Argentina e o Paraguai, mas desta vez seria para a Europa. Eu estava muito entusiasmada, preparando todos os documentos necessários. Tudo estava dando certo. Foi quando meu esposo percebeu que o negócio era sério, que eu iria mesmo e iria sozinha.

Como foi o planejamento da viagem?
O roteiro programado era embarcar no dia cinco de março para Paris com uma escala em Roma, na Itália, onde eu recebi meu primeiro carimbo no passaporte. Este carimbo iria me condenar mais tarde. Em seguida, passaria os dias 6 e 7 em Paris, na França. Na noite do 7, embarcaria para Malta. Pela programação, eu ficaria 7 dias em Malta. Depois, embarcaria para Roma novamente, ficaria lá por 3 dias e retornaria para o Brasil.  A primeira parte do roteiro deu tudo certo. O problema foi quando cheguei em Malta.
 
A situação ainda estava normal quando passou pela França?
Em Paris, foi lindo. Fiz vídeos ao vivo, conheci muitos lugares maravilhosos, mas alguns pontos turísticos, como o Museu do Louvre, já estavam fechados por conta do infame vírus. Só fiquei chateada porque não recebi um carimbinho da França para exibir no meu passaporte. As pessoas estavam tranquilas e sem máscaras.
 
E quando chegou em Malta?
Fui para ficar em esquema de homestay (hospedagem domiciliar), coisa que não recomendo a ninguém, mas essa história vai ficar para o livro. Enquanto eu não tinha aula, que aconteciam em períodos alternados, eu aproveitei para conhecer todos os cantinhos de Malta e descobrir sabores incríveis.
Na terça-feira, dia 10, um colega de sala, também brasileiro, me falou que seu voo estava cancelado. No momento, não me preocupei com o meu voo, pois se tratavam de companhias diferentes. No dia seguinte, vi pelas redes sociais que quem havia passado pela Itália a partir do dia 27 de fevereiro teria que entrar em quarentena. Era o meu caso.
Enviei um e-mail para escola perguntando se eu deveria ficar em casa, mas não me falaram nada. Mais tarde, a escola pediu o horário do meu voo. Foi quando os meus problemas começaram. Eles me informaram que meu voo também havia sido cancelado porque Malta não faria mais nenhum voo para a Itália, Alemanha, Espanha e Suíça.
Entrei em contato com a companhia aérea e eles alegaram que não podiam fazer nada. Enviei um e-mail para a embaixada brasileira em Malta. Me orientaram a procurar o governo de Malta. Resumindo, ninguém me ajudou.
 
O que fez em seguida?
Na quinta-feira, quando ainda não estava de quarentena, aproveitei o dia para conhecer umas ilhas. Fui para Comino, um lugar maravilhoso. Aproveitei para tentar comprar outro voo para o Brasil, com escala em Istambul e não mais em Roma, lugar onde eu pretendia comprar os produtos para o meu consultório. Além de estudar inglês, queria trazer novidades para o consultório Erva da Vizinha. 
Consegui um voo para o dia 13 às 20h05. Parecia ter dado certo. Fiquei triste por voltar antes do programado, mas tudo bem. Quando fui fazer o check-in, já não deu certo por conta do meu nome gigante que não coube no e-ticket. Então, não estava igual o nome.
Como tinha mala para despachar, fui tentar tirar no balcão de embarque.  Pesei a mala e, quando a atendente viu o ticket, me perguntou onde eu estive antes de Malta. 
Eu respondi que passei pela Itália por apenas duas horas em uma escala e depois fui para França. Mas quando ela abriu meu passaporte, só tinha carimbo da Itália. Foi quando me pediram para eu tirar a mala da balança. Não poderia viajar para Istambul.
 
Qual foi sua reação?
Sem saber o que fazer, nem para onde ir e sem dominar a língua, eu fiz um vídeo no facebook para as pessoas que estavam já acompanhando as coisas que eu postava. A intenção foi poder dividir com elas meus perrengues e também falar um pouco em português.
Decidi que iria dormir no aeroporto, porque eu não tinha para onde ir e esperava um milagre. Postei no grupo Brasileiros em Malta, no facebook, que estava procurando um quarto. Um brasileiro, que é advogado e fala bem inglês, se ofereceu para me ajudar.
Ele conversou com a funcionária do aeroporto. Ela me pediu para retornar na manhã seguinte para tentar pegar outro voo. Novamente, fui impedida de sair por ter passado duas horas na Itália. Como boa brasileira, fui chorar um lugar para ficar no aeroporto e dizer que não tinha dinheiro.  Claro, fui informada que eles não tinham onde colocar as pessoas em quarentena. Foi quando tomei ciência que teria que ficar de quarentena.
 
Para onde você foi?
Saí do aeroporto perdida. Por sorte, uma pessoa do Brasil que havia visto o meu vídeo se prontificou a pagar um hotel para eu ficar. Fui para o hotel já mais conformada que deveria ficar até o dia 22 de março em quarentena. Quando cheguei, tive que ir direto para o quarto. Não podia andar pelas dependências.
Era um sábado. Como estava exausta, dormi no período da tarde e só acordei na madrugada seguinte sem ter comido nada. Fiquei sem saber quais eram os horários das refeições. No meu quarto não tinha telefone. Se eu saísse, poderia ser multada em mil euros.
No domingo, não foi possível tomar café porque fui impedida de entrar no salão. Uma senhora que trabalhava lá me deu dois pedacinhos minúsculos de bolo e uma xícara de cappuccino.
Lá, no hotel, não podia contar com nada. Um dia, dava certo de comer, em outro, não. Então, eu fiz um suprimento: enchia uma garrafinha com água da torneira do banheiro e guardava alguns pães e frutas. Aprendi a comer alimento gelado, coisa que não fazia antes. Também passei a comer bananas sem problema.
 
O que fazia para passar o tempo?
Não sei porque, mas fui tomada por uma esperança tão grande, uma certeza de que tudo iria se resolver. Só não sabia quando. Procurar me manter tranquila foi muito importante.
 Para me distrair eu olhava da janela as pessoas fazendo exercícios e correndo pelo calçadão. Muitas vezes, eu as imitava, imaginava que estava lá fora. Abria a janela pra sentir o vento.
Durante a quarentena, eu tentei fazer o teste de coronavírus para provar que eu estava bem, mas o exame era feito apenas em pessoas com sintomas. Graças a Deus, não tive a doença, nem tive sintomas
Fiquei bastante tranquila durante todo esse processo. Minha preocupação foi quando eu soube que o aeroporto de Malta fecharia dia 21 às 23h59 e minha quarentena acabava no dia 22.
 
Entrou em pânico?
Quase. Orei a Deus e falei: “eu entendi a lição. O senhor quer que minha história ajude as pessoas. Quer que eu fale do seu amor e que eu ensine o equilíbrio.” Afinal, eu trabalho também com terapia holística.
Quando eu me levantei da oração, me veio na mente: se eu estive na Itália no dia 6, a minha quarentena deveria acabar no dia 20 e, não, no dia 22 como me falaram.  Mandei um e-mail para a companhia aérea explicando a situação. Pouco depois, a polícia bateu na minha porta. Eu pedi autorização para sair no dia seguinte e eles concordaram. Foi uma correria. Por fim, consegui o voo.

Respirou aliviada?
Não por muito tempo. Ainda havia mais problemas. O pior momento foi quando eu fui embarcar na Turquia para o Brasil e eles viram a diferença do nome no cartão de embarque e do meu passaporte. Diziam que não era a mesma pessoa e pediram minha identidade. Percebi que durante o voo Malta/Istambul minha bolsa caiu aberta e eu havia perdido meu documento.  Depois de muito tempo tentando provar que eu era eu, só consegui embarcar porque mostrei o cartão de embarque do voo anterior.
 
Como foi desembarcar no Brasil e voltar para casa?
Foi uma emoção indescritível poder voltar para casa e reencontrar milha família, mas ainda não estou livre não. Apesar de não apresentar sintomas, estou enfrentando nova quarentena, pois cheguei de um lugar de risco. Não posso tocar em ninguém, nem mesmo na minha família.
Tem horas que, de forma instintiva, eu estendo os braços para minha filha e lembro que não posso tocá-la. Ontem, eu me esqueci: entrei no quarto dela para lhe dar o beijo de boa noite. Foi quando me lembrei da máscara no meu rosto. Fico tanto de máscara, que ela já está fazendo parte de mim.

Por que não escreve um livro contando detalhes das férias frustradas pelo coronavírus?
Eu estou pensando em escrever, sim, um livro, mas eu não diria que foram férias frustradas. Ainda estou pensando no título. Tem muita coisa interessante para contar. Em meio a todas as confusões e perrengues, a vida acontecia.
 
Qual lição você tirou desta viagem?
Aprendi que é muito importante manter a calma e o controle, que a oração tem um poder imensurável, pois Deus só me tirou de lá por que o seu povo orou. Eu recebo mensagens até hoje de pessoas falando o quanto oraram.
 
Como profissional de saúde e com a experiência de ter passado por tantos transtornos na Europa, como você avalia o coronavírus? Defende o recolhimento total? 
Eu vejo o afastamento social como ação prudente porque este vírus  tem um alto poder de contaminação. Estudos revelam que podemos nos contaminar, não só através de gotículas de um espirro, mas também através de superfícies contaminadas, já que ele resiste muito tempo fora de um organismo vivo. Muitos terão o vírus e não irão desenvolver os sintomas, mas outros poderão morrer. Muitos dizem que a porcentagem de mortalidade é baixa, mas não podemos pensar só em números. A morte de uma mãe, por exemplo, corresponde a 100% de pessoa para aquele lar.
Se você não pode parar e tem que sair às ruas, seja responsável, se cuide e procure não levar nada para a sua casa. Evite aglomerações, sempre lave as mãos e fique dentro de casa o máximo que puder. Este vírus não é brincadeira.

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