Negando as evidências de que a humanidade enfrenta um virus novo e agressivo, contra o qual são necessárias muitas armas, Jair Bolsonaro gasta suas energias em falas recorrentes e inúteis
Diante da desorganização da vida imposta pelo Covid-19 no planeta, governos de todo o mundo- de direita e de esquerda- preparam-se para socorrer os que já sofrem neste momento os efeitos do confinamento, necessário por conta da maior crise sanitária dos últimos cem anos. Sem consumo, a economia se esvai.
Os brasileiros seguem até agora a orientação para permanecer em casa. O foi conselho dado pelo Ministro da Saúde, que precisou recuar na quarta-feira e engolir parte de suas palavras anteriores para concordar com o presidente da República e permanecer no cargo. Pois Jair Bolsonaro, a quem as convicções cegam, lembra antigo cartoom onde todos os soldados de um batalhão marchavam corretamente, à exceção de um que se perguntava: “por que eles estão com o passo errado”?
195 países colocaram seus habitantes em quarentena, na tentativa de evitar a contaminação por um vírus novo e de comportamento agressivo, ainda pouco conhecido pelos pesquisadores. Ele pode levar à morte, já contaminou meio milhão de pessoas ao redor do planeta e estima-se que ainda fará muito estrago antes de dar sossego aos humanos. Jair Bolsonaro, que já deixou claro seu desapreço à ciência, não crê na capacidade destruidora do vírus e o compara a um influenza diminutivo. Por isso, quer todos na rua- trabalhando, comprando, vendendo, aquecendo a economia.
Sustentado pela ideia de que o coronavirus é uma invenção da mídia, o presidente da República fez dois discursos agressivos nesta semana, contrariando as medidas inicialmente tomadas pelo seu próprio ministro da Saúde e endossadas por autoridades médicas de reconhecida competência. Sua fala de terça-feira, que causou espanto pela negação das próprias palavras seis horas antes, foi um exemplo de menosprezo à saúde do povo. Mesmo diante das reações de estranhamento no seu entorno, das críticas volumosas nas redes sociais e dos panelaços, voltou no mesmo tom e tema na manhã de quarta-feira.
O que espera neste momento a maioria dos brasileiros é menos descrédito na realidade e mais ação naquilo que cabe ao governo fazer e que outros governos estão fazendo. Levar primeiramente ajuda à população que fica na base da pirâmide, aquela que trabalha um dia inteiro para comer no outro- são os ambulantes, pequenos comerciantes, autônomos, microempresários e outros. Um pacote de medidas para auxiliá-los agora, quando não devem sair às ruas para que não se contaminem, é urgente. Mas do que se falou até aqui, apenas o bônus de R$500 vai ganhando fisionomia.
Se o presidente da República aceitasse o fato de que o coronavirus existe, causa doença e pode ser fatal, lhe doeria menos. Assim ele poderia se unir aos governadores e inscrever seu nome na história como estadista de fato, ao assumir a liderança no combate à pandemia e às consequências que virão, são inevitáveis. Assim têm feito as lideranças dos EUA, da Itália, da França, da Alemanha, da China, da Índia, de Israel, do Irã...
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