Alegoria


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Quando Albert Camus morreu em 1960, num acidente de carro, ainda perduravam entre os franceses os ecos da euforia que o escritor argelino havia lhes despertado três anos antes, ao conquistar o Nobel de Literatura. Tinha escrito até então cinco grandes romances, um deles A Peste, que por conta da Covid-19 está sendo resgatado, reeditado, lido e comentado pelos leitores deste século XXI, assustados com razão diante da pandemia de Coronavirus que pôs em quarentena, até agora, 1/4 da humanidade.

Camus descreve uma epidemia que grassa na cidade argelina de Oran, obrigando autoridades a colocar em isolamento toda a população. Através do diário do médico Rieux, testemunha ocular, o romancista leva o leitor a assistir à evolução dramática da doença, desde o momento em que o mal desvela suas entranhas até o dia em que vai embora. Ao longo das páginas, sob a descrição realista dos sofrimentos físicos , outro texto pungente pode ser lido: é aquele que reúne os traços inalienáveis das mazelas humanas em meio à rara bondade que não se deixa aniquilar.

De uma densidade perturbadora, no início a narração se mostra a crônica de uma epidemia descrita em detalhes: os sintomas, o diagnóstico, a luta, as derrotas, as agonias, a esperança de uma vacina,as mortes, os sepultamentos, as incinerações. Paralelamente irrompem as reflexões sobre emoções individuais como egoísmo, desconfiança, solidão, medo, ansiedade; e impulsos coletivos como esforços para se adaptar à quarentena e tentativas de fuga. Aos poucos, e pela dor comum, alguns farão a custosa aprendizagem da solidariedade.

No primeiro plano evoluem os personagens- o bondoso funcionário Grand; o indeciso jornalista Rambert; o padre Paneloux; o intelectual Tarrou. E o Dr. Rieux, em diária esgrima com a peste. Entre os dois últimos estabelece-se um vínculo fraterno e, apesar do perigo mortal do contágio, eles se engajam na luta contra a praga. Personagens de origem, cultura e educação diferentes, unem-se pelo mesmo desejo de socorrer seus semelhantes. Para eles, alter ego de Camus, confessadamente ateu, o mal constitui uma injustiça irreconciliável com a ideia de um Deus bom e todo-poderoso.

Tarrou morre; Rieux escapa e não podendo reformar a ordem do mundo, adota a atitude que lhe dita o sentimento da miséria comum: ainda que se sabendo derrotado desde o começo, deve lutar com todas as forças de seu saber médico para retardar a morte dos seus pacientes.

Muitos críticos viram na ficção uma alegoria: Oran invadida pelos ratos infectados era a França ocupada pelos alemães; mas o tema pode ser mais expandido- para outro espaço e até para o humano: o mal pode nos contaminar quando menos imaginamos.

Reconhecido pela clareza de estilo, Camus oferece ao leitor frases atemporais, como esta: “No meio dos flagelos aprende-se que há nos homens mais coisas a admirar que a desprezar”. Ou esta: “A estupidez insiste sempre.”

Na primeira, palavras de esperança e aposta na vida; na segunda, palavras de perplexidade diante da teimosia dos convictos. São frases lúcidas e de leitura recomendada neste tempo de pandemia, onde discursos inomináveis vindos de Brasília apostam na morte.

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