Homero Antônio Rosa Júnior

'Tenho convicção que o coronavírus está circulando em Franca'


| Tempo de leitura: 13 min
"Estamos em estado de exceção no município e no País inteiro. Isto significa que temos que mudar nosso comportamento. É preciso isolamento social, esvaziar a cidade, parar com, praticamente, todos os serviços“
A Vigilância Epidemiológica de Franca investiga 15 casos suspeitos de coronavírus. O resultado do exame de quatro pacientes que apresentavam os sintomas da doença deu negativo. Até a tarde de sexta-feira, nenhuma pessoa na cidade havia sido diagnosticada com o vírus que está assombrando o mundo. As autoridades de saúde, no entanto, investigam uma morte ocorrida no Hospital do Coração.
 
O resultado atual não significa que a situação está controlada, muito pelo contrário. O surgimento de casos e de mortes é questão de tempo - horas, ou dias. Foi exatamente para tentar minimizar o estrago que a Prefeitura baixou decreto, quinta-feira, impondo uma série de restrições à população. Medidas semelhantes estão sendo adotada em, praticamente, todo o mundo.
 
As autoridades em saúde são claras em afirmar: se a população descumprir as ordens de ficar em casa, haverá uma explosão de contaminados com o coronavírus em Franca. Não há respiradores artificiais nem leitos de UTI suficientes para atender a uma explosão da demanda. Assim, dezenas de mortes serão inevitáveis.
 
O médico Homero Antônio Rosa Júnior, chefe da Vigilância Epidemiológica de Franca, integra o grupo criado para desenvolver ações de enfrentamento ao vírus. Ele afirma que não há outra alternativa. A prevenção é o melhor remédio para evitar a contaminação. Nesta entrevista, o especialista fala da gravidade da situação e faz recomendações importantes à população. 

Ao longo de sua carreira de 30 anos como médico, já havia se deparado com uma situação semelhante à que estamos vivendo?
Nessa proporção, nunca havia visto. Na Secretaria de Saúde e na Vigilância Epidemiológica, já passamos por cerca de dez epidemias de diferentes patologias. Em 2017, tivemos sete destas epidemias e, muitas delas, ao mesmo tempo, inclusive, de gripe H1N1, que tem muitas semelhanças com o coronavírus. A diferença é que já existia vacina contra a H1N1, que é a vacina normal de gripe, e também já tínhamos um remédio que poderia evitar o agravamento da doença, principalmente, para os pacientes crônicos que têm risco maior de serem acometidos de doença grave.
A proporção e a velocidade de disseminação do coronavírus é totalmente diferente do que a gente já havia se deparado.  Estamos numa situação de epidemia, praticamente, no globo terrestre inteiro. Os locais que ainda não foram infectados vão ser em algum momento, pois não existe anticorpo. Estamos diante de uma epidemia inédita. Ela é muito recente e não tem como a pessoa ter um anticorpo prévio.
No ano que vem, temos a perspectiva de ter uma vacina. Nenhuma vacina é liberada a toque de caixa. Tem que ter segurança e eficácia. Isto, na melhor das hipóteses, demora de um ano a dois anos. Não temos ainda medicação que possa assegurar que não vamos ter a gravidade da doença.

Como o senhor define o momento que estamos vivendo?
Estamos em estado de exceção no município e no País inteiro. Isto significa que temos que mudar nosso comportamento. A nossa rotina não pode mais acontecer, todos precisamos nos precaver. É preciso isolamento social, esvaziar a cidade, parar com, praticamente, todos os serviços e deixar só os essenciais para que a cidade não pare. É fugindo do contato das pessoas que vamos evitar a doença. O vírus não fica no ar, ele não tem asas e não pula. Só vamos adquirir se tivermos contato físico e respiratarório com alguma pessoa próxima.
Então, se eu sair de casa, for ao mercado, pegar um ônibus, aplicativo ou cumprimentar alguém, teoricamente, estou em risco.  Precisamos ter restrição durante algum tempo para evitar a disseminação do vírus. 
Todas as pessoas que pegarem o vírus vão ter gravidade? Não. Uma pequena parcela pode agravar. As pessoas mais vulneráveis são os idosos de uma forma em geral e todos aqueles que têm doença crônica que possa ter complicação mais grave. Este grupo pode chegar a 5% da população em geral. Os outros 95% da população, provavelmente, vão ter contato com o vírus, vão ter gripe comum com poucos sintomas e vão se curar espontaneamente sem medicação alguma entre cinco e sete dias. Portanto, a preocupação é com as pessoas vulneráveis.

O decreto baixado pelo prefeito Gilson de Souza e que impõe uma série de restrições à população era, realmente, necessário?
O decreto era totalmente fundamental. Nós estamos lidando com um vírus microscópico que ninguém enxerga e não sabe o cheiro, sabor ou característica física. Estamos enfrentando uma guerra biológica. Nesta guerra, não temos como dar um tiro no vírus.  Não sabemos onde ele está, nem como acertá-lo. É muito diferente de uma guerra tradicional.  Precisamos entender que tudo é diferente neste momento. 
Esvaziar a cidade e ficar todo mundo em casa são medidas muito importantes. Quanto menos pessoas estiverem circulando e interagindo fisicamente, menos chances de o vírus explodir na cidade. A explosão, neste caso, significa afetar várias pessoas ao mesmo tempo e que vão contaminar outras em poucos dias. Isto acontecendo, em dois dias poderá ter uma gigantesca epidemia com centenas ou milhares de casos. É essencial que a população se conscientize que as restrições estão só começando. Provavelmente, vão ser ampliadas porque não tem como controlar um vírus tão devastador como este, em número de casos e, não em número de mortes, se a população estiver na rua.
 
Na sexta-feira, primeiro dia em que o decreto entrou em vigor, havia muitas pessoas nas ruas e outras trabalhando normalmente. Como o senhor avalia este comportamento?
Uma atitude totalmente errada e prejudicial às próprias pessoas que desrespeitaram seus familiares, vizinhos e clientes. Não é uma punição, é um estado de exceção. Vamos ter prejuízos educacional, financeiro e de trabalho, entre outras situações, mas não há outra alternativa.
É como se estivéssemos em uma guerra mundial contra um único inimigo e a única arma que temos é ficar em casa.  Não há outra mensagem maior do que esta: fiquem em casa. Ajudem-nos, ajudem a si mesmo. Os clientes, fornecedores, vendedores, industriais, empresários e funcionários, todos, estão nesta mesma situação, no mesmo barco, no mesmo risco. Temos que esvaziar a cidade. Que todos fiquem nas suas casas.
 
O senhor acredita que o coronavírus já esteja circulando em Franca?
Tenho convicção epidemiológica que sim. A gente sempre conta com isto. Quando o primeiro caso é, oficialmente, detectado, existe sempre a probabilidade deste vírus já estar circulando nas pessoas. 
Nem todos têm o sintoma clássico, nem todos têm o diagnóstico laboratorial, nem todos procuram o médico. Isto já presenciamos em várias epidemias. No caso da dengue, esta situação é muito notória. É bem possível que o vírus esteja circulando.
E onde ele está circulando? Nas ruas. Nós precisamos tirar as pessoas das ruas e só manter os serviços essenciais de saúde, abastecimento e de segurança entre outras situações específicas. Só assim vamos evitar a circulação do vírus.
O coronavírus tem enorme facilidade de infectar as pessoas de maneira muito rápida e ao mesmo tempo. Passada esta fase inicial desta possível explosão de casos nos próximo dias, se fizermos o controle de restrição das pessoas, teremos chance de vencer esta batalha.
 
Quando Franca deverá enfrentar a explosão de casos?
Nesta sexta-feira, 20 de março, começou o outono. Esta estação é totalmente desfavorável para as nossas vias aéreas, em Franca, especialmente.  A umidade do ar cai a níveis, praticamente, irrespiráveis. Daqui para frente, é fundamental hidratação abundante, repouso, alimentação adequada, evitar contatos físicos e respiratórios com as pessoas. Nossa rotina a partir de agora em Franca tem que ser alterada. 
As pessoas precisam entender que só devem procurar o médico em situações extremas. Isto é necessário para evitar que sejam infectadas dentro da sala de atendimento ou da sala de espera. São ambientes insalubres sempre em qualquer lugar. Em qualquer lugar com aglomerado de pessoas, há risco real de contaminação por algum vírus e de pegar doenças, às vezes, muito mais graves do que está naquele momento.
É uma precaução necessária. Os prontos-socorros, as unidades de saúde, Upas e emergência têm que ser esvaziados pela população. As pessoas só devem procurar estes locais em caso de sintomas graves. No caso específico do coronavírus, são sintomas graves febre e falta de ar juntos, não, nariz entupido. Se estiver fazendo esforço para respirar, deve procurar atendimento médico imediato, seja coronavírus, ou outras doenças respiratórias.
 
Para que fique claro: só devemos procurar atendimento médico nestes dias se estivermos com febre e falta de ar? Somente neste caso?
Exatamente. Resfriado comum resolve sem remédio, como sempre resolveu. Nosso corpo já tem anticorpos que reconhecem o vírus do resfriado comum e ele naturalmente faz sua defesa. Se a pessoa quiser usar um xarope, um expectorante, um descongestionante, são medicamentos paliativos. Eles nunca vão atingir o vírus, nunca matam ou neutralizam o vírus. Quem tem capacidade de responder é o organismo que está bem alimentado, bem hidratado, sem estresse físico. 
Solicitamos de maneira encarecida que a população entenda isto e que só procure atendimento médico se for muito necessário, especialmente, nestas duas primeiras semanas que são, estrategicamente, necessárias que a gente faça a restrição de circulação das pessoas. A cidade tem que ser esvaziada.
 
Se as pessoas fizerem corretamente a lição de casa, o período de restrição vai durar quanto tempo?
É muito difícil prever isto porque estamos diante de uma situação inédita. Estamos aprendendo a cada dia, no mundo inteiro, como lidar com esta epidemia. Não tem como eu falar como vai estar a situação de Franca daqui a um mês. Pode estar uma catástrofe, pode estar uma situação tranquila, sem mortes.
É provável que a gente tenha doentes por coronavírus, mas trabalhamos arduamente, 24 horas por dia, para que não haja mortes.
 
Acredita que o coronavírus vai fazer vítimas fatais em Franca?
A gente espera, sinceramente, que não. Pode até haver investigação de mortes, especialmente, de idosos ou de pessoas que têm doença crônica. Às vezes, pode confundir, pois nem tudo é coronavírus. Os pacientes graves que têm prioridade de fazer o teste precisam ser bem avaliados e monitorados, não o paciente com resfriado comum. Este tem que ficar em casa.

Entre o vírus H1N1, a dengue e o coronavírus, qual é mais grave?
Todas estas doenças podem levar a óbito, especialmente, nas pessoas vulneráveis em termos de resistência imunológica, que são os idosos, as crianças muito pequenas e os que têm doenças crônicas.  Se a pessoa tem mais de 80 anos, é diabética, hipertensa, já enfartou, tem obesidade e desregularão nas gorduras, é um grande facilitador de agravamento se tiver qualquer resfriado, pode ser por H1N1, coronavírus ou qualquer outro. 
O que é diferente destas doenças respiratórias é a dengue, que não tem características respiratórias.  O vírus é transmitido pela picada de um inseto contaminado que pode dar outros sintomas.

O idoso, normalmente, é teimoso. É o momento de a família puxar a orelha, se for preciso, para que eles fiquem em casa?
Exatamente. Precisamos manter nossos idosos dentro de casa. Só devem sair em caso de emergência, pois eles estão expostos e são muito vulneráveis. Eles podem ter a situação agravada e morrer. 
Com jeito, as famílias devem orientar os idosos, fiscalizar e monitorar o tempo inteiro. É preciso fazer a higiene excessiva das mãos com muita frequência. É como se fosse uma neurose higiênica, ou seja, a cada momento temos que lembrar de lavar as mãos. Não é preciso sair correndo atrás de álcool gel, isto, não faz sentido. O álcool gel deve ser usado na exceção: saiu de casa e está longe da água, usa o álcool gel. Em casa, é água e sabão, que são tão ou mais eficazes do que o álcool gel.

O desespero por álcool gel, portanto, não é necessário?
Exatamente. O álcool gel é para quando a pessoa não tem acesso próximo de uma pia com água e sabonete. Isto é o ideal e nos protege bastante. A pessoa adoece pelo coronavírus ou pelo H1N1 porque se autocontamina.
Se não colocarmos as mãos na boca, no nariz ou nos olhos não vamos nos contaminar. A chance de se contaminar perto de uma pessoa com sintomas respiratórios é pequena perto da contaminação das mãos. É difícil, mas temos que mudar o hábito de por a mão na boca e na face.
 
Por conta das restrições impostas pelo decreto, muitas pessoas estão em casa e não apresentam sintomas, não viajaram e não tiveram contato com pacientes suspeitos de terem a doença. Elas podem viajar?
Não devem, terminantemente, não devem. A pessoa tanto pode levar o vírus para familiares e amigos, quanto pode trazer para Franca e infectar a família, os amigos e vizinhos. A restrição de circulação vale para tudo. 
Não é lazer, não é feriado. Estamos em quarentena domiciliar ainda sem restrição obrigatória, mas com recomendação forte para que as pessoas fiquem em casa. Ninguém será preso se sair, mas temos que entender que é o bem comum. Hoje, nesta situação de calamidade pública no País, o bem e o direito coletivo são muito maiores do que o direito individual.
 
O quem tem de prevalecer neste momento?
Consciência, consciência, consciência. Precisamos entender que na semana passada nós tínhamos hábitos, mas que hoje temos outros. Na próxima semana, com a evolução da epidemia, talvez, seja preciso implantar mais restrições. Então, por enquanto, vamos ter que deixar de lado o lazer, o trabalho e o social. Vamos avaliar a epidemia diariamente. Todas as semanas, vamos ter uma noção de como ela está evoluindo. Estamos 24 horas envolvidos com este trabalho.
Outra coisa que peço encarecidamente: os profissionais de saúde são humanos. Por incrível que pareça, eles adoecem e também têm temores. O médico, os enfermeiros e todos os que estão envolvidos na assistência à saúde têm que ser preservados e valorizados. Não os sobrecarreguem, não levem doenças para eles porque podemos correr o risco real de não ter quem nos atenda quando a gente adoecer. Os profissionais de saúde que estão na urgência e emergência, neste momento, não estão lá para atender casos rotineiros. Eles devem atender só urgências mesmo. Quem não está com problema de saúde grave não pode se expor e muito menos levar vírus para quem vai atender a população. Se a gente perder estes profissionais, seja por doença por afastamentos ou qualquer outro motivo, a cidade estará liquidada.
 
Se a população não fizer sua parte, teremos o caos?
Exatamente. O coronavírus tem um elemento chave: nos casos graves, que são muito poucos, o paciente terá que usar um respirador artificial. Em todo o País, a quantidade destes aparelhos é, extremamente baixa diante de uma epidemia. 
Na cidade de São Paulo está previsto um caos. Temos uma perspectiva de progressão desta doença de afetar milhares de pessoas podendo ocorrer uma quantidade absurda de óbitos .Mais uma vez, recomendo com muita veemência: não vão para São Paulo até a situação ser controlada. Isto pode demorar meses. A cidade de São Paulo hoje é o grande foco de disseminação do vírus para todos os lugares. Portanto, não vão para São Paulo.
 
Em Franca há respiradores e leitos de UTI em número suficiente?
O que está me deixando extremamente agraciado é a solidariedade de vários segmentos da sociedade francana na condução, na ajuda, no apoio e na disponibilidade em várias situações. Hoje, estamos coletando o máximo possível de possibilidades para enfrentar o caos. Se enfrentar o caos, vamos ter mortes por falta de assistência, de equipamento e de profissional de saúde. Portanto, não podemos chegar nem perto do caos, caso contrário, vamos ter perdas irreparáveis na sociedade inteira.
Felizmente, várias entidades estão apoiando e disponibilizando leitos e respiradores, mas o número é muito restrito e tem um agravante: Normalmente, quem precisa, vai ficar de duas a três semanas com este aparelho sem outro paciente poder utilizar. Eu repito, não podemos chegar nem perto do caos. Quanto mais doentes tivermos na cidade, mais teremos casos graves e mais respiradores vamos precisar e não vai ter o suficiente.
 
Ou seja, a situação é grave...
É muito grave, é gravíssima. Não temos casos graves ainda, mas a população tem que entender que o dia é hoje.  Não podemos esperar dois ou três dias fechar meu estabelecimento. Precisamos ter esta atitude coletiva, pensar no bem comum e entender que o momento é esse. Não podemos esperar que tenha cinco, dez ou 50 casos para tomar atitude porque, quando chegar neste ponto epidemiológico, já perdemos a batalha contra o vírus. Que Deus nos ajude, protegendo nossos cidadãos.

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