A betoneira parou


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Saí do consultório, hora de almoço tardia, e o carro da frente me faz um sinal – braço sinalizando curvado, à direita. Na pista, um caminhão betoneira para, ao lado do lugar do passageiro, o motorista sinaliza algo. Na dúvida, paro, atenta aos sinais.

O motorista do caminhão desce, trânsito parado, no farol do cruzamento da Av. Alonso y Alonso com a Av. Major Nicácio - estamos todos a cerca de dois metros do farol, e ele recolhe uma carteira. Vem correndo um homem e o chofer do caminhão pergunta se aquela carteira é dele. Ele diz que é do outro, leva consigo a carteira.

Imaginei que os dois tivessem atravessado a rua e o chofer do caminhão visualizou a cena em que a carteira caíra.

Visão atenta, já que o caminhão é veículo alto.

Entregue a carteira, o farol abriu e eu quis dar um sinal ao chofer do caminhão que tinha amado seu gesto solidário.

Segui em frente “de bem” comigo, com a humanidade. Há quem se incomode com o outro, a ponto de fechar o trânsito, de restituir a quem de direito o que é direito de quem.

Assim o mundo deveria girar, não aqui, de quando em quando, mas em qualquer situação. Pensei que isto não deveria ser motivo de espanto.

Diferenças são estranhamentos, e, no entanto, há mais identidade entre os seres humanos do que se possa imaginar.

Andamos descuidados do outro, ao lado. Do vizinho que passa. Bom saber que há quem zele pelos valores básicos. Empatia. Compaixão. Solidariedade. Atenção ao não umbilical.

Cimentos para gentilezas de alma, perecíveis, fundamentais para a Alegria.

Alegria: corrente que liga alma/mundo/natureza. Fonte/foz de encontros humanos. Transporte-betoneira para o amar/o ser amado, mesmo sabendo que somos seres inacabados/insatisfatórios.

Interdependentes, capazes de reconhecer: nada somos sozinhos. Nada.

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