Há nove meses, Eva Alves Maria, de 19 anos, começou um processo de transição para que sua identidade física seja a mesma daquela com a qual se identifica: uma mulher. A estudante nasceu em um corpo masculino e decidiu que chegou a hora de se apresentar aos outros e a si mesma da forma como se enxerga. A luta, porém, não é apenas interna. Eva tem de enfrentar a sociedade, seus preconceitos, julgamentos e ódios. Admite que esperava sofrer uma agressão. A triste expectativa tornou-se fato na madrugada do último domingo, 1º. Passada uma semana da violência sofrida, a transexual luta para identificar o seu agressor e ter o direito de viver como qualquer outra pessoa.
A jovem estudante conta que agora, com a fase de transição do masculino para o feminino, está se sentindo mais confortável com o próprio corpo. E como as mulheres de sua idade, vestiu uma roupa curta e foi para uma balada na noite de sábado, que terminou por volta das 4 horas de domingo.
“Minha mãe tinha medo de que acontecesse (a agressão). Sempre! Tanto é que no dia em que saí de casa, porque eu estava com uma roupa bem curta, ela ficou muito preocupada. Mas eu acho que (a agressão) não tenha nada a ver com a roupa que eu estava usando”, conta Eva.
Acabada a festa, a estudante e um grupo de amigos foram para a praça Sabino Loureiro, na Estação. A balada aconteceu nas proximidades. Eles estavam conversando, sentados no coreto, quando começaram a ouvir uma discussão entre um casal.
“Quando olhei, vi que ele (o agressor) estava apontando o dedo na cara da menina, ameaçando. Aí me levantei e fui tentar tirá-lo de perto dela. A gente começou a discutir. Ele queria que eu fosse para cima dele, que a gente brigasse... Mas percebeu que tinha minha gente comigo e, por isso, foi embora.”
Eva e seus amigos, então, voltaram para o coreto. A menina vítima das ameaças e suas amigas ficaram em um dos bancos da praça. Todos imaginavam que o problema havia acabado. Mas, cerca de meia hora depois, segundo a estudante, o agressor voltou com outros homens, armados com ripas de madeira.
“Assim que eu vi que eles estavam armados, eu fui para o rumo das meninas pedir ajuda. Fui para o lado do banco em que elas estavam sentadas, falei que estavam com ripas de madeira, falei que precisava de ajuda e, na hora que me virei, ele já estava na minha frente, com a ripa de madeira nas mãos.”
Eva tentou se defender das pauladas com o braço direito, que acabou quebrado. Levou ainda um golpe no rosto, que deixou um arranhão e um roxo no olho. Ela conseguiu jogar o agressor no chão, enquanto comparsas dele formavam uma roda, armados com ripas também, para que ninguém se aproximasse para defender Eva. Mas um dos amigos da estudante conseguiu furar o bloqueio e as agressões cessaram.
O agressor foi embora. Eva e suas amigas correram para o clube onde aconteceu a festa e chamaram a polícia. Estavam desesperadas, pois alguém disse que o agressor havia ido buscar uma arma. Felizmente, isso não se confirmou.
Eva tem certeza de que foi agredida apenas porque é transexual. “Eu não fui a única pessoa que defendeu a menina nem a única que interveio. Mas quando eles chegaram com a ripa de madeira, ele atravessou todo mundo e veio para cima de mim.”
Além da dor e das consequências físicas da agressão, Eva teve de enfrentar a si própria que, de tantos preconceitos vividos, tende a se acusar. “Em um primeiro momento, eu me senti culpada por toda aquela situação. Mas depois, eu percebi que não era minha culpa. Eu não tinha feito nada de errado!”
Eva espera que a polícia identifique seu agressor. “Sendo muito honesta, quando você é uma mulher trans e vive no nosso país, você espera por este tipo de coisa. Você sabe que uma hora ou outra isso pode acabar acontecendo. Agora, tenho tido receio de andar na rua, tenho tido medo de sofrer alguma retaliação. (...) Eu espero justiça.”
Mas, mais que isso, Eva espera voltar a viver como qualquer outra pessoa. “Eu gostaria que isso servisse para me fortificar e não para me travar. Sempre gostei muito de fazer as coisas que gosto de fazer e eu nunca tive medo de ser quem eu sou, de andar na rua, de viver a vida, de agir como uma pessoa normal. Afinal de contas, eu sou uma pessoa normal como qualquer outra.”
Na polícia
Eva prestou depoimento na DIG (Delegacia de Investigações Gerais) na última quinta-feira. Agora, a Polícia Civil trabalha para identificar o agressor. “Pedimos que se alguém tiver presenciado a agressão, que se dirija até a DIG e preste depoimento. Se a pessoa souber quem são os agressores pode denunciá-los anonimamente, ligando no 197”, orienta o advogado da estudante, Hugo Rafael Soares.
Trans são as maiores vítimas de agressões
Eduardo Valentino é presidente do Coletivo Arco-Íris de Franca, um grupo de militância LGBTQI+. Assim que tomou conhecimento das agressões sofridas pela estudante Eva Alves Maria, o militante, através do grupo, ofereceu apoio jurídico e psicológico a ela. Também acionou a rede de militância estadual para informar o caso e pedir orientação.
Segundo ele, não há estatísticas oficiais sobre a violência contra LGBTQI+ em Franca, mas garante que as mulheres trans são as que mais sofrem preconceito. “Basta andar pela região da Expoagro, do Guanabara, que vai ver muitas mulheres trans obrigadas a viver da prostituição. Não há políticas públicas para que elas possam ser encaminhadas para o mercado de trabalho”, opina Valentino, exemplificando que gays e lésbicas estão inseridos no mercado, enquanto é raro encontrar trans trabalhando.
Além do maior preconceito, as trans também são as principais vítimas de agressões. “As pessoas não enxergam uma travesti da mesma forma que elas enxergam um homem gay, por exemplo. A nossa blindagem social é totalmente diferente, porque a gente sofre agressões o tempo inteiro. E não é só agressão como a que eu sofri, é um simples olhar, é um tratamento diferenciado em um estabelecimento comercial...”, disse Eva.
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