'Papai matou uma assombração!'


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Quaresma é tempo de assombração e isso enchia de medo Diquim e Subaco. O temor até que raleava durante o dia, mas quando chegava a noite e a escuridão engolia a claridade do lampião solitário na cozinha da casa as ideia ruins pairavam sobre a cabeça dos meninos – fantasmas, almas penadas, o pemba, mula sem cabeça, assombração; enfim, toda uma legião de seres de outro mundo.

Então, numa noite, já deitados, reza pronunciada, Diquin e Subaco preparavam-se pra dormir quando barulho estranho veio lá do quintal.

- Diquin, o que é isso? – Subaco amedrontado perguntou ao irmão.

- Sei não, num quero nem sabê.

- Vai lá, espia pela greta da janela.

- Ce besta, sô! Vai ocê.

Paralisados de medo, os dois escutavam o barulho.

- Pai! – gritou Dikin – tem alguém no quintal.

- Ora, deixa de bobagem moleque, vai dormi se não leva sova –resmungou o pai no quarto ao lado.

Dormir como? Alguma coisa ruim estava chafurdando no quintal. Diquin tomou coragem, ajoelhou-se sobre a cama e olhou medroso pela fresta da janela.

- Credo em cruz, ave-maria, o bicho tá lá – sussurrou apavorado.

Subaco arrepiou-se todo e cobriu-se até a cabeça.

- O quê? O que tá lá Diquin?

Sob as sombras da mangueira, bem pertinho da cisterna, um vulto branco flutuava emitindo um som estranho, vindo dos infernos.

Apavorado, gaguejando, Diquin descrevia a cena ao irmão, e com muito esforço, gritou:

- Pai! Tem uma assombração lá no quintal!

A choradeira dos meninos acordou a mãe e o pai que saiu resmungando:

- Deixa de besteira – esbravejou, empurrando o filho – deixa eu vê!

Os olhos do pai mal acreditaram no que viram, aquele vulto branco, chacoalhando, flutuando na escuridão, o barulho sinistro. Certeza! Era fantasma.

- Muié! Gruda na reza que é fantasma e dos grande!

Ave-maria, Pai Nosso, Salve Rainha e todo o estoque de reza era clamado em voz baixa enquanto o pai carregava a cartucheira e gritava:

- “Sai daqui coisa ruim, que aqui é casa de cristão”.

Alheia ao apelo, a criatura continuava lá, balançando, fazendo ruídos esquisitos, em movimentos que subiam e desciam quase ao chão.

O pai não teve dúvida, mirou no meio da criatura e disparou. O ser soltou um berro descomunal e prostrou-se no chão. Fecharam a janela e passaram o resto da noite rezando. Assim que clareou, o resto da família ficou dentro da casa enquanto o pai foi lá ver a cara da assombração.

Enrolada em um lençol branco que estava estendido no varal e tinha engarranchado em seu chifre, jazia estrebuchada, mortinha da silva, a vaca Pretinha.

 

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