Avisto um caminho perdido
Edifício de gente olhando
Para o próprio umbigo
Escassez de água, fome, doenças
Futuro?
Não, agora!
Vertigem desordenada
Rosas vermelhas tortas
Avisto isto:
Cipó de maré cheia
Tripé de bananeira
Montanha de gente chorando
Não avisto igualdade
Nem tampouco sociedade
Meu lamento não é de hoje
Nasci com todas as dores do mundo
Na vida tudo se rega
E hoje é dia de entrega
Das lágrimas salgadas
Daquele navio cargueiro de mares profundos
Cais imundo
Desconhecem rios e mares
Olham pouco para os algares
Nunca ouviram falar em tupi ou curumim
Mas gostam de um banquete
Com macaxeira ou aipim
Que vergonha desse olhar torto
Pra gente humilde que come amendoim
Se hoje é dia de Índio ninguém chia
O que importa é feriado com abacaxi na mesa
Zezão, Zezão, a fartura vem da terra
E quem cuida da terra é seu irmão
Vem cá, toma a parte que te cabe nesse latifúndio
Opa, não, não, a terra não te pertence
Você que pertence à terra
Do mistério surgiu a terra, da terra o homem
De lá pra cá, daqui pra lá: nosso destino é tudo igual
Cinco palmos pra baixo da terra
Adubo de gente: pra ver se reconhece a própria mãe
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