A Organização Mundial da Saúde elevou para “muito alto”, o maior possível, o risco mundial da epidemia de Covid-19, a infecção causada pelo novo coronavírus. Até a tarde de sexta-feira, casos da doença já haviam sido registrados em 50 países.
Origem do coronavírus, a China já registrou 78,9 mil casos e 2.791 mortes. No Brasil, o Ministério da Saúde monitora 182 casos suspeitos. O País permanece apenas com o registro de um caso confirmado da doença em São Paulo.
Na tarde de sexta-feira, a Secretaria Municipal de Saúde de Franca informou que investiga o segundo caso suspeito de coronavírus na cidade. Trata-se de um homem que esteve em Milão, na Itália. Outro caso suspeito é de uma mulher que também esteve em Milão.
Nos dois casos, foram coletadas amostras biológicas e feitas orientações a eles sobre as medidas de precaução domiciliar. O material foi encaminhado para análise em São Paulo. Cerca de 20 pessoas estão sendo monitoradas em Franca por terem tido contato com os dois casos suspeitos, mas estão sem sintomas.
O surgimento de dois casos suspeitos colocou a cidade em alerta. A procura por atendimento médico, máscaras de proteção e álcool gel aumentou. Afinal de contas, há motivos para tanta preocupação?
Para responder a esta pergunta e tirar outras dúvidas sobre o coronavírus, o Comércio conversou com a médica infectologista Gabriela Ravagnani de Faria e Silva. Formada na Faculdade de Medicina de Marília, ela fez residência em infectologia na Universidade de Uberlândia e é membro da Sociedade Brasileira de Infectologia. Há dez anos, a especialista trabalha no Hospital Unimed de Franca.
O que é o coronavírus?
O corona é um tipo de vírus. Já existiam os coronavírus antes e, agora, surgiu um novo tipo na China. É como se fosse uma família de vírus. Quando a gente fala em novo tipo é porque é um material genético novo. Ele tem causado infecções nas pessoas com as características de uma gripe. A pessoa tem febre e sintomas respiratórios: dor de garganta, coriza, nariz escorrendo, tosse, falta de ar, dor de cabeça e fraqueza.
Algumas pessoas têm evoluído de forma grave com piora respiratória e insuficiência renal. Na maioria dos casos, são idosos ou portadores de doenças pulmonares, como enfisema ou asma.
Todas as pessoas que estiverem com estes sintomas devem procurar o médico?
Quem tem sintomas leves, como de resfriado comum, não precisa procurar o médico. Então, se a pessoa tem coriza, uma tosse sem febre, mas se não está tendo alteração importante no estado geral ou se não está tendo falta de ar, ela pode ficar em casa.
Já as pessoas que têm febre ou que já estão sentindo comprometimento importante do estado geral, falta de ar, tonturas e falta de apetite, devem procurar o médico. Mas, isto, pensando nas infecções respiratórias em geral, como uma gripe, não só no caso do coronavírus.
A suspeita de coronavírus atualmente se dá naquele paciente que está retornando de viagem das áreas de transmissão da doença. Temos uma lista de países que entram nesta relação, como China, Austrália e Itália.
As pessoas que viajaram para estes locais nos últimos 14 dias ou que tiveram contato com suspeitos de estarem com o coronavírus e que estejam com sintomas de gripe, também são suspeitas e devem procurar atendimento médico.
Se a pessoa não viajou e não teve contato com suspeito, mesmo estando com sintomas de gripe, não precisa se preocupar?
Perfeito. Se teve contato com quem viajou, mas se a pessoa que retornou ao País não tem sintomas, não há motivo para se preocupar.
Quem pegou coronavírus vai morrer? O vírus é tão letal?
Não, muito pelo contrário. A taxa de letalidade do vírus é em torno de 2%, ou seja, de cada cem pessoas que foram infectadas, uma média de duas pode morrer. Normalmente, as vítimas fatais são pessoas que já têm alguma doença preexistente, como as pulmonares, ou pessoas idosas.
O medo da doença está provocando uma grande procura por máscaras e álcool gel. Esta preocupação é necessária ou não há motivo para correria em busca desta proteção?
O vírus é transmitido por gotículas de saliva. Quando a pessoa tosse, estas gotículas ficam dispersas perto da pessoa num raio de um a dois metros. Na maioria das vezes, por um metro. Se o doente não tossiu ou não espirrou perto de outra pessoa, não tem porque utilizar a máscara.
A máscara é mais usada em áreas de grande aglomeração, como no interior de metrô, por exemplo. Em outras situações de não aglomeração, o contato se dá pelas mãos, principalmente. A pessoa tossiu, deu a mão para outra pessoa e acaba transmitindo as gotículas com o vírus. O contato se deu via mãos.
A medida mais importante para evitar a transmissão não são as máscaras. É a higienização das mãos, que pode e deve ser feita, preferencialmente, com água e sabão. Se a água e sabão não estiver disponível, use o álcool gel.
Então não é necessário a pessoa correr até o supermercado para comprar álcool? Basta lavar as mãos direito?
Sim. É até melhor.
No começo da semana, a Secretaria Municipal de Saúde informou que investigava o primeiro caso suspeito de coronavirus em Franca. Nova suspeita surgiu na sexta-feira. Há alguma confirmação?
Ainda não temos casos confirmados em Franca. Os casos suspeitos estão em acompanhamento pela Vigilância Epidemiológica Municipal.
O sistema de saúde de Franca está preparado para evitar a propagação do vírus na cidade caso realmente ocorra uma epidemia?
Eu posso responder pelo hospital em que eu trabalho, que é o Hospital Unimed. Nós estamos, sim, preparados. Nos antecipamos a toda esta situação. Antes do primeiro caso confirmado no Brasil, nós já montamos todo um fluxo, um protocolo de atendimento.
No nosso pronto-socorro, temos uma área separada para atendimento de casos suspeitos de coronavírus. Lembrando que caso suspeito é aquele com história de viagem para áreas de transmissão nos últimos 14 dias ou contato com caso suspeito ou confirmado de coronavírus.
Além da área separada, as equipes estão sendo treinadas e o protocolo já foi apresentado para toda a instituição. Ainda temos o Unimed Orienta, que é um serviço em que as pessoas podem buscar informações por telefone e o serviço de Telemedicina da Unimed. O paciente que passou pelo pronto-socorro e que depois da primeira consulta precisa de alguma orientação, ele poderá acessar este serviço para tirar dúvidas, até relacionadas a resultados de exames, com o médico por telefone.
Há motivos para as pessoas entrarem em pânico?
Não há motivo para pânico. O mais importante é que as pessoas estejam cientes do que é o coronavírus e do que precisam fazer. A recomendação é manter a calma e as mãos limpas.
Caso a pessoa adquira o coronavírus, ela precisa estar com boa saúde, ou seja, tem que se alimentar bem, praticar atividade física e dormir bem. Ainda não temos medicamento para tratar a doença. Então, a pessoa tem que estar com boa saúde para estar preparada caso aconteça alguma infecção.
A procura de pessoas com sintomas de gripe aumentou no hospital por conta do medo do coronavírus?
Não tenho números, pois o surgimento do primeiro caso no Brasil ainda está muito recente, mas a procura aumentou sim. Pessoas com sintomas gripais já ficam preocupadas em se tratar de coronavírus.
Já chegaram pessoas aqui com sintomas de gripe, que não têm fator de risco para ser coronavírus, mas que estavam preocupadas em se tratar da doença. Por isto, é importante sabermos quais são os critérios de casos suspeitos até para as pessoas se acalmarem um pouco.
Na maioria das vezes, as pessoas com sintomas gripais vão ter a gripe mesmo por influenza e, não, por coronavírus.
As pessoas também não podem acreditar em tudo o que é postado nas redes sociais. O melhor é checar as informações em fontes de confiança ou procurar um especialista...
Perfeito. Sempre que a pessoa ler alguma notícia relacionada ao coronavírus ou outras infecções, deve procurar a Sociedade Brasileira de Infectologia, sites de órgãos públicos, como Ministério da Saúde, Anvisa ou OMS, que são as referências confiáveis que temos, ou jornais e meios de comunicação confiáveis.
Só de ouvir falar em coronavírus a gente já se assusta. Ele é o vírus mais preocupante que existe?
Ainda é difícil de falar, pois é um vírus novo. Ainda não temos como fazer afirmações com certeza. Ao que nos parece, a letalidade não é muito mais alta do que a de outros vírus.
Na minha opinião, além dos problemas de saúde, o coronavírus também preocupa por conta da questão econômica. Áreas de turismo estão sendo fechadas, como na Itália. Não teve o Carnaval em Veneza. Escolas deixam de atender os alunos, indústrias deixam de funcionar. Há um impacto econômico muito grande e um custo muito alto para a saúde por conta destes doentes. A China construiu um hospital em dez dias com mil leitos.
Há um conjunto de fatores que está causando esta preocupação mundial com o coronavírus, mas, hoje, o que sabemos é que a letalidade é em torno de 2%.
A senhora acredita que o vírus será combatido logo ou vai demorar para ele ser controlado?
A nossa esperança é de que o fato de o Brasil ser um país tropical, com altas temperaturas, possa ser favorável ao combate. Nos países em que o vírus se espalhou mais facilmente, o clima é frio.
Não sabemos se o vírus terá o mesmo comportamento e se a transmissibilidade vai ser a mesma em um país tropical. Esperamos que a sobrevida do vírus seja menor, mas não dá para prever como vai ser no Brasil. O Ministério da Saúde e as secretarias e vigilâncias estão montando estratégias para conter o vírus. Ações estão sendo feitas e ainda há o fato de o clima ser diferente, mas não sabemos como será o comportamento do vírus no Brasil. O que sabemos é que os vírus respiratórios se espalham com mais facilidade no clima frio, até porque, as pessoas tendem a ficar mais aglomeradas neste período.
Devemos torcer para que o vírus seja combatido antes da chegada do inverno?
Exatamente. Na própria entrevista que o ministro da Saúde deu, ele disse que a gente não sabe se a espiral de transmissão do vírus estará alta no inverno.
As pessoas estão muito preocupadas com o coronavírus, mas parecem não se preocupar com outras doenças que estão mais próximas, como a dengue...
Sim. Não podemos nos esquecer das outras doenças do nosso dia-a-dia, como dengue e tuberculose, que também podem ser muito graves. A despeito do coronavírus, estas doenças continuam acontecendo.
Qual recomendação a senhora gostaria de deixar para os leitores?
As medidas mais importantes para evitarmos a transmissão são higienização das mãos e das superfícies que as pessoas tocam frequentemente e usar a etiqueta da tosse: quando for tossir, não se deve colocar a mão na boca. Se for possível, use um lenço descartável e, depois, despreze este lenço e lava as mãos. Se não tiver o lenço, o correto é tossir nos braços mesmo para que não ocorra a transmissão pelas mãos. Também é recomendado evitar aglomerações. Quem estiver doente, deve evitar sair de casa. No geral, a pessoa precisa sempre cuidar da saúde com boa alimentação é prática esportiva. Mantenha a calma e nada de pânico.
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