Rui Engrácia Garcia Caluz

'Sairei da Sabesp plenamente satisfeito e realizado'


| Tempo de leitura: 13 min
Estamos planejando uma intervenção importante no córrego dos Bagres, no ponto em que há uma escada na saída do efluente”
Estamos planejando uma intervenção importante no córrego dos Bagres, no ponto em que há uma escada na saída do efluente”
Pelo sexto ano consecutivo, Franca obteve a melhor avaliação do País em saneamento básico no ranking do Instituto Trata Brasil. Com 100% da água tratada e 100% de coleta e tratamento de esgoto, a cidade ocupa o primeiro lugar no levantamento desde 2014.
 
Investimento permanente, planejamento a longo prazo, gestão eficiente e constante inovação tornaram a cidade referência nacional em saneamento básico. Se a água que sai de nossa torneira é limpa e se não há esgoto correndo à céu aberto, em muito a cidade deve a um profissional: Rui Engrácia Garcia Caluz, 63.
 
Engenheiro civil com pós-graduação em engenharia de saúde pública e ambiental, Rui completará 40 anos de atuação ininterrupta na Sabesp no dia 8 de agosto. Só em Franca, já são 34 anos de serviços prestados, 30 deles como gerente.
 
Gerente do Departamento Distrital da Superintendência de Franca, composta por 16 cidades, ele chegou em setembro de 1985 e participou diretamente do processo que transformou Franca em orgulho nacional no quesito saneamento.
 
Rui também se destaca pela atuação ambiental e social. É fundador da ONG Associação Ecológica e Educacional Amigos do Rio Canoas, que surgiu da necessidade de se preservar o principal manancial de Franca. Ao longo dos últimos 18 anos, o grupo realizou o plantio de mais de 150 mil mudas na extensão do rio para reconstituir a mata ciliar. A ONG também administra a creche Verde Água na avenida Chafic Facuri e que atende a 190 crianças.
 
Depois de quatro décadas dedicadas à Sabesp, o engenheiro vai tirar o capacete. Aposentado pelo INSS desde o ano passado, Rui deixará a empresa em dezembro.
 
Antes da merecida aposentadoria, ainda contribuirá para tornar a empresa autossustentável e para que a nova captação de água do rio Sapucaí se torne realidade. É uma história que vale à pena contar. 

Como iniciou sua história de 40 anos na Sabesp?
Eu entrei na Sabesp no dia oito de agosto de 1980 na superintendência regional do Vale do Ribeira na cidade de Registro. Apesar de já ser formado em engenharia, entrei como técnico em tratamento de água. Como a Sabesp estava assumindo muitas cidades e a parte de obras demandava muita gente, fui promovido a engenheiro em menos de seis meses. Em 81, assumi o setor de obras na região de Botucatu. Alguns anos depois, retornei para Registro.
Em 1985, o Vanzo (José Everaldo Vanzo, superintendente da Sabesp em Franca na época) foi cursar pós-graduação em Saúde Pública em São Paulo. Com isto, o Natanael, que havia sido o meu gerente em Avaré, veio substituí-lo em Franca. Foi quando surgiu a oportunidade de eu também vir. Ele me trouxe em setembro de 85. Inicialmente, trabalhei na área de obras. 
Em 1990, houve uma reestruturação na empresa e a superintendência, que era sediada em São Paulo, se dividiu em duas. Com a mudança, o Vanzo assumiu a superintendência criada em Franca e eu ocupei o lugar dele na gerência de divisão, que é a parte mais operacional. Estou completando 30 anos como gerente, talvez, seja um dos mais longevos da Sabesp.

Ao longo das últimas três décadas, você participou de uma transformação que colocou Franca como referência em saneamento básico. Se orgulha de ter feito parte desta história?
É emocionante poder se lembrar de tudo o que a gente fez, do que passamos e dos companheiros que caminharam com a gente. Foi uma luta muito grande.
Quando chegamos aqui, ainda havia bairros com deficiência de água, sem esgoto. Na década de 80, era tudo muito difícil, não tinha dinheiro para nada. O Vanzo organizou mutirões para implantar rede de esgoto nos bairros. Ele fez um acordo com o Sidnei (Rocha), que era o prefeito: ao invés de a Prefeitura pagar a conta, fornecia manilhas cerâmicas para fazer a rede de esgoto. A Sabesp orientava a população. Isto, foi marcante.
Até a entrada em operação da captação no rio Canoas, em 1983, o abastecimento de água em Franca era crítico. Foi uma obra estrondosa. Não há nenhuma captação no Estado com estas alturas manométricas que tem aqui, com estas vazões. Franca é uma cidade muito alta e não tem manancial próximo. É tudo longe.
Na sequência, em 1998, veio o que chamamos de a obra do século passado, que foi a construção da Estação de Tratamento de Esgoto. Então, há 20 anos os córregos da cidade não recebem mais esgoto e são limpos. É prazeroso passar nas avenidas, fora deste período de chuva, e ver uma água limpa, despoluída. Isto, faz com que eu me sinta um cara realizado profissionalmente. Sairei da empresa com o sentimento de dever cumprido, com a satisfação de poder ver o que a gente fez junto com esta equipe maravilhosa da Sabesp que temos em Franca. Não há equipe mais capacitada, concentrada no mesmo local, dentro do universo da Sabesp.
 
Quando Franca se tornou referência em saneamento básico?
Em 2009, uma ONG preocupada com a questão do saneamento do País, passou a realizar o ranking Trata Brasil com indicadores que possibilitam a comparação entre as cem maiores cidades do País. Desde o início, Franca tem ocupado lugar de destaque. Em sete vezes, ocupamos o primeiro. Nos últimos seis anos, sempre aparecemos na primeira colocação. O resultado mostra que o saneamento aqui é de boa qualidade.
 
O que o saneamento básico de boa qualidade representa na vida das pessoas?
O primeiro indicador que dou como exemplo é a questão da mortalidade infantil. Quando a Sabesp assumiu o serviço em Franca, em 1977, a cidade registrava 48 óbitos de crianças que não completava um ano de vida em cada grupo de mil nascidos. Hoje, o índice está abaixo de dez.  Este indicador, por si só, já traduz a importância do saneamento. 
Podemos destacar também os casos de internações por doenças de origem hídrica ou de falta de saneamento, que são, principalmente, as diarreicas, dor de barriga, que matam muitas crianças. Nós, não temos isto aqui.
A água, hoje, atinge toda a cidade. Do mais rico ao mais pobre, ele tem água com a mesma excelência. O nosso laboratório de controle sanitário foi o primeiro a ser certificado no Inmetro por atender todas as exigências da ISO 17025. Quando ele diz que a água é boa, a análise tem reconhecimento mundial.
Além da água com qualidade, temos 43 estações elevatórias de esgoto para não deixar que nem um copo de água seja poluído. Sempre procuramos colocar o que há de mais recente em tecnologia para nos auxiliar neste processo. A busca incessante pela inovação é que, por exemplo, possibilitou a utilização do biometano em Franca.

Como o biometano está sendo usado?
Hoje, temos um equivalente de produção do biometano a 1,5 mil litros de gasolina por dia. A gente usa na faixa de cem litros. Os veículos à diesel ainda não são adaptados para o uso de gás. Só a nossa frota leve, de caminhonete para baixo, que usa o biometamo. Atualmente, 38 veículos usam o combustível.

É possível a Prefeitura, Câmara ou hospitais usarem o biometano que sobra?
O prefeito Gilson de Souza protocolou na Sabesp pedido de parceria para usar o metano em uma van da Saúde. Dentro da empresa, pretendemos usar o combustível excedente para outros fins, como geração de energia elétrica. Precisamos comprar equipamentos compatíveis. Acredito que dentro de um ano já seja possível estar utilizando.
O sistema de abastecimento de água e tratamento de esgoto demanda muita energia. Pagamos mais de R$ 2 milhões por mês para a CPFL. Somos o maior consumidor da CPFL na cidade. Além da economia de custos, vamos preservar o meio ambiente.

De que maneira a Sabesp pretende se tornar autossustentável energeticamente?
A Sabesp está avançando na chamada economia circular, numa ETE sustentável. No futuro, a intenção é não ter mais rejeitos na empresa, transformar tudo em insumo. O lodo tipo B, igual ao que a gente tem aqui e que era usado na agricultura, foi proibido em 2011 pelo Conama. Só pode ser usado o classe A, aquele que já foi pasteurizado. Com isto, estamos jogando matéria orgânica, fósforo e potássio no aterro.
Nosso plano futuro é buscar tecnologia que já existe no mercado para transformar o lodo tipo B em classe A e poder utilizá-lo na agricultura. Com isto, deixaremos de ter o rejeito e vamos usar na agricultura. O projeto de transformar nossa ETE em sustentável é de curto e médio prazo.
Também estamos planejando uma intervenção importante no córrego dos Bagres, no ponto em que há uma escada na saída do efluente. O engenheiro João Comparini desenvolveu um estudo para colocar uma turbina lá e gerar energia. Temos a queda de água e vazão no local. Só falta a turbina para gerar energia. O trabalho está em andamento e deve sair este ano ainda. A ideia é usar a energia na própria ETE.

As obras de construção da captação de água no rio Sapucaí vão mesmo ser reiniciadas?
Sim, agora vão. O processo de licitação está na fase final. No dia 29 de fevereiro, serão abertas as propostas. O valor das obras para completar o sistema é superior a R$ 33 milhões. O prazo para conclusão é de 840 dias. A adutora propriamente dita está assentada. Falta a travessia no rio Santa Bárbara na estrada que vai para a Cevasa, as ancoragens da tubulação e as caixas de registro e de manobra. A expectativa é que, na primeira etapa, a gente já consiga, no ano que vem, colocar água nos reservatórios da região do jardim Aeroporto.

Até a conclusão das obras, a atual  captação no rio Canoas dará conta de atender a demanda ou a cidade poderá correr risco de falta de água?
O Canoas, mais o Pouso Alegre e os dois postos que temos em Restinga, que compõem a nossa produção, dão conta se não tiver uma estiagem severa como aconteceu em 2014. De lá para cá, não tivemos mais nenhum episódio de falta de água durante a seca.
Este ano, aparentemente, está chovendo bastante. Não sei como será em setembro. Sempre causa um estresse no período da seca. A maior tristeza é ver uma cidade com falta de água. Acredito que, com a produção que temos hoje, redução nas perdas e a parceria da população na economia, não teremos problema de abastecimento.
 
Qual é a perda de água registrada em Franca?
Conseguimos uma redução muito significativa nos últimos anos. Saímos de uma perda de mais 240 litros por ramal dia e chegamos a 140. Ramal é a ligação da casa. Franca tem 134 mil ramais, ou seja, temos 23% de perda, o que é um índice baixo comparando-se com outras cidades. É importante esclarecer que não estamos falando de perda total de água. Faz parte da conta a perda não física, que é a imprecisão do hidrômetro e as fraudes, entre outros fatores que impedem a correta medição. Não há nenhuma cidade do porte de Franca com índice de perda menor.
 
Em se tratando de água e esgoto, como você define a situação de Franca?
Franca tem uma condição de excelência. Temos pleno abastecimento, plena coleta, pleno tratamento e não há falta de água. Os casos de falta de água são muito pontuais. Temos um indicador da central de atendimentos, que registra chamadas com reclamação de falta de água. O índice é muito baixo.
 
Se as reclamações de falta de água são baixas, o mesmo não se pode dizer em relação aos buracos abertos pela Sabesp nas ruas da cidade. Por que se demora tanto para consertar?
Se tenho uma frustração, é a qualidade do asfalto que fazemos. Não temos mão de obra para isto e o serviço é terceirizado. No ano passado, tivemos problema com a empresa que fazia o serviço de maneira muito ruim. Uma das grandes dificuldades de empresa pública é conseguir romper contratos. Às vezes, o processo leva dois anos na Justiça. Um exemplo claro é a obra do rio Sapucaí, que está parada há três anos por conta de discussão na Justiça.
Desde o começo de dezembro, graças a Deus, contratamos nova empresa que tem origem no setor de pavimentação. Mas o problema é que começaram as chuvas. Não tem como colocar asfalto com tanta água. É um desafio permanente que procuramos equacionar.
Estamos avaliando alternativas. Uma das ideias é fazer uma pavimentação provisória, com equipe própria, com asfalto à frio, tão logo o serviço na rede seja concluído. Depois, a empreiteira vem e conclui o trabalho dentro do seu cronograma.
 
Ao longo desta entrevista, você falou sobre projetos de médio prazo que serão implantados na empresa. Mas, você não irá assistir na condição de funcionário, pois vai dependurar o capacete de engenheiro no final do ano...
É isto memo. Já estou aposentado pelo INSS desde o ano passado. Em dezembro, vou aproveitar um plano de demissão incentivada da empresa aberto em 2018. Eu me inscrevi logo no início e programei minha saída para dezembro próximo.
 Deixarei a Sabesp com 40 anos de serviços prestados. Sairei plenamente satisfeito e realizado. Trabalhar na Sabesp foi uma realização profissional incrível. Sempre tive uma gratidão enorme pela empresa. Foi esta empresa que permitiu que eu criasse meus filhos e que tivesse uma vida digna. Isto, não tem preço.
 
Como avalia os comentários de que a Sabesp poderá ser privatizada pelo Estado?
A Sabesp, antigamente, quando assumia os serviços, dava ações aos municípios. Essas ações, praticamente, não valiam nada. Hoje, a empresa está no mercado de ações de Nova Iorque. A Sabesp dá lucro. Segundo estimativas, está avaliada em R$ 40 bilhões.
A empresa, por lei, tem que remunerar os seus acionistas com metade de seu lucro. No ano passado, o lucro da Sabesp foi R$ 2,8 bilhões. Isto, que dizer, por exemplo, que o governo de São Paulo, que é o maior acionista, recebeu R$ 700 milhões.
No momento em que a empresa está ajustada e dando lucro, não entendo que precisa ser privatizada. Se a empresa está ganhando o jogo, não deve ser mexida, mas, isto, não depende só do técnico. Depende da diretoria.
 
Você foi vereador por dois mandatos. Pretende se candidatar novamente?
Não tenho mais esta intenção.  Foi muito gratificante ter feito parte da Câmara de Franca, que é uma das mais econômicas do País. Fiz parte de legislaturas muito boas e que colaboraram com o Poder Executivo. A sustentação que o então prefeito Sidnei Rocha teve da Câmara foi fundamental para que ele conseguisse implementar suas propostas para ajudar no desenvolvimento da cidade.

Com a sua experiência de engenheiro, você acredita que o problema das enchentes em Franca tem solução?
Tem, sim. Há um estudo com propostas de melhoria feito pelo Centro Tecnológico de Hidráulica da USP mostrando o que precisa ser feito. O projeto não é recente e foi pago pelo comitê de bacias hidrográficas do Sapucaí-mirim. O problema é que não são obras baratas.
A implantação depende de dinheiro dos governos estadual e federal, mas, que tem solução, tem. Eu brinco que, na engenharia, há solução para tudo. O problema é o custo.
 
Obrigado pela entrevista. Parabéns pela merecida aposentadoria e por tudo o que fez pela cidade...
Eu que agradeço e fico muito lisonjeado pela oportunidade de ser entrevistado, que eu considero como uma homenagem que o Comércio está prestando para mim e para a Sabesp. A imprensa de Franca sempre foi muito justa com a gente, o que é primordial. Ter os meios de comunicação te ouvindo e te dando a oportunidade de se explicar, é fundamental. Sempre tivemos uma relação de transparência muito boa, mesmo nos períodos mais difíceis. Só tenho a agradecer a imprensa que sempre colaborou com a gente no sentido de poder levar a informação correta para as pessoas.

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