Paulo Guedes, nome respeitado pelo empenho em acertar demonstrado à frente do ministério da Economia, encontra-se entre os que alcançaram melhor avaliação entre os brasileiros em recentes pesquisas. É tido como sério, focado, bem intencionado. Mas sofre de um problema que está ligado a um tipo de incontinência verbal que o acomete em momentos onde isso não poderia acontecer.
Foi o que se deu na última quarta-feira, quando ao tratar do câmbio, assunto no qual inovou, pois até então nenhum ministro ousava fazê-lo em público, foi protagonista de uma fala infeliz cujas ressonâncias se fizeram sentir imediatamente. Seu discurso, em Brasília, seguia tranquilo. Ele comentava a subida do dólar nos últimos dias, o que não lhe parecia problema sério, pois o Brasil iria importar menos, “fazer substituição de importações, turismo”. Mas essa última palavra parece ter desencadeado nele o que viria depois, quando mencionou períodos em que o real estava mais valorizado: “Era todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para a Disney, uma festa danada.” Diante da repercussão muito negativa, pediu desculpas.
Não foi a primeira vez que comentários contrários ao próprio contexto se tornaram motivo de crítica. Na semana anterior, no dia 7 de fevereiro, o ministro defendia a proposta do governo de reforma administrativa, em palestra na Escola Brasileira de Economia e Finanças. Ao criticar o aumento de 50% (acima da inflação) do funcionalismo público, além da estabilidade na carreira e aposentadoria generosa, pecou feio na generalização, comparando todo funcionário a parasita: “O hospedeiro está morrendo, o cara virou parasita”. No dia seguinte, pediu desculpas.
Antes disso, presente em Davos, no painel que tratava do futuro da indústria e do trabalho, afirmou que a produção de alimentos no Brasil dependia de agrotóxicos e defendeu a política ambiental do governo: “ As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer.” Pegou muito mal. Ele se desculpou.
Em outubro criticou o que seriam, na sua opinião, protestos convocados pela oposição para “quebrar tudo”:
“Quando o outro lado ganha, com 10 meses você já chama todo mundo para quebrar a rua? Que responsabilidade é essa? Não se assustem então se alguém pedir o AI-5.” A última frase caiu como bomba no STF, na Câmara dos Deputados, no Senado. Claro que ele se desculpou.
Quatro situações parecidas e nem se põe nessa conta a frase rude com que adjetivou gratuitamente de “feia” a mulher do presidente da França, reforçando a grosseria de Jair Bolsonaro. Também se desculpou.
Pedir desculpas por ter se equivocado na expressão de intenções e pensamentos é louvável. Mas o excesso de escorregões pode ser alguma vez fatal. Tanto vai o vaso à fonte que um dia se quebra- lá diz o ditado popular.
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