Fábio Celso de Jesus Liporoni

'A vida me motiva a acordar cedo e trabalhar'


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'Eu não  sonhava que um dia um pudesse  chegar aonde eu cheguei, mas trabalhei e me esforcei muito'
'Eu não sonhava que um dia um pudesse chegar aonde eu cheguei, mas trabalhei e me esforcei muito'
Fábio Celso de Jesus Liporoni, prestes a completar 82 anos, segue firme e forte. A vitalidade é de fazer inveja. Advogado bem-sucedido e empresário de sucesso, despacha todos os dias na sede da empresa ao lado dos três filhos. O leque de atuação foi ampliado. As ações previdenciárias, que lhe renderam fama e dinheiro na cidade, hoje dividem espaço com imobiliária e investimentos na construção civil. Os dois prédios existentes na orla de Rifaina levam a assinatura de Fábio Liporoni.
 
Doutor Fábio, como é conhecido, foi vereador por quatro mandatos e presidiu a Câmara seis vezes. Como parlamentar, participou da votação de projetos importantes, como os que criaram o Distrito Industrial, a Francal, Emdef, Sabesp e o Plano Diretor do Município. 
 
Certamente, é o político mais velho em atividade em Franca. Difícil encontrar no País um líder partidário que tenha 81 anos.  Pois bem, há mais de dez anos, doutor Fábio é o presidente do diretório municipal do MDB, participa de reuniões com filiados e prepara a legenda para a disputa das próximas eleições.
Advogado, dono de imobiliária, construtor de prédios, família criada, vida sossegada... O homem que aposentou cerca de quatro mil pessoas em Franca agora, vai curtir a merecida aposentadoria, certo? Errado.
 
Doutor Fábio não para. No próximo dia 14 vai lançar na Casa da Cultura três livros que acaba de escrever: A primeira publicação é O Colecionador de Histórias Reais. São relatos verídicos que ele testemunhou ao longo de oito décadas. Liporoni também lançará duas pesquisas que ele realizou. Uma sobre sobrenomes espanhóis em Franca e outra sobre os sobrenomes italianos existentes na cidade. Antes de apresentar os livros, doutor Fábio recebeu o Comércio no escritório em que despacha todos os dias para contar um pouco de sua história real.
 
Quais histórias irá contar no livro?
Eu falo sobre minha vida, meus tempos de estudante, o primeiro emprego, noivado, casamento, os primeiros tempos na faculdade, meu ingresso na política, crescimento profissional e os primeiros passos no setor de loteamentos. São todas histórias reais. Não é nada inventado. 
Eu começo falando sobre meus avôs, que são espanhóis, do lado da minha mãe, e italianos, do lado do meu pai. Eles são imigrantes. Eu conto a história dos navios em que eles vieram para o Brasil, o tempo que gastaram, o trabalham que realizavam. Dentro do possível, procurei resgatar a história deles. A renda do meu livro será toda doada para a instituição Alberto Ferrante. Eu (mesmo) que escrevi o livro, auxiliado por uma pessoa muito cara para mim, que tem o apelido de Lú. Eu fui ditando e ela escreveu.

Como foi viajar no tempo e reviver tantas histórias?
Foi um sentimento de realização muito grande. Já estou até pensando em lançar o segundo volume, pois muitas coisas ficaram para trás. Testemunhei várias passagens, tenho muitas histórias para contar e não foi possível reunir tudo em um só livro de duzentas e poucas páginas. Estou anotando tudo o que deveria ter escrito neste livro e que me esqueci ou que não coube.
 
Tem alguma história que o senhor possa nos contar?
Eu falo sobre meus familiares, que são imigrantes de origem italiana e espanhola. No livro, eu conto sobre a partida deles para o Brasil, o possível nome do navio que meus avôs vieram.
Eles vieram separados, mas eram navios da mesma firma, que era especializada em fazer este tipo de transporte. Vieram para o Brasil com a cara e a coragem em busca de trabalho e de uma vida melhor.
Meu avô era italiano, trabalhava na roça e largou a casa onde morava. Eu fui lá e meus primos disseram que a casa estava fechada há mais de cem anos. Falaram para eu ficar com ela para mim. Meu pai morreu com 101 anos.

Seu pai veio direto para Franca?
Não. Meu pai nasceu no Brasil em 1902. Primeiramente, a família se estabeleceu na região de Jeriquara, Alto da Serra, onde plantava café. Depois, se transferiu para a fazenda Cotia, na região do Bom Jardim, perto de Ribeirão Corrente. Lá, meu pai e os irmãos compraram um automóvel.
Teve uma particularidade interessante: eram três irmãos parecidos e um só tirou carta. Então, quando vinham para Franca com a caminhonete que eles compraram, eles pegavam a carta e vinham como se fosse aquela pessoa habilitada. Os guardas paravam, olhavam para o documento, para o rosto, viam que era parecido mesmo e diziam que estava tudo certo. “Pode tocar em frente” (risos).

O senhor também fez um levantamento dos sobrenomes espanhóis e italianos em Franca. Como foi este trabalho?
Eu venho fazendo esta pesquisa há muitos anos. Ultimamente, a apuração foi intensificada, pois, ao reviver a história dos meus avôs, foram aparecendo muitos sobrenomes novos. Acredito que reuni nos livros todos os possíveis sobrenomes de origem espanhola e italiana existentes em Franca. É um belo material histórico que as pessoas não podem deixar de ler.

O senhor calcula quantos sobrenomes destes imigrantes há em Franca?
Eu não fiz a conta. Não sei falar, mas posso dizer que é muita coisa. Deu trabalho para fazer a pesquisa.

Qual a maior colônia existente em Franca?
Com certeza, a de italianos. Os espanhóis vieram para a região para trabalharem na lavoura e os italianos também vieram para a lavoura substituindo a mão de obra escrava que havia sido abolida. Vieram muitos italianos estudados e preparados.
 
Seu pai veio da Itália?
Não. Ele foi o primeiro filho nascido no Brasil. Ao todo, eram 12 irmãos. Meu pai tinha o dom de curar a doença chamada erisipela. Em três dias, o doente sarava. Era uma coisa impressionante.
Meu pai se chamava João Liporoni e foi motorista de táxi a vida inteira, até se aposentar. Ele teve quatro filhos.
 
O senhor nasceu onde?
Eu nasci em Franca no dia dois de maio de 1938. Tem uma história interessante que eu conto no livro: na época, meus pais moravam em Claraval, na região da Fazenda da Pedra. Já com a gravidez bem adiantada, minha mãe passou mal e meu avô trouxe ela às pressas para Franca. Eu nasci aqui e voltei para lá uns 15 ou 20 dias depois.
 
Como foi sua adolescência, o primeiro emprego?
Meu primeiro emprego foi na Jussara, na época do “quebra-quebra”, que foi a mudança do leite cru para o pasteurizado.  Os produtores vendiam o leite em garrafas e deixaram na porta das casas dos compradores. Esta prática foi proibida e causou muita polêmica, dividiu a cidade. Houve um quebra-quebra e os leiteiros invadiram a Jussara. Isto tudo eu conto no meu livro, tem as fotografias.

Quantos anos o senhor tinha na época?
Eu tinha 18 anos. Eu era escriturário e trabalhava no escritório junto com meu tio, Antônio Alarcom Garcia, que era chamado de Tio Tunico. Ele foi homenageado no meu livro, pois foi uma pessoa muito importante para mim.
Ele me dava o serviço mais difícil que tinha no escritório e deixava os outros funcionários mais folgados. Um dia, eu reclamei e falei: “tio, por que o senhor me dá o serviço mais difícil”?  Ele falou que um dia eu iria me lembrar disto.  Na verdade, era uma escola para mim e me ensinou muito sobre contabilidade. Agradeço muito. Quando passei para a fábrica Nelson Palermo, calçados Francano, eu já cheguei chefiando o escritório.

Quando o senhor decidiu cursar Direito e se tornar advogado?
Antes de me casar, eu participei de um grupo que se mobilizou para implantar a Faculdade de Direito de Franca. Antes, era preciso estudar em Niterói ou Uberaba. Meu irmão estudou em Uberaba. Quando ele foi fazer a matrícula, fomos juntos com o Alfredo Costa, que era dono do jornal Comércio da Franca e também tinha uma fábrica de meia.
Na hora de pagar as despesas lá, ele me falou: “você não vai pagar nada, eu pago tudo, pois eu tenho uma fábrica de meia e você ainda tem que fazer o pé de meia”.
Eu ajudei a criar a Faculdade de Direito. Foi uma luta danada. O Onofre Gosuen era candidato a prefeito. Ele disse que, se ganhasse, o primeiro ato seria criar a Faculdade. Nosso grupo trabalhou para ele e facilitou a sua vitória. Eleito, ele cumpriu a promessa.

O senhor imaginava que iria se transformar em um dos advogados mais conhecidos e respeitados de Franca?
Eu não sonhava que um dia pudesse chegar aonde eu cheguei, mas trabalhei e me esforcei muito. Juntamente com um colega, que eu homenageio no livro, que foi o Jépy Pereira, consegui ter muito sucesso na profissão.
A gente tinha uma ligação ampla. Ele se sentava ao meu lado no escritório. Inicialmente, trabalhamos juntos no escritório que ficava na travessa Archetti. O Jépy foi uma pessoa muito boa para mim e me ajudou bastante.
Eu peguei umas quatro ou cinco mil ações. Foi uma coisa inédita. As pessoas não tinham dinheiro e só pagavam no fim, quando recebiam. Chegava a demorar cinco, seis, oito, dez anos, mas ajudou muita gente a se aposentar ou receber pensões.  Até hoje, eu tenho ações em andamento. 

O senhor ainda segue trabalhando?
Sim. Eu atendo muita gente. Temos um departamento jurídico no escritório. Eu tenho três filhos: Fabinho, Adriana e a Tânia. Eles são advogados e trabalham comigo.
Os três moram no mesmo condomínio que eu. São quatro casas anexas. Toda quarta e quinta-feira eles almoçam na minha casa. Até as empregadas deles vão lá e almoçam com a gente. Temos uma vida muito normal, muito boa.
 
Calcula quantas pessoas ajudou aposentar?
Não sei o número exato, mas acredito que tenham sido umas três ou quatro mil pessoas. Foram estas pessoas que me elegeram vereador por quase 20 anos. Eu ia de casa em casa, atendia com carinho e eles retribuíam.
Fui vereador ´pr quatro mandatos. Neste período, tive a oportunidade de ser o presidente da Câmara por seis vezes. 
 
Além de atuar como advogado e político, o senhor ampliou o ramo de negócios para o setor de imobiliárias e construção civil?
Sim. Nós temos dois prédios em Rifaina. A cidade era parada, quieta, não tinha praticamente nada, mas eu acreditei no potencial.
Um dia, chamei meus filhos e disse que pretendia fazer um prédio lá. Eles me chamaram de doido, disseram que não iria vender. Eu insisti e eles foram forçados a fazer. Vendemos tudo na planta graças à credibilidade que temos e à qualidade do empreendimento.
Com o sucesso do negócio, resolvi comprar uma casa do outro lado da ponta da praia para derrubar e construir outro prédio. Minha mulher falava: “não faz isto, não, ninguém vai querer comprar”. Fiz o negócio e também vendemos tudo na planta.
Ajudamos no desenvolvimento de Rifaina e fizemos muitos amigos na cidade. Agora, em fevereiro, vou receber o título de Cidadão Rifainense. 

Mesmo sem cargo eletivo, o senhor continua atuando na política?
Sim. A política é um veneno bom, que corre nas minhas veias. Eu sou o presidente do MDB. Até hoje, fazemos reuniões partidárias aqui na minha sala. O pessoal vem aqui, conversamos e decidimos muitas coisas.  

O MDB vai disputar as eleições para prefeito este ano?
Vamos sim. Já temos até o pré-candidato, que é o ex-prefeito Alexandre Ferreira. 

Pensou em ser prefeito de Franca?
Nunca pensei. Não gostava de ser prefeito. Eu sempre gostei mais do Legislativo, aprovei leis importantes e ajudei os prefeitos na medida do possível. Na condição de presidente da Câmara, tive a oportunidade de assumir a Prefeitura, mas nunca forcei nada e recusei diversas vezes. 

Como avalia o governo Gilson de Souza?
O Gilson é muito inexperiente como prefeito. Ele foi um bom deputado, mas vacilou como prefeito. As pessoas reclamam muito dele. O Gilson poderia ter feito um trabalho mais voltado para o povo. Ele é muito populista, gosta de festa e de enfeitar a cidade, mas deixa os buracos nas ruas, não tem uma grande obra. Ele é muito bonzinho, amigo de tudo mundo, mas deixa a desejar como administrador.

O senhor caminha para os 82 anos, é advogado e empresário muito bem-sucedido. O que move o senhor a seguir trabalhando todos os dias?
A vida me motiva a acordar cedo e trabalhar. Sempre trabalhei, gosto de trabalhar e vou para o escritório com prazer. Meus filhos me ajudam muito e sou bem amparado por eles. Venho para o escritório todos os dias. O trabalho dignifica, enobrece o homem e ajuda a conseguir as coisas e a ter uma vida melhor. Enquanto Deus me der saúde, vou seguir trabalhando.
Tem uma história interessante que eu conto no meu livro também: uma vez, cheguei perto do meu pai, que tinha cem anos, e perguntei o que ele fazia para viver tanto. Ele falou: “olha meu filho, nunca bebi, nunca matei, nunca roubei, nunca briguei, não tenho inimigos”. Eu falei: “então, vou passar o senhor”. Minha mãe morreu com 104 anos. Meu pai me autorizou a passar a idade dele, mas falou para eu não passar a idade dela. Ou seja, ainda tenho uns 20 anos pela frente.
 
O senhor se sente um homem realizado?
Me sinto muito realizado. Valeu à pena tudo o que vivi. Minha vida foi muito boa, graças a Deus. Minha esposa, Niza, me ajudou muito. Preciso falar bem dela, ela acreditou em mim, viu que eu tinha boa cabeça. Não sei o que eu faria sem ela. Construí uma família maravilhosa e consegui muitas coisas. Só tenho a agradecer. Tem muitas outras coisas que gostaria de fazer, mas não sei se vai dar tempo nestes últimos 20 anos de vida que me restam.

O doutor Fábio faz parte da história real de Franca?
Um contador aposentado da Câmara, Reinaldo Afonso, disse em depoimento no meu livro que Franca me deve muito por eu ter ajudado a mudar a cara da cidade por meio dos meus projetos e atuação na Câmara. Eu acho que Franca não me deve nada, pois usufrui muito também. Só tenho a agradecer e procuro colaborar dentro do possível.
 
O que o senhor gostaria de fazer? Qual é o sonho que espera realizar?
Eu gostaria de construir um cemitério para cachorro, um crematório, que não tem em Franca. Apresentamos um projeto para a Prefeitura, mas não foi aprovado porque a área estava próxima à nascente do rio Canoas.  O projeto está suspenso. Vamos ver quando vai ser liberado.
 
Qual mensagem gostaria de deixar para os leitores?
Uma mensagem positiva de agradecimento e de incentivo. Franca é uma cidade grande, boa e de oportunidades. Os nossos políticos precisam se movimentar para buscar investimentos. Se ficar parado, só reclamando, não vamos conseguir nada. É preciso bater firme e ficar em cima.

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