A dor da perda. O sofrimento pela partida prematura e, muitas vezes, pela crueldade. O luto. A necessidade de um recomeço. Estes são sentimentos comuns em relatos de familiares que passaram por uma experiência que os marcará pelo resto de suas vidas: o feminicídio. Entre o ano de 2017 até o último domingo, 2, dez mulheres foram mortas em Franca por seus companheiros ou ex-companheiros, por ciúmes ou mesmo por eles não aceitarem o fim dos relacionamentos.
Guislene
“Ninguém espera passar por um momento assim. É muito triste e muito doloroso essa situação, ficamos revoltados. Buscamos meios de lidar com o luto, cada um a sua maneira. Minha mãe busca forças se refugiando em Deus. Eu e meus irmãos nos apoiamos, mas a dor está e sempre estará viva em nós”, desabafa Gilberto Dione Ferreira, de 37 anos, irmão de Guislene Aparecida Ferreira, morta em outubro do ano passado pelo ex-companheiro, Fabrício Fabiano Matias. O responsável pelo crime foi encontrado morto no dia seguinte, após se enforcar com fios de construção.
O relacionamento entre Guislene e Fabricío durou cerca de 13 anos e havia terminado há quatro meses quando o homem a matou com uma facada depois de invadir o carro que ela dirigia. Mesmo com medida protetiva, conseguida um mês antes do crime, Fabrício, que não aceitava o fim do relacionamento, não se intimidou. “Hoje minha mãe faz tratamento psicológico, pois entrou em depressão depois da morte da minha irmã. O filho da Guislene, de 21 anos, mora com a minha mãe e está bem, na medida do possível, mas sempre tem recaídas, chora e tenta desabafar pra ver se alivia a dor”, conta Gilberto.
Catiussa
Catiussa Cristina Barbosa, então com 30 anos, foi morta com 13 facadas enquanto caminhava pela avenida César Martins Pirajá, no Jardim Aeroporto, Zona Sul de Franca, em abril do ano passado. O principal suspeito é seu ex-marido, Sandro da Silva Francisco, pai de seus três filhos, e que continua foragido desde a época dos fatos.
“Os dois tinham um relacionamento de quase 14 anos e estavam separados há uns cinco meses quando o crime aconteceu. Ela nunca denunciou ele, principalmente por causa dos filhos. Ele chegou a ameaçar, durante uma festa nossa de família, que colocaria fogo no carro dela. Mas depois disso ela nunca mais disse nada. Minha irmã era muito calada e nunca chegou a dizer que ele seguiu com as ameaças”, conta Tatiane Teilon Barbosa, 29. “Ele falava que não viveria sem ela e agora eu te pergunto, como é que hoje ele vive sem ela? Sem os filhos? Pois nem sabemos onde ele está”, completa.
“Ela era uma pessoa maravilhosa, trabalhadora, só queria o melhor para os filhos. Cheia de sonhos que foram interrompidos e hoje o que mais queremos é justiça”, finalizou a irmã.
Cristiane
Cristiane Aparecida Rodrigues, que na época tinha 39 anos, foi morta em julho de 2016. Ela estava no cruzamento da rua Espírito Santo com a Goiás, na Vila Aparecida, quando foi surpreendida pelo ex-marido. Ele desferiu várias facadas nas costas da vítima, que não resistiu e morreu antes mesmo de ser socorrida. “É uma dor sem fim toda vez que olho nos filhos que ela deixou. É um sofrimento enorme. Minha família hoje tem um buraco muito grande por falta da minha irmã. Ela era uma pessoa contagiante e muito feliz”, conta Lidiane Cristina Rodrigues, 33 anos, sapateira, uma das irmãs de Cristiane.
“Desestrutura totalmente a família. Fica uma grande lacuna na nossa vida e uma dor que simplesmente não passa. É um sofrimento que todos os dias se repete, quando nos lembramos dela, quando vivemos uma data que ela deveria estar com a gente”, desabafa Viviane Aparecida Rodrigues, 38, outra irmã de Cristiane.
Em fevereiro de 2018 o sapateiro Fabiano Luís do Eterno foi condenado a 16 anos de reclusão, em regime fechado. Para a família da vítima, a condenação não foi suficiente e deixa uma sensação de injustiça.
“Minha irmã tinha medida protetiva, mas infelizmente nunca funcionava. Após a separação, ele vivia cercando ela na rua. Acho a condenação muito branda, pois sabemos que não se cumpre o tempo total da pena. Quem perde somos todos nós, familiares das vítimas. Os assassinos, depois de deixarem a prisão, vivem uma vida normal. Já nossas vidas, mesmo sendo necessário recomeçar, jamais serão as mesmas, sempre faltará um pedaço essencial”, lamentou Lidiane Cristina.
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