Formado em Engenharia Civil e Economia pela USP, Gilberto Kassab, 59, guardou os projetos e cálculos na gaveta para construir o seu nome na história da política nacional. Com 30 anos de atuação na vida pública, tornou-se um dos personagens mais conhecidos e influentes do meio. Respira e vive política.
Após ter participado da campanha de Guilherme Afif Domingos à presidência da República, em 1989, Kassab garantiu o primeiro cargo público em 92, quando se elegeu vereador por São Paulo. Foi secretário municipal, deputado federal por dois mandatos e prefeito de São Paulo por duas vezes.
Exímio articulador, foi ministro das Cidades no governo de Dilma Rousseff. Após o impeachment da petista, foi nomeado ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação pelo presidente Michel Temer.
Em 2011, Kassab fundou o próprio partido, o PSD, que se consolidou, nas eleições de 2012, como a quarta maior força política nos municípios. Em 2016, foi o terceiro partido que mais elegeu prefeitos, 541, ficando atrás somente do MDB e PSDB.
Kassab tem o ambicioso projeto de tornar o PSD o partido com mais prefeitos nas eleições deste ano. Uma presença forte nos municípios é estratégia para fortalecer o partido no País. Neste cenário, Franca é uma das prioridades.
O projeto do PSD fez com que Flávia Lancha decidisse disputar as eleições para prefeito pelo partido. Na tarde da última quarta-feira, Kassab veio a Franca para receber a nova filiada. Antes da solenidade de filiação da empresária, ele conversou com o Comércio da Franca. Nesta entrevista, ele falou das eleições municipais, política nacional e sobre as acusações de que teria recebido propina.
Como foram as negociações com Flávia Lancha?
Na verdade, foi muito fácil. O PSD é um partido novo, não tem dez anos. Nestas eleições municipais, o que fica claro em todo o território nacional - e eu tenho corrido o Brasil inteiro - é que as pessoas querem opção de renovação. Elas querem opção de renovação, mas têm muito medo de errar. Às vezes, a renovação vem com uma carga brutal de desconhecimento da pessoa e o eleitor vai na intuição. Escolhendo pela intuição, a chance de dar errado é muito grande.
Aqui, em Franca, tínhamos uma opção que atendia à todas as premissas que estão sendo procuradas em todas as cidades do País, como é o caso de Franca.
A primeira premissa é que a Flávia significa renovação. Mas não é renovação de hoje. Ela já postulou uma candidatura em 2016, já entendeu quais são as principais reivindicações da sociedade, mostrou maturidade e fez uma belíssima campanha. As pesquisas que foram feitas ao longo dos últimos anos mostram que muitos eleitores se arrependeram de não terem votado na Flávia.
Então, a Flávia é a renovação com experiência. Ela tem uma passagem pela vida pública, tem relacionamento com a sociedade que lhe vai permitir compor uma equipe com pessoas extremamente competentes. Para compor uma equipe, é preciso ter talento, formação, saber entender os problemas. Quem não tem formação não consegue montar uma boa equipe e Franca precisa de uma boa equipe.
A Flávia reúne todas estas condições e é mulher. É hora das mulheres, as mulheres estão se encantando com a política e aprendendo a votar nas mulheres. Ela tem todas as condições para ser uma excelente candidata, vai conseguir mostrar suas qualidades, suas propostas e tem tudo para ganhar as eleições. Se ganhar, será uma grande prefeita e terá o nome marcado na história de Franca.
Fui prefeito da maior cidade do País por duas vezes, fui duas vezes ministro, duas vezes deputado federal, tenho uma formação técnica e tenho faro político. Gosto da vida pública e tenho certeza que a Flávia reúne todas as condições para ganhar as eleições e, principalmente, para ser uma grande prefeita.
Por que a decisão pela Flávia?
Franca é uma das grandes cidades brasileiras e o PSD publicou uma resolução nacional que impõe candidaturas próprias nas maiores cidades do País, onde há geração de TV, mais de cem mil eleitores, características de sede regional. Franca atende a esses requisitos.
Fomos pesquisar e procurar entender o que seria melhor para Franca. Ouvindo Franca e suas lideranças, nós percebemos uma vontade muito grande dos eleitores de renovação. Mas a renovação não se faz com aventura, com alguém que é desconhecido, com alguém que não tenha raízes.
A Flávia, felizmente, preenche estes requisitos. Estas foram algumas das razões que nos levaram a fazer o convite. Para a nossa alegria, ela aceitou e se torna pré-candidata do PSD. Tenho certeza que ela terá todas as condições para apresentar suas ideias e propostas. Ao conhecê-la melhor, o eleitor vai ter condições para definir bem o voto.
A Flávia foi procurada por partidos diversos, como PTB, PSB, Podemos e Republicanos. Qual foi a estratégia do PSD para ser o escolhido?
Temos nossa equipe de headhunter (caçador de profissionais ou executivos talentosos). É evidente que o papel do Corrêa Neves Júnior foi muito importante. Ele que nos levou a Flávia na primeira conversa e, desde o primeiro momento, abriu mão do seu protagonismo no partido dando à Flavia a segurança de que ela, caso se filiasse e se tornasse pré-candidata, seria a protagonista principal e a condutora das ações do partido. Este foi um passo importante.
É importante que o candidato a majoritário ou o chefe do Executivo seja o protagonista de seu partido. Não pode se ter uma posição que o partido não acompanhe. Desde a primeira conversa, isto foi deixado muito claro.
O PSD é um partido muito bem organizado, com diretrizes, lideranças e hierarquia. Isto, tranquiliza as pessoas que querem entrar no projeto político, partidário e eleitoral. A retaguarda do partido é importante.
Os candidatos a vereador e a prefeito em Franca terão esta estrutura à disposição?
Terão toda a retaguarda. Não é retaguarda financeira, mas de ajuda, orientação. Hoje, o financiamento é público e o apoio financeiro também haverá dentro do possível. Ninguém é criança e sabe que o fundo é limitado. Nosso fundo é de R$ 140 milhões, é até um dos maiores, mas não podemos esquecer que os recursos serão distribuídos para mais de cinco mil municípios.
Porém, é evidente que Franca terá de nossa parte uma atenção toda especial pelo porte da cidade e pelo merecimento que a pré-candidatura tem da nossa parte.
Qual a meta do PSD?
Vamos entrar na disputa para ganhar. Nosso objetivo, nossa aposta em Franca é a vitória. É a vitória para que possamos ter em Franca a presença de uma mulher, a presença da renovação. Vamos mostrar ao Estado e ao Brasil que Franca tem uma proposta de renovação com uma mulher à frente de uma grande Prefeitura.
Franca tem quase 400 mil habitantes e é considerada uma cidade estratégica no contexto político. O PSD está preparado para conquistar a Prefeitura?
Apesar de novo, o partido tem uma dimensão muito grande. Nós temos hoje nove senadores. Nos próximos dias, vai se filiar o senador Anastasia, de Minas Gerais, temos o senador Fávaro, que foi o terceiro colocado no Mato Grosso. Ele está disputando as eleições lá e tem tudo para vencer. Então, devemos ficar com 11 senadores, podendo chegar a 12 porque o senador Vanderlan, de Goiás, tem grandes chances de se filiar ao PSD. Além disto, temos 37 deputados federais.
Este é o peso político nacional que, evidentemente, estará à disposição da Flávia. Do ponto de vista pessoal, a experiência que tenho, junto com os nossos líderes, também vamos ajudar.
Franca é uma cidade muito importante e, a partir do momento em que estiver sendo administrada por uma companheira do PSD, o partido tem obrigação de emprestar todo o apoio para que ela possa ter a melhor performance possível.
Mesmo à distância, o senhor tem acompanhado o cenário político de Franca?
Eu acompanho bastante, gosto da vida pública. Eu me considero jovem, mas gostaria de ser mais jovem, com a experiência que tenho, para poder viajar mais.
Fui deputado e ministro duas vezes e vim a Franca várias vezes. Tenho amigos em Franca, sempre tive votos aqui e procurei retribuir a confiança recebida. Tenho também a experiência de ter sido prefeito de São Paulo por duas vezes. Isto me permite acompanhar Franca e entender os seus problemas.
Franca tem um problema que, ao longo das últimas décadas, houve baixíssima renovação de seus líderes na política. Não estou nem questionando se foram bons ou maus líderes, mas não é saudável você ter poucos líderes numa cidade. A Flávia preenche este vazio. Ela é uma nova liderança, mas não é uma incógnita, não é uma paraquedista.
O PSD vai tentar composições ou pretende disputar as eleições com chapa puro sangue?
A nova legislação dificulta bastantes as alianças, até porque, o partido que não tem uma candidatura a prefeito fica com sua chapa de vereadores sem vinculação direta com o candidato a prefeito. Neste cenário, as alianças são difíceis. Eu sempre disse para o Corrêa e a Flávia que, definida a pré-candidatura, a prioridade é formar uma boa chapa de pré-candidatos a vereador pelo PSD.
Depois, é evidente, que vamos buscar apoios. Se outras legendas quiserem nos abraçar e fazer a coligação majoritária, serão muito bem-vindas. Entendo que a prioridade de qualquer partido grande é tentar candidatura própria. Aqueles que não conseguirem e, desde que comunguem com os ideais da Flávia, do PSD, com suas propostas para a cidade e com sua conduta no campo administrativo, moral e político, é evidente que serão muito bem-vindos.
O PSD já tem uma estimativa de quantos prefeitos pretende fazer este ano no Estado?
Em 2016, nós fizemos um número de prefeitos que nos colocou na terceira posição no ranking. O número de votos que recebemos para prefeito no primeiro turno nos colocou na quarta posição. O PSD foi o quinto colocado em vereadores eleitos.
Eu, modestamente, acredito que vamos ficar entre os cinco principais partidos com candidatos eleitos e, muito possivelmente, vamos disputar a primeira colocação, pois estamos muito bem estruturados em todo o Brasil.
O senhor foi indicado pelo governador João Doria como secretário da Casa Civil do governo, mas nos primeiros dias de governo pediu licença do cargo para se defender das denúncias de corrupção nas quais é investigado pela Polícia Federal. Como está sua situação no momento?
Eu não precisei me afastar. Foi uma iniciativa pessoal minha. Eu fui convidado pelo governador, aceitei o convite e, passadas algumas semanas, entendi que era muito mais confortável para mim e para o governador eu me afastar.
Até sugeri ao governador que eu poderia ficar (fora) definitivamente, depois ele poderia renovar o convite, mas ele não aceitou. Então, estou afastado e me sinto mais confortável assim.
Felizmente, com tantos anos de vida pública, não tenho uma única acusação, em todos os cargos que ocupei, no campo moral, no campo da idoneidade. Não há acusação nenhuma que eu meti a mão, que eu desviei recursos ou que direcionei licitações. Fiz aquilo que minha consciência me pediu e fiz tranquilamente, faria de novo. Ter pedido licenciamento não significa que a gente não esteja procurando dar todo o apoio possível ao governo do Estado.
Em dezembro passado, o senhor foi alvo de uma operação da PF com vistas a apurar denúncia de suposto recebimento de propina da JBS entre os anos de 2010 e 2016. O que o senhor tem a dizer a respeito?
Foi uma denúncia de caixa dois eleitoral que eu posso lhe afirmar que será arquivada no devido momento porque é totalmente improcedente.
O senhor pretende reassumir o cargo no governo ou continuará ajudando o governador nos bastidores?
Esta pergunta o governador faz todos os meses e eu vou empurrando com a barriga.
Se depender do senhor...
Eu, evidentemente, me sinto muito honrado por ter recebido o convite e ser o chefe da Casa Civil licenciado. Como já disse, na maior cidade do País já fui vereador, secretário municipal, vice-prefeito e prefeito duas vezes. Ser secretário de Estado, e já fui ministro duas vezes, é uma honra muito grande, em especial, Chefe da Casa Civil, mas, neste momento, eu estou muito envolvido com as atividades partidárias que estão dando um resultado muito positivo. As coisas acontecem tudo na hora certa. No momento, estou feliz e continuo ajudando o governador como se lá estivesse.
O senhor disputará as eleições de outubro?
Não. Eu já fui prefeito de São Paulo duas vezes e, para disputar as eleições, teria que ser candidato à Prefeitura. As pesquisas deram muito positivas em relação à minha participação este ano, mas eu fui prefeito sete anos, o único prefeito reeleito na história de São Paulo.
Não faz muito sentido alguém que já foi sete anos prefeito não dar oportunidade para outros. Em São Paulo, já temos o nosso pré-candidato, Andrea Matarazzo, que é uma pessoa muito bem qualificada e preparada. Se ele vencer as eleições, será um grande prefeito.
Como avalia o governo de Jair Bolsonaro?
Tem pontos positivos e pontos negativos. A economia está sendo muito bem conduzida pelo Paulo Guedes, o partido dá todo o apoio. Mas, tem algumas áreas que tem problemas. A gestão do ministério da Educação é problemática e precisaria ser mais profissional, o mesmo ocorre com a gestão das Relações Exteriores. É um governo que tem erros e acertos.
O PSD, em especial no campo econômico, apesar de não ter votado no Bolsonaro, eu votei no Geraldo Alckmin para presidente, nós não fazemos parte da base do governo, não aceitamos cargo no governo, mas, tudo o que diz respeito em relação aquilo que a gente acredita, o partido dá todo o apoio.
Aprova o governo João Doria?
É um bom governo, uma boa gestão. Tem convivido com a dificuldade da falta de recursos. Isto traz o desgaste natural de qualquer governo. O Doria tem muita capacidade de trabalho, gosta de trabalhar e está se esforçando muito para atender às expectativas do eleitor.
O senhor acredita que 2020 será um ano melhor? A economia vai se recuperar?
As análises política e econômica valem sempre para o dia. Surge um fato novo amanhã e muda tudo. Há duas semanas surgiu esta epidemia na China e mudou muita coisa no cenário da economia mundial. Isto ninguém esperava.
Eu, pessoalmente, em relação ao ano, estou mais otimista e confiante. Eu tinha preocupação, não que eu não continue tendo, com o governo Bolsonaro por não ter nenhuma experiência no Executivo. Mas a mão forte que ele deu para o ministro Paulo Guedes, que tem total liberdade para conduzir a economia, dá ao investidor e ao empreendedor confiança para investir. Os empregos voltaram a surgir. O saldo da geração de empregos é de quase um milhão, criamos um milhão de empregos em 2019. Então, estou mais otimista do que estava há um ano.
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