A falta de planejamento urbano ao longo da história transformou Franca em uma cidade vulnerável a impactos provocados pelas chuvas. Destruição de áreas verdes, crescimento populacional e o descuido com a infraestrutura são apenas alguns dos pontos indicados por especialistas como aqueles que estão diretamente ligados aos efeitos danosos das chuvas na cidade.
“A partir dos anos 60, quando a cidade começa a crescer e ocupar um território cada vez maior, houve uma opção pela ocupação horizontal, com pouca verticalização. Assim, em um primeiro momento, a Prefeitura começou a canalizar o córrego e fazer a avenida ao lado. No primeiro plano diretor de Franca, que virou lei em 1972, era proposto que fosse feito um parque linear ao longo do curso d’água e que as vias ficassem bastante afastadas, mas isso começou a ser seguido apenas a partir dos anos 80 e 90. Em um primeiro momento isto não foi feito então temos um canal com avenida com ocupação urbana”, explicou Mauro Ferreira, arquiteto e urbanista.
Outra questão apontada pelo urbanista, que foi secretário de Planejamento no governo do ex-prefeito Gilmar Dominici, é o processo de urbanização, feito sem a ocupação adequada em termos de permeabilidade do solo.
“Com a urbanização da cidade pavimenta-se os bairros, são feitas as galerias, que captam a água. Essa água toda captada chega muito rápido aos córregos e a canalização não dá conta”, disse ele. Na opinião do urbanista, o crescimento da cidade aconteceu sem que questões ambientais importantes tivessem a atenção necessária.
“Franca é uma cidade antiga, com tubulação e galerias obsoletas em muitas partes. Obras de infraestrutura não são baratas e não aparecem, por isso muitos governos não focam na necessidade delas. Existem uma série de obras que precisam ser feitas e não foram. A infraestrutura precisa de melhorias contínuas e que não podem parar”, explicou Valéria Marson, arquiteta e ex-secretária de Planejamento durante o governo do ex-prefeito Sidnei Rocha.
A falta de planejamento também é apontada como um fator determinante para os problemas pela atual administração. “Muitas ocorrências são reflexo da falta de planejamento e realização de adequações necessárias por conta da expansão da cidade” disse a atual secretária de Planejamento Urbano, Adailma Helena Ferreira.
Reparos
É possível afirmar, apenas com os registros das páginas do jornal Comércio da Franca, que ao longo das últimas três décadas milhões de reais saíram dos cofres públicos diretamente para o reparo dos estragos causados pela chuva, especialmente com os fortes temporais de verão, que acontecem principalmente entre os meses de novembro e fevereiro.
Segundo informações do secretário de Serviços e Meio Ambiente, Adriano Tosta, sempre que um forte temporal atinge a cidade e os córregos transbordam deixando um rastro de destruição os prejuízos podem variar entre R$ 10 mil até R$ 500 mil. No temporal de fevereiro do ano passado - um dos mais fortes dos últimos anos - em pouco mais de quarenta minutos de chuva foram afetados 70 locais em toda a cidade. “Não há como especificar um valor, porque depende do tipo, local e extensão das avarias. O valor é muito variável”, disse, em nota, a Prefeitura.
Em 2008, por exemplo, as chuvas que atingiram a cidade entre dezembro e fevereiro custaram meio milhão aos cofres públicos. Na época, apenas com reparos na contenção foram R$ 300 mil e mais R$ 160 mil com a tubulação.
Solução
Entre as medidas apontadas pela administração municipal que hoje já são executadas visando o aumento das áreas permeáveis do município para que o fluxo de água que vai para os córregos diminua é a exigência, na aprovação das construções, da implantação de calçadas verdes; exigência de implantação de bacia de contenção para as edificações com área impermeabilizada superior a 500 metros quadrados de construção; bacias; e, nos edifícios multifamiliares, determinação que 30% das áreas livres das edificações devam possuir piso drenante ou área permeável.
Sem valores, medidas possíveis ou até início de execução, a Prefeitura se limitou a informar que “contratou uma empresa para a elaboração de projeto e especificação de métodos e procedimentos para alargamento e aprofundamento do Canal do Cubatão, no trecho sob o Viaduto da Avenida Major Nicácio, assim como o projeto de acessibilidade para o local”. Este processo está em fase de estudos.
Um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) para alargamento e aprofundamento do canal erguido sob o viaduto Dona Quita chegou a ser assinado pela administração anterior, mas ainda não foi cumprido e, segundo o MP, um processo em relação ao caso ainda corre no Poder Judiciário .
Para a arquiteta Valéria Marson, é necessário um estudo de tudo o que precisa ser feito e, principalmente, que as obras sejam contínuas. Entre as coisas que ela aponta que devem ser feitas está o alargamento do canal em vários pontos dos córregos Cubatão e dos Bagres, além da substituição de pontes.
“São necessárias várias intervenções, mas a população precisa assumir consciência ecológica, produzindo menos lixo e resíduos. É preciso trabalhar na ampliação de áreas verdes, alargamento de alguns pontos dos córregos, substituição de pontes e o cumprimento da exigência de caixas de contenção em todos os novos empreendimentos, públicos e privados”, disse o urbanista Mauro Ferreira.
Nenhum dos especialistas soube precisar, porém, quanto seria preciso investir para que todas as obras necessárias fossem realizadas.
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