Há poetas e poetas. Alguns se chamam de poetinhas, outros não se chamam, nem querem ser chamados de: temem a função que carrega carga e força e não se sentem à altura, à densidade dela.
Conheci o poeta Carlos há tempos. Não em teatro, nem em nenhuma situação formal, mas, assim, em uma mesa de bar, com escritores aspirantes.
Mas senti em sua presença, o que não sinto com todo aquele que escreve, poesia ou prosa, vibração diferente: vi/senti um homem que é a Palavra.
Não exatamente no conteúdo, nas letras, no escrito. Mas na carne, poeta Carlos: na tonalidade da voz, presença digna, na ancestralidade que corre como um canal dos pés à cabeça, da África à sua boca, nos seus olhos, no batuque da bengala, nos gestos que coreografam vozes negras, em uníssono.
Não envelhece o poeta. Seu corpo verga, mas a palavra sai forte, avivada, como flecha em arco retesado. Ela vem do olhar, na ginga, no balanço das ideias, na rede que se tece, invisível, entre o poeta que fala e canta, e quem o ouve e canta junto, ritmado.
Uma fala que é convocação como um tambor a ressoar em floresta.
Há um tambor, há um tambor, há um tambor. Há um silêncio, há um silêncio, há um silêncio.
O poeta bate no peito de cada um, convocado. Invocado, evocado, provocado. Cavoucado. Ele cria espaços dentro da gente. Experimente achegar: sentirá emanações.
Quem não o viu, precisa ver, escutar, sentir o tambor, o ritmo, a ondulação da palavra: ela não tem só significado.
A sua Palavra tem som, ritmo, envolvência.
Quem puder, se permita. Quem se permitir, se envolva. Quem se envolver, torne-se. Quem se tornar, reverencie. Quem reverenciar, terá o sagrado em um canto do coração: misterioso.
Tum-tum-tumtumtumtum. Tum-tum.
Oxalá. Saravá.
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