Laurence Dias de Oliveira

'Franca se tornou referência em tratamento de câncer'


| Tempo de leitura: 9 min
'Nós fazemos em torno de 200 procedimentos de radioterapia e outras 450 sessões de quimioterapia todos os meses. A demanda não para de crescer'
'Nós fazemos em torno de 200 procedimentos de radioterapia e outras 450 sessões de quimioterapia todos os meses. A demanda não para de crescer'
Fruto do sonho e empenho de beneméritos, como Onofre de Paula Trajano, Pelegrino Donato e Luiza Helena Trajano Donato, que, sensibilizados com as dificuldades enfrentadas pelos pacientes de Franca e região que precisavam se deslocar para outras cidades em busca de tratamento, decidiram mobilizar outros empresários para construírem uma unidade em Franca, o Hospital do Câncer está comemorando 18 anos, completados dia 6.
 
Ao longo desta semana, uma série de ações serão realizadas para celebrar a data. O cronograma prevê missas, palestras e entrega das obras de revitalização das alas de ressonância magnética e de quimioterapia infanto-juvenil.
 
Motivos não faltam para a celebração. O Hospital do Câncer de Franca chega à maioridade com números impressionantes. Construída inicialmente numa área de 1,3 mil metros quadrados, a unidade precisou ampliar rapidamente suas instalações ao longo dos anos para continuar proporcionando um tratamento digno aos seus pacientes. Hoje, é comparada aos grandes centros oncológicos do País. 
 
Além dos pacientes de Franca, o hospital atende, todos os meses, a cerca de quatro mil pessoas vindas de 42 cidades. Para dar conta da demanda, conta com 20 médicos e cerca de 200 funcionários.
 
Cabe a um médico de 38 anos gerenciar a estrutura. Especialista em gestão de saúde, Laurence Dias de Oliveira é o diretor-técnico dos Hospitais do Câncer e do Coração, além de ser o responsável clínico do Ame (Ambulatório Médico de Especialidades). O profissional, que também é o presidente da Coreme (Comissão de Residência Médica) da Santa Casa, recebeu o Comércio para contar um pouco mais da história do hospital, que está se transformando em referência no tratamento de câncer em toda a região.
 
O que faz o diretor-técnico de um hospital? 
Cuidamos de todo o atendimento médico, contratação médica e desempenho da parte profissional. Na prática, sou o responsável pela organização dos Hospitais do Câncer e do Coração de Franca. Cuido de novos projetos, procedimentos, contratação de médicos e funcionários e cuido da relação dos profissionais com a instituição. O Hospital tem cerca de 20 médicos e 200 colaboradores.

Qual o volume de atendimento do Hospital do Câncer? 
Nós fazemos uma média de quatro mil atendimentos por mês. Isto, contando consultas médicas e não médicas. O paciente de câncer tem que ter um atendimento multidisciplinar, o que inclui fonoaudióloga, nutricionista, psicólogo, fisioterapeuta e odontologista, entre outros profissionais que compõem esta rede.
 
De onde vêm os pacientes que fazem tratamento em Franca? 
Somos responsáveis por uma Diretoria Regional de Saúde, que engloba Franca mais 21 cidades. Além destes municípios, temos um convênio com a região de São João da Boa Vista, que também é formada por 21 cidades. Então, no total, o Hospital do Câncer de Franca atende a pacientes de 42 cidades.
É uma gama muito grande de cidades que encaminham os seus pacientes para serem tratados aqui. Nosso volume de atendimento é enorme. 
 
Qual o tipo de câncer mais comum tratado em Franca? 
Temos duas grandes demandas: a maioria dos nossos pacientes é portadora do câncer de mama, o que corresponde a cerca de 44% do total de atendimentos.  
Em seguida, aparecem os cânceres genitais masculinos, câncer de próstata, principalmente. Portanto, mama e próstata são os casos mais comuns.

São doenças cujo o diagnóstico precoce é fundamental para o sucesso do tratamento...
Sim, sem dúvida. Por isto, a importância de campanhas como Outubro Rosa e Novembro Azul. A prevenção é fundamental e ajuda muito. Infelizmente, constatamos que, mesmo com as campanhas, a incidência vem aumentando.

O surgimento de novos casos de câncer é grande?
Sim. Hoje, temos uma média de 220 casos novos de câncer por mês no hospital de Franca. Isto, levando em consideração os pacientes das 42 cidades atendidas.
Além dos pacientes novos que recebemos a cada mês, seguimos aqueles que já estavam em tratamento. Na maioria dos casos, mesmo com a cura, a gente acaba acompanhando os pacientes, às vezes, por até cinco anos. O paciente que faz o diagnóstico e inicia o tratamento, vamos acompanhar por cinco anos.
Nós fazemos em torno de 200 procedimentos de radioterapia e outras 450 sessões de quimioterapia todos os meses. A demanda não para de crescer. Por isto, o hospital também está crescendo bastante.

A estrutura atual do HC é compatível para atender a demanda?
Não. Estamos em constante evolução para poder prestar o atendimento da maneira adequada. Na quinta-feira, 9, por exemplo, começamos uma nova etapa de reformas. 
Os hospitais do Câncer e do Coração estão passando por grandes mudanças, que vão desde a parte do estacionamento até a parte médica. Já passamos pela fase de adaptação, modernização e informatização do pronto-atendimento no Coração, que também atende aos pacientes de câncer nas urgências oncológicas. Este serviço foi feito em dezembro e faz parte da metodologia Kaisen, que é o processo de melhoria contínua. Fizemos um estudo multidisciplinar por meio de uma consultoria. A finalidade é mudar sempre para buscar o progresso, fazer mais, gastando menos. No caso do Hospital do Coração, o objetivo foi melhorar o fluxo e a recepção. Mudamos todo o layout e a parte de informatização. O paciente é monitorado deste a entrada até a saída. Saber o tempo que ele ficou no hospital, é importante para que possamos reduzir a espera.
Também iniciamos a reforma da recepção do Hospital do Câncer e vamos iniciar a parte de informatização, também, desde a entrada do paciente até o atendimento médico. Esta, será a primeira fase. Na segunda etapa, vamos reformar e informatizar os consultórios. Pretendemos melhorar o acesso às informações dos pacientes para diminuir, ainda mais, a chance de ter algum erro. Passamos por melhoria contínua e tentamos nos adaptar às melhores práticas do setor para oferecer um tratamento digno ao paciente e melhorar a possibilidade de cura.
 
Qual a maior carência do HC hoje?
Nós tínhamos um sonho muito grande que acontecesse, que era fazer a informatização de todos os pacientes. Este sonho está se tornando realidade. Isto é importante para diminuir possíveis erros. Em quimioterápico, toda a medicação é feita na dose certa para aquele determinado paciente. Então, temos que ter a certeza de que o medicamento foi feito para aquele paciente na dosagem que ele precisa e que seja administrado nele. Temos um mecanismo de tripla checagem para evitar erros. Tudo o que é feito para melhorar a segurança do paciente e para facilitar os indicadores, resulta no melhor atendimento.  Estamos iniciando este processo de informatização e esperamos que, até o final do ano, todos os setores, desde a entrada até a parte de prescrição médica, estejam conectados a esta rede. A primeira fase, que é só a recepção, deve estar pronta dentro de 50 dias. Pretendemos eliminar papel e fazer tudo via computador. Temos um sistema chamado Tasy, usado por grandes hospitais do País e que Barretos está começando a implantar, que é um moderno software de prontuário eletrônico do paciente.
 
O câncer tem cura?
Sim, o câncer tem cura.Mas o resultado do tratamento depende de vários fatores. Quanto antes o diagnóstico é feito, maiores são as chances. Por isto, a importância de estimularmos a importância de as mulheres fazerem o autoexame, estimular o homem perder o preconceito e fazer, não só a dosagem do PSA, mas também o toque retal. Há vários fatores que estão associados à possibilidade de cura. Quanto antes fizermos o diagnóstico, maiores serão as chances. No caso do Hospital do Câncer de Franca, podemos afirmar que estamos dentro dos parâmetros de cura mundiais. Seguimos o protocolo nacional para o tratamento de câncer. Nossos resultados vão de acordo com o que prevê a literatura médica. Nossa sobrevida está de acordo com os índices nacionais. O câncer é uma doença grave e, quanto mais tarde é feito o diagnóstico, maior é a chance de levar à morte e de causar mais sofrimento ao paciente.
 
A referência nacional em tratamento de câncer é o hospital de Barretos. Em que patamar está o hospital de Franca?
A qualidade do atendimento prestado em Franca também pode ser considerada como referência, tanto é que 42 cidades, inclusive, de outras regiões, encaminham pacientes para serem tratados em Franca. O nosso hospital está atingindo a maioridade e chegou grande aos 18 anos. Com certeza, está entre os dez maiores do Estado e entre os principais do interior. Mas, isto não nos acomoda e estamos sempre tentando melhorar.

Como o hospital faz para pagar a conta?
90% dos atendimentos que prestamos são pelo SUS. Importante ressaltar que estamos falando de um setor que recebe menos do que produz. Isto acaba gerando um déficit. O que o SUS paga é insuficiente para cobrir os gastos. O hospital de Barretos, por exemplo, tem um déficit mensal de R$ 15 milhões. Aqui, em Franca, também operamos no vermelho. Nosso hospital atende 38% acima do que é pactuado com o SUS. Por exemplo, recebemos do governo recursos para fazer 100 procedimentos de quimioterapia, mas fazemos 138.  Por isto, a importância do envolvimento da nossa equipe e da sociedade para tentar cobrir a diferença. É fundamental a atuação do nosso telemarketing, a ajuda prestada pelos voluntários e as ações diversas de arrecadação que são realizadas ao longo do ano na cidade. Os recursos levantados ajudam a suprir o déficit e a melhorar a qualidade do atendimento prestado aos pacientes.
 
Onde o senhor estava há 18 anos quando o Hospital do Câncer foi inaugurado?
Estava no Rio de Janeiro cursando o segundo ano de faculdade.
 
Imaginava que um dia poderia ser o diretor de um HC?
A gente sempre sonha alto, mas não esperava tanto. Chegar tão cedo neste cargo é uma responsabilidade muito grande. A cada dia, procuramos fazer algo mais real e palpável. Estamos sempre nos dedicando, estudando e buscando parcerias para melhorar cada vez mais.
 
Qual mensagem o senhor gostaria de deixar aos leitores?
O Hospital do Câncer de Franca se esforça de maneira contínua para melhorar o atendimento prestado. O custo para manter a nossa estrutura em funcionamento é muito alto. 
É imprescindível que a sociedade e, principalmente, os políticos se envolvam ainda mais para colaborar com o nosso Hospital do Câncer. A ajuda pode ser feita por meio do trabalho voluntário e por doações. Precisamos que todos estejam engajados nesta causa para que os pacientes de câncer tenham um tratamento digno e, principalmente, tenham a possibilidade da cura. Se não conseguirmos a cura, vamos, pelo menos, tratar dignamente os pacientes. Muitas vezes, não é só o dinheiro. O carinho, a atenção e o acolhimento destes pacientes fazem com que eles passem por este período de tristeza com mais alegria e de uma maneira mais tranquila.

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