Uma manhã ainda bem cedo apareceu no meu escritório um rapazinho de seus quinze anos, alto, magrinho, olhos assustados, dizendo que o Seu Joaquim precisava falar comigo.
- Porque ele mesmo não veio?
- Ele não pôde vir.
- Mas, por quê?
- Ele tá preso, lá na cadeia de Restinga.
- Preso? Mas o que fez o Seu Joaquim?
- Não sei não, dona, ele quer que a senhora vá lá.
Cheguei na Delegacia, lá estava meu amigo fechado numa cela pequenininha.
- O que aconteceu, Seu Joaquim?
- Ontem, cheguei da roça, depois da janta, fui lá no buteco do Neco. A gente tira uns dedo de prosa, bebe uma pinguinha, vai ficando ali até dá a hora de drumi. Mas ontem quando fui saindo pra ir pra casa, o Neco disse:
- Seu Joaquim, você tá esquecendo sua bicicleta.
- Não, seu Neco, eu não trouxe ela, hoje não!
- Como é que não trouxe, homem, oia ela aí, encostada na calçada!
- Oei, a bicha tava lá, encostadinha na calçada.
- Tavendo seu Joaquim, essa é a sua, preta e vermelha.
- Eu fiquei pensativo, pois não lembrava de tê pegado a bicicleta depois da janta. Mas aquela ali era iguarzinha a minha e como eu já tava meio zonzo de sono e cansaço, peguei a danada e subi pra casa.
- A gente se despediu na esquina e eu fui pra casa drumi, já tava drumindo algum tempo, quando ouvi um batidão na porta e alguém gritando.
- Abre essa porta, Joaquim, senão eu arrebento ela.
- Espera, por favor! Vou vesti uma roupa.
- Com a polícia não tem espera, vem já, seu ladrão.
- Corri pra porta ainda vestindo a calça. Quando abri, dei de cara com a polícia acompanhado do seu Gerardo, um morador da cidade. Aí, a polícia foi entrando e dizendo em voz alta:
- Entrega a bicicleta que você furtou do moço aqui, seu desavergonhado!
- Não robei bicicleta nenhuma, não senhor!
- Roubou sim e vai tratando de entregar o biciclo.
- Mas eu não robei bicicleta nenhuma, a que eu trouxe lá da venda é a minha. Seu Neco viu que é a minha, pergunta pra ele.
- Larga de conversa, seu malandro, onde você escondeu a bicicleta do Seu Geraldo?
- A minha bicicleta tá guardada lá no quartinho.
- Quando a polícia abriu a porta do quartinho, não acreditei. Juntinho com a minha, tava lá a bicicleta do seu Gerardo. Mas juro que eu não roubei a bicicleta, eu trouxe ela enganado, foi a canseira e o sono, que bagunçou minha cabeça. Aí na confusão a polícia foi dizendo:
- Tinha certeza que você estava com a bicicleta, agora vai ficar preso pra deixar de ser vagabundo, negro à toa.
- E aqui tou eu preso, sem podê trabaiá, perdeno dia de serviço e com a cara cheia de vergonha, eu não sou ladrão, sou trabalhadô, nunca fiz mal a ninguém, tem dó de mim, me tira daqui.
Providenciei sua liberdade.
Passado alguns dias o Seu Joaquim apareceu.
- Oh! Seu Joaquim, como vai?
- Ah!.. apesar da vergonha que passei, tou mais animado. Vim pra vê se eu posso ficá sossegado, pois tô com medo da polícia ficá me perseguindo.
- Que nada, Seu Joaquim. Todos lá na cidade e até a polícia sabem que o senhor é gente boa, honesta, aquilo foi um engano e a polícia sabia disso. Mas já passou.
Com um largo sorriso, foi embora feliz.
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