Os primeiros dez dias do ano não foram de tranquilidade para o mundo, apesar dos milhões de votos em favor da paz trocados na noite do Réveillon
Embora os ataques à embaixada americana no Iraque, seguidos da operação que matou o número dois do Irã, o general Qasim Suleimani, tenham ocorrido respectivamente em 31 de dezembro e 2 de janeiro, a relação entre Estados Unidos e Irã, que só foi boa nos tempos do xá Rezha Palhevi, estava muito ruim desde 2015. Naquele ano, o governo iraniano anunciou que havia ultrapassado o estoque permitido de urânio enriquecido no país, o que configurou quebra no acordo nuclear assinado três anos antes. Tal notícia fragilizou ainda mais a relação entre os dois países.
Em junho do ano passado, após uma série de sanções econômicas dos americanos, aconteceram ataques a navios petroleiros no Estreito de Ormuz, a principal rota de escoamento de petróleo do planeta, seguidos de outros ataques à maior refinaria de petróleo do mundo, na Arábia Saudita. O nível de tensão cresceu no fim de dezembro, quando um empreiteiro americano foi morto numa base militar ao norte do Iraque. Dois dias depois, o Exército dos EUA conduziu bombardeios aéreos contra locais estratégicos associados ao Hezbollah. Na ação, 25 pessoas morreram e 51 ficaram feridas. Foi a primeira vez que os EUA agiram com força contra um grupo xiita no Iraque desde o retorno das forças americanas à região, em 2014.
Em protesto, milhares de pessoas, muitas delas membros de grupos de combate controlados por iranianos, invadiram a embaixada dos EUA na capital iraquiana. Como retaliação, o governo Trump ordenou o bombardeio sobre uma comitiva que deixava o aeroporto de Bagdá, matando Qassim Suleimani, o principal militar iraniano. Ele era considerado terrorista pelos Estados Unidos e Israel. Em retaliação à retaliação, a Guarda Revolucionária do Irã atacou duas bases militares americanas no Iraque com uma série de mísseis balísticos.
Talvez porque nenhum cidadão americano tenha sido ferido, Donald Trump teve uma reação menos virulenta do que seu temperamento faria supor. Sequer foi ao Twitter ou falou à nação, o que era esperado e corresponderia ao seu feitio. Recolheu-se, foi dormir, e só se manifestou no dia seguinte, horas depois, de forma mais branda, embora mencionando sanções. O próprio regime iraniano parece ter entendido que é difícil enfrentar uma força militar tão poderosa como a dos EUA. Por enquanto se faz um hiato, as bolsas voltam ao ritmo de normalidade, as pessoas sossegam, o atrito que se anunciava muito grave ganha a forma de notícia para a história dos dois países.
E Trump ganha mais adeptos à sua campanha à reeleição, pois pelo visto e divulgado, a maioria dos americanos apoiou sua decisão não-compartilhada com o Congresso de agir rápida e cirurgicamente. Parece que deu certo. Pelo menos, para Trump.
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