Pastor Sérgio Palamoni

'Meu trabalho vai além do meu ministério'


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Não gostaria de deixar de atender o prefeito (com a extraordinária), mas também não pretendo prejudicar a votação. Nesta segunda-feira, pretendo tomar uma decisão. Acredito que é possível fazer uma sessão no recesso’
Não gostaria de deixar de atender o prefeito (com a extraordinária), mas também não pretendo prejudicar a votação. Nesta segunda-feira, pretendo tomar uma decisão. Acredito que é possível fazer uma sessão no recesso’
Sérgio Henrique Palamoni, 52, nasceu e foi criado em Franca. Na pré-adolescência, trabalhou como empacotador e entregador no antigo supermercado Pedigoni da rua Antônio Bernardes Pinto.
 
Dos 14 aos 18 anos, foi balconista na extinta loja de calçados Marineli. Saiu de trás do balcão para entregar cartas após ser aprovado em concurso público de ingresso nos Correios.
A vida de carteiro durou pouco mais de seis anos. Palamoni decidiu pedir demissão para trabalhar em bancos. Ficou sete anos no Bradesco e 14 no Credicoonai, sempre nas agências de Franca e de Patrocínio Paulista.
 
Pediu demissão do banco em 2011. Após ter passado a juventude na Igreja Católica e participado da Renovação Carismática por 12 anos, havia decido ingressar na Igreja do Evangelho Quadrangular e se tornado pastor. Não conseguia mais conciliar as funções de bancário e de líder evangélico.
 
Casado e pai de dois filhos, é uma das vozes mais respeitados da igreja evangélica que soma 52 unidades na região de Franca. Nas eleições de 2016, foi lançado candidato a vereador e eleito com 2.214 votos. Está cumprindo o primeiro mandato.
 
Em dezembro do ano passado, foi eleito presidente da Câmara com os 15 votos possíveis. É a primeira vez que um pastor ocupa o cargo. Palamoni assumiu a presidência de maneira automática no dia 1º de janeiro. Mesmo com a Câmara em recesso, recebeu o Comércio para esta entrevista exclusiva.
 
  
O que o levou a entrar para a política?
 
Foi o desejo de poder fazer algo para as pessoas. Eu sempre trabalhei com ação social dentro da igreja. Mesmo solteiro e quando trabalhava no setor bancário, eu já desenvolvia projetos sociais em lares. Era algo muito discreto. Pensando nesta questão de poder ampliar a ajuda prestada, decidi me apresentar como candidato a vereador, pois, na Câmara, somos os representantes do povo, somos a voz da população aqui dentro. Foi uma decisão muito demorada. A minha esposa insistiu durante dez anos para que eu participasse da política. Durante uma convenção de nossa igreja, eu decidi participar de nossa prévia. Quem tem pretensão de disputar eleições, precisa passar por esta escolha interna.
Eu coloquei meu nome à disposição e, para a minha surpresa, fui escolhido pelos nossos dois campos missionários, tanto da minha região, quanto da região da pastora Miriam.
 
Como está sendo a experiência de exercer o primeiro mandato como vereador?
No começo, foi muito difícil. Por mais que eu tenha sido funcionário público nos Correios, estranhei bastante o ritmo da política. Eu vim do setor privado, onde as coisas são resolvidas em horas ou em poucos dias. Eu acho a máquina pública muito lenta. Tudo o que a gente tenta resolver, demora muito tempo. Por outro lado, as pessoas querem as respostas de imediato, não querem para amanhã ou depois. Tem gente que chega no gabinete no período da manhã e faz alguma solicitação. No período da tarde, já quer saber se deu certo. Há coisas que demoram meses ou até anos para resolver. Esta demora me chocou muito. No primeiro ano, foi muito difícil, pois não tinha experiência política. Com o passar do tempo, fui aprendendo.
 
O sistema engessado do setor político causa frustração?
Sim. Os vereadores que entram com a intenção de fazer algo de bom para a população, e eu acredito que a grande maioria tenha este objetivo, sofrem muito com esta lentidão.
Nós fomos eleitos num período em que a sociedade clamava por renovação, tanto em nível municipal, quanto estadual e federal. Todos estavam nesta expectativa e esperavam por respostas imediatas. Mas, infelizmente, não temos a resposta, pois muitas mudanças não dependem apenas da nossa intenção. Então, muitas vezes, é frustrante.
 
Logo no primeiro mandato o senhor conseguiu uma proeza que foi a de se eleger presidente por unanimidade. Qual o segredo para conseguir o consenso em um plenário tão dividido?
Pelo o que os colegas vereadores falam, a explicação, talvez, seja a minha postura. Sou bastante tranquilo, procuro conversar, manter boa relação com todos e não sou muito de me envolver em polêmicas. Para mim, foi uma grande surpresa receber todos os votos possíveis. Fiquei muito feliz, pois tinham outros vereadores pretendendo o cargo. Quando coloquei meu nome à disposição, grande parte dos vereadores declarou apoio a mim.

O senhor terá um desafio grande em 2020. Estamos em ano eleitoral e os nervos devem ficar à flor da pelo o tempo todo no plenário...
Sim. O ano será difícil, não apenas por conta das eleições, mas também será complicado por conta de licitações internas que estão vencendo e por causa das reformas estruturais que teremos que fazer. Temos uma situação muito séria na Câmara que é o estado do nosso prédio. Ele tem dez anos de uso e nunca passou por uma manutenção adequada. Há pontos preocupantes que precisam ser consertados o mais breve possível. Quanto mais a gente protelar, será pior. O investimento é necessário, inclusive, para garantir a segurança da própria população que passa pela Câmara diariamente.

Quando pretende iniciar a reforma do prédio?
Temos que tomar uma decisão a respeito no primeiro semestre. Depois, começa o período eleitoral e quase tudo fica proibido. O Donizete da Farmácia, que foi o presidente anterior, deu andamento em algumas ações, como elaboração do projeto, que não foram concretizadas por conta do prazo.

O senhor estima quanto custará a reforma?
Ainda não temos o valor. O projeto custará em torno de R$ 32 mil. Mas, dependemos da análise técnica dos engenheiros para sabermos o que precisa ser feito no prédio. Só então, será possível falar em custo das obras.

Há uma outra decisão que o senhor tem que tomar o mais rápido possível, não pode protelar muito: quando vai marcar a sessão extraordinária que foi solicitada pelo prefeito Gilson de Souza às 18h42 do dia 27 de dezembro?
Ainda não sei dizer. Devo tomar esta decisão, provavelmente, nesta segunda-feira. Eu não posso tomar a decisão sem antes analisar a parte técnica. Como estamos sem os funcionários nestes dias, por conta do recesso de final de ano, e o projeto foi protocolado no dia 27 de dezembro, uma sexta-feira, um dia em que não tinha funcionários e o coordenador legislativo veio na Câmara fazer o protocolo às 18h42, não deu tempo do nosso departamento jurídico analisar os projetos.
Não podemos votar de qualquer maneira. Os vereadores precisam de avaliação técnica e de parecer do nosso jurídico para decidirem o que fazer. 

Como a Câmara está de recesso e havia o compromisso feito com o prefeito de não convocar sessões extraordinárias neste período, muitos vereadores estão viajando.  Este fato também está pesando na sua decisão de marcar a sessão solicitada pelo governo?
Sim. Estou avaliando esta situação com muita calma. Tenho conversado com a mesa diretora para decidirmos o que fazer. O Donizete da Farmácia vinha falando com o Executivo desde setembro para que não deixasse para convocar extraordinárias muito em cima da hora. Nossa expectativa era de que as solicitações do prefeito chegassem até o dia 20 de dezembro, mas não foi o que aconteceu.
Agora, estamos no período de recesso e boa parte dos vereadores já havia assumido seus compromissos. Pelo o que já levantei, do dia primeiro de janeiro até o dia 31, em média, de quatro a cinco vereadores estarão ausentes da cidade todos os dias. Se fizermos uma sessão sem estes vereadores, tenho certeza que o resultado da votação será prejudicado.
 
Há a possibilidade de o senhor não marcar a extraordinária e deixar a votação da pauta do prefeito para as sessões ordinárias que serão retomadas em fevereiro?
Eu não gostaria de deixar de atender o prefeito, mas também não quero prejudicar a votação. Nesta segunda-feira, dia 6, pretendo tomar a decisão. Acredito que é possível, sim, fazer uma extraordinária durante o recesso.
 
É a primeira vez que um pastor preside a Câmara de Vereadores de Franca. O que Eu não gostaria de deixar de atender o prefeito, mas também não quero prejudicar a votação. Nesta segunda-feira, dia 6, pretendo tomar a decisão. Acredito que é possível, sim, fazer uma extraordinária durante o recesso do senhor?
Quero fazer o que sempre fiz na minha vida em todos os lugares que trabalhei: O objetivo é fazer um trabalho sério e o mais sereno possível. Como já dissemos, será um ano complicado por conta das eleições, os nervos estarão à flor da pele, mas vou procurar manter a serenidade e a justiça.
Algumas pessoas questionaram o fato de eu ser pastor. Muitos não concordam em se misturar religião com política. Eu digo sempre: antes de ser pastor, eu sou um cidadão. Sou nascido e criado em Franca. Sou munícipe e tenho o direito de ser presidente da Câmara e também de representar um segmento.
Eu sempre tomei o cuidado de não ser tendencioso e de não querer puxar tudo para a minha crença. Desde o dia que assumi, tenho firme comigo que não sou o vereador do meu segmento, sou vereador da cidade. Tudo o que votamos na Câmara, levamos em consideração o interesse da cidade.
Espero que as pessoas vejam que meu trabalho vai além do meu ministério como pastor.
 
O fato de ser pastor ajuda ou atrapalha ser presidente da Câmara?
Eu consigo separar as coisas. Digo isto, não como presidente da Câmara, mas como vereador. É claro que não voto em determinados projetos, como a destinação de verbas para o Carnaval. Não sou adepto, mas não farei nada para atrapalhar. A decisão cabe ao plenário. Caso seja necessário votar, serei contra.
 
O senhor se sentiria confortável em presidir alguns eventos na Câmara, como o do Dia do Padre?
Sim. Participarei sem nenhum problema e com a maior satisfação. Eu faço parte do ecumenismo em Franca. Sempre que há reuniões ecumênicas, eu participo. Tenho carinho e amizade com o padre Mário, com o bispo Dom Paulo. Há respeito entre as partes, pois respeitamos o espaço um do outro. Vivemos em um estado laico, e temos que respeitar a crença, o desejo e a liberdade do outro.
 
Representantes do segmento LGBT sempre vão à Câmara solicitar apoios diversos. Como vai lidar com estas situações?
Temos que analisar o que é de direito. Até mesmo se tiver alguma reivindicação voltada para o movimento cristão e eu achar que não é legal, eu votarei contra. Como vereador, tenho que legislar pensando no benefício de todos, não apenas no de um grupo. A pessoa não pode utilizar a tribuna em causa própria, mas, sim, levando em conta o interesse da coletividade ou de grande parte. Sempre tomarei as decisões pensando no bem geral.
No caso do Carnaval, por exemplo, eu não concordo que seja uma festa de todos. É de um grupo de pessoas.
 
A Câmara estará aberta para representantes de todos os segmentos ou haverá alguma restrição?
A Câmara estará de portas abertas para todos. É casa do povo, a casa de leis e onde estão os representantes do povo. As portas sempre estarão abertas. Se as reivindicações estiverem dentro da legalidade e obedecerem nosso Regimento Interno, de minha parte, não haverá nenhuma restrição, não haverá problema algum. 
 
O senhor foi eleito pelo PSB. Hoje, o partido está dividido em diversas alas. O deputado Roberto Engler, figura de maior expressão, é contrário ao prefeito Gilson de Souza, enquanto o presidente, Luiz Vergara, ocupa cargo comissionado no governo. O senhor ficará ou sairá do PSB?
Tudo é possível e dependerá de como estará o partido em março, quando será aberta a janela para transferências. Hoje, o PSB está disperso e não estamos conseguindo nos reunirmos. Fui eleito pelo PSB, mas não descarto hipótese nenhuma. Estou aberto ao diálogo.
 
O senhor apoiará a reeleição do Gilson ou irá trabalhar para outro candidato?
Eu ainda não tenho um pensamento formado a respeito. Vamos analisar tudo e levar em consideração a opinião popular e o resultado daquilo que foi feito.
 
O que o senhor tem ouvido da população sobre o Gilson?
O que todo mundo ouve: muitas reclamações. Por outro lado, eu vejo que ele fez muitas coisas boas que não aparecem. Muitas responsabilidades que caíram sobre ele, a população não tem conhecimento.  Ele teve que consertar muitas situações, como indenização de servidores, os cargos comissionados e as creches que precisavam ser liberadas. Uma série de coisas foram  surgindo e atrapalharam um pouco o trabalho dele.
Estou aberto para conversar com o prefeito, vereadores e partidos. A política é a arte de negociar e temos que estar preparados para tudo.
 
O senhor será candidato à reeleição?
Sim. Eu participei das prévias da igreja no segundo semestre do ano passado e fui o indicado. Temos mais de cem pastores e nenhum outro nome se prontificou a participar das eleições. Todos, declaram apoio à minha candidatura.
 
Boa sorte e que o senhor tenha sucesso na presidência da Câmara
Obrigado. Eu desejo à toda população um ano de muitas vitórias, conquistas e, acima de tudo, muita consciência na hora de suas decisões. Que nós possamos ter bons resultados até o final do ano.

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