Uma bela história de vida e muitas boas risadas. O personagem desta entrevista nasceu pobre na roça e se tornou um empresário de sucesso. Nas horas vagas, é um artista. Zoeira é com ele mesmo.
Carlos José Pereira, 58, nasceu na zona rural de Carmo do Rio Claro (MG). Carlão e mais sete irmãos foram criados na fazenda que o pai tomava conta. Com apenas sete anos, caminhava seis quilômetros para trabalhar na lavoura e ajudar no sustento de casa. Repetiu a rotina até os 11 anos.
A família foi para a cidade, mas as dificuldades permaneceram. Em 1982, Carlão decidiu vir para Franca em busca de uma vida melhor. Conseguiu emprego em uma mercearia no Jardim Guanabara e trabalhou por nove anos no Pão de Açúcar.
Viu que levava jeito para o comércio e resolveu abrir o próprio negócio. Em 1989, inaugurou, em sociedade com o irmão Altair, o supermercado Pereira, no Parque do Horto, onde estão até hoje. O grupo tem outra unidade no Jardim Bonsucesso e três lotéricas.
Comerciante nato, Carlão também tem uma mente fértil para sacadas inteligentes. Em 2002, no auge dos reality shows, lançou o Big Brother Pereira. Cerca de 500 pessoas se inscreveram e 12 sorteados foram confinadas dentro de um Fusca 1300. Quem saísse por último, levava o carango para casa. A brincadeira atraiu a atenção de toda a imprensa.
Em 2017 compôs uma música chamada “Fim de Semana Chegou”, se vestiu como um autêntico funkeiro, arrumou duas dançarinas e fez um clipe. Antes mesmo que o material fosse finalizado, as imagens caíram na rede. Obteve mais de 500 mil visualizações na internet.
Nesta entrevista, Carlão conta que o funkeiro se aposentou e virou compositor sertanejo.
Por que deixou Carmo do Rio Claro e veio morar em Franca?
Em vim para Franca por causa da vida difícil que levava na cidade onde eu nasci. Era um lugar pequeno, sem emprego, sem recurso nenhum. Atrás de uma vida melhor, sai procurando outros lugares. Em não vim direito para Franca. Primeiro, morei dois anos em Passos. Lá, também, não era o que eu queria. Foi quando eu decidi vir para Franca em 1982. Franca me acolheu bem e, quando cheguei, já comecei a trabalhar no setor do comércio. No início, foi difícil arrumar o primeiro emprego, pois eu não conhecia ninguém e não tinha indicação. Depois de uns quatro ou cinco meses, comecei a trabalhar em uma mercearia.
Você se lembra o nome da mercearia?
Sim, claro. Mercearia Silva, do senhor José Silva, inclusive, ele está lá até hoje. Eu gosto muito dele. De vez em quando, eu passo lá para fazer uma visita. Ele é muito gente boa, gosto dele demais da conta. Trabalhei na mercearia dois anos. Quando o Pão de Açúcar, o antigo Super Box, veio para Franca, eu corri atrás e entreguei meu currículo. Acabou dando certo e arrumei uma vaga lá. Comecei como auxiliar de perecíveis, logo passei para encarregado e cheguei a subgerente da loja. Fiquei nove anos no Pão de Açúcar.
Quando saiu, já abriu o próprio negócio?
Quando ainda estava no Pão Açúcar, eu já estava correndo atrás para abrir o meu próprio negócio. Já tinha o local e estava me preparando para começar a construir. Sai de lá e terminei de montar aqui. Montei precariamente, pois não tinha recursos para iniciar. Como não tinha dinheiro, convidei meu irmão Altair para entrar de sócio comigo. Eu vendi o carro que eu tinha e ele vendeu o dele também. Fomos atrás de uns móveis usados, porque não tinha condições de comprar novo. Com muito sacrifício, conseguimos abrir o supermercado em 1989.
Como era a loja no início?
Era pequena e modesta. Começamos com um terreno de 250 metros quadrados. Fomos ampliando a loja e as mercadorias aos poucos. Com o passar do tempo, adquirimos mais dois terrenos e conseguimos ampliar o supermercado. Hoje, estamos com uma loja de 400 metros quadrados.A gente nem esperava tanto, mas, graças a Deus, fomos bem acolhidos aqui no bairro do Horto e as coisas foram acontecendo naturalmente. Nunca fomos de aventurar muito, sempre fizemos tudo com os pés no chão e procuramos crescer aos poucos.
Quantos funcionários você emprega?
Aqui, no supermercado que é a nossa matriz, temos 12 funcionários. Somando com a segunda loja e as três lotéricas, temos em torno de 35 funcionários.
Quando você chegou em Franca em busca do primeiro emprego, imaginava que fosse possível tantas conquistas?
Não imaginava, pelas dificuldades. De onde eu vim, com as condições que eu tinha, não era possível sonhar tanto. Hoje, com o que conquistei com muito trabalho e sacrifício, me considero um vitorioso. Seu eu parar por aqui, tenho que agradecer a Deus todos os dias pelo o que já consegui. Quem começou do zero e chegar onde cheguei, é um vitorioso.
Qual foi a receita para a vitória?
Não depende de apenas um fator. Para um negócio dar certo, é preciso de uma conjunção de fatores e muito trabalho. Um diferencial que me ajudou muito foi eu já ter experiência na área. Não entrei no ramo do comércio sem saber o que estava fazendo. Somando o tempo na mercearia e no Pão de Açúcar, foram 11 anos de supermercado. Deu para aprender muito, foi uma escola. Eu fiz vários cursos, até agradeço o Pão de Açúcar, que me deu muitas oportunidades. Participei de cursos diversos, como vendas e administração, em São Paulo e Brasília. Cheguei a participar de reunião com o Abílio Diniz. Aprendi muito com eles.
Então, quando fui abrir o meu supermercado, eu já tinha uma certa experiência. Na época, o bairro era carente de opções de compra. Fomos um dos pioneiros aqui na região e crescemos junto com o bairro. O Parque do Horto faz parte de nossa história. Tudo isto, ajudou, mas também tivemos muita dedicação. Sempre abrimos a loja às 6 horas e vamos até 20h30. Durante 25 anos que estamos aqui, trabalhamos todos os dias. É uma longa história de trabalho e dedicação.
O que você fazia em Minas antes de vir para Franca?
Eu fazia de tudo. Nós moramos em uma fazenda desde que eu nasci até os 11 anos. Meu pai tomava conta da propriedade. A gente estudava e trabalhava com ele na lavoura. Era uma vida muito difícil. Meu pai tinha oito filhos e a gente precisava trabalhar para ajudar em casa, pois as condições eram muito difíceis e, sozinho, ele não dava conta. Eu comecei a ajudar meu pai na lavoura com sete anos. Eu levantava cedo, ia para a escola, estudava até o meio-dia, chegava em casa, almoçava e ia trabalhar até às seis horas da tarde. Nós andávamos a pé seis quilômetros para ir trabalhar. Não tive vida fácil desde pequeno. Hoje, vejo o pessoal reclamar por pouca coisa, mas, quem passou o que passamos, sabe dar valor. Quando você consegue as coisas lutando e trabalhando, você valoriza mais aquilo que conseguiu. Eu consegui honestamente e trabalhando. Ninguém me deu nada de graça.
Na semana passada, bandidos invadiram o seu supermercado e roubaram um cofre. Como um pai de família que trabalhava desde os sete anos de idade define este tipo de violência que você sofreu?
É uma situação revoltante. Eu já passei por várias situações aqui, não foi a primeira vez. A gente sempre lutou e suou para ganhar o nosso dinheiro e, de repente, vem um vagabundo e leva aquilo que você conquistou com tanto esforço. Você fica muito nervoso e passam mil coisas por sua cabeça. Você pensa em largar mão e parar com tudo. Várias vezes já pensei em desistir. Meus familiares já disseram para eu parar antes que aconteça algo pior, mas não vou parar. Eu dependo do meu comércio e ajudo a sustentar mais de 30 famílias. É muito triste você lutar tanto para poder conseguir as coisas e o cara, do nada, chegar e te leva aquilo de graça. É revoltante.
Vamos falar de coisa boa: você, além de ser um comerciante bem-sucedido, é também muito criativo e está sempre surpreendendo com ideias mirabolantes. Começou a chamar a atenção em 2002 quando colocou 12 pessoas dentro de um Fusca. Conte-nos esta história...
Foi o BBB do Fusca. Eu faço umas coisas, que nem eu acredito. Eu comentei com um funcionário que eu precisava sortear alguma coisa para melhorar o movimento no supermercado. Ele brincou comigo e disse: sorteia o meu Fusca, eu te vendo ele”. Achei que não era má ideia, mas pensei em fazer algo além do que um simples sorteio. Como o programa BBB estava na moda, decidi fazer uma brincadeira e pegar carona no nome. Foi onde criei o concurso e as pessoas se inscreveram. Coloquei 12 pessoas dentro de um Fusca. Eu não imaginava que fosse dar tanta repercussão. Toda a imprensa de Franca e a TVs divulgaram o meu concurso. Era um Fusquinha velho, estava até sem assoalho e os participantes ficaram 34 horas dentro para tentar conquistar o prêmio. Até hoje, as pessoas comentam a respeito comigo. Era uma ideia simples, que custou pouca coisa, mas que deu uma repercussão enorme.
Na sequência, você promoveu a corrida de melancia e o sucatão do Carlão, para consertar carro, entre outras promoções, mas o que bombou mesmo foi o MC Carlão. Como nasceu o personagem?
Foi mais uma loucura que nasceu do nada. Muita gente não entendeu que era apenas uma brincadeira e fez muitas críticas na internet, mas eu sempre deixei bem claro que não sou cantor. Foi apenas uma diversão entre amigos. Meu filho gostou do resultado e quis gravar. Ele é designer gráfico e gosta de criar coisas. Fizemos um vídeo na zoeira e colocamos na internet. De um dia para o outro, o trem explodiu. Em apenas um dia foram mais de 40 mil visualizações. Semanas depois, já eram 530 mil visualizações no Facebook e mais de 80 mil no YouTube.
Como foi sair da posição de anônimo nas redes sociais e acordar com mais de meio milhão de visualizações?
Não fiz o vídeo para isto e não tinha muita dimensão do que estava acontecendo. Foi uma surpresa, um susto muito grande, eu mesmo não acreditei. Eu sou comerciante, fiz o clipe apenas por hobby, por gostar. De repente, estava sendo parado por crianças, adultos e idosos nas ruas que viram o vídeo. Mudou a minha rotina e começou a envolver a família. Minha filha e minha esposa ficaram preocupadas, pois sempre tem as pessoas que não sabem levar na brincadeira e fazem críticas pesadas. Muitas pessoas viram o clipe em que eu aparecia ao lado das dançarinas e perguntavam se eu havia separado de minha mulher (risos). É preciso saber separar as coisas. Eu sou o Carlos empresário. O MC é um personagem que eu criei. Lidei bem com a situação e dei risadas.
Agora, o empresário Carlos Pereira deixou o MC de lado e se tornou compositor. Vem música nova por aí? O que pode adiantar?
Eu sempre brinquei de fazer paródias. Não sou compositor, mas gosto de escrever. Recentemente, fiz uma letra de música sertaneja. Em breve, será lançada. A música se chama “A mulher do Ricardão”. Apenas fiz a composição, não vou gravar. A ideia é entregar para alguma dupla gravar. A letra é engraçada, dançante é tem o estilo que o francano gosta. Tem o perfil de duplas como Teodoro e Sampaio, Gino e Geno e Rionegro e Solimões.
Com a popularidade que adquiriu, nunca pensou em entrar para a política?
Como estou no bairro há muito tempo, as pessoas me procuram para tentar resolver problemas diversos. Elas me pedem como se eu fosse político. Um exemplo foi no caso quando fizemos um movimento para rever as prestações das casas do Horto. Eu gosto de ajudar dentro do possível e sempre estou à disposição. Já tive convites para me filiar, mas eu não quero não. Cheguei a conversar com minha família a respeito, mas decidi que não vou mexer com política não.
O que você espera de 2020?
Estou confiante que a economia vai melhorar. Acredito que o pior já passou, está dando uma melhorada. Este ano foi difícil. Quem sobreviveu até agora, vai respirar mais aliviado a partir do ano que vem.
O artista Carlão vai lançar muitas novidades?
Eu gosto de estar sempre brincando e, por mim, faria até mais, mas tenho os meus compromissos com minhas empresas. Já aconteceu de pessoas conhecidas vir no supermercado e entregarem músicas para eu gravar. Eu falo: “gente, eu não sou artista não”. Meu negócio é o comércio. Desejo boas festas a todos e espero que todos nós possamos dar mais risadas em 2020.
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