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'O sonho de um menino'


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O jovem Clóvis Ludovice na sua formatura
O jovem Clóvis Ludovice na sua formatura

“O sonho de um menino que guardava uma bolinha de gude na gaveta”. A frase é de Clóvis Eduardo Pinto Ludovice, morto em outubro deste ano e sintetiza o porquê o jovem advogado formado, natural de São Carlos, decidiu em 1970 fundar em Franca, a Unifran (Universidade de Franca). Conhecida por ser uma das maiores do interior paulista, em 2020 a instituição completa seu Jubileu de Ouro e, na última quinta-feira, 12 de dezembro, foi homenageada com uma sessão solene na Câmara de Franca (veja texto nesta página).

Viúva de Clóvis, Maria Teresa Segantin Ludovice diz que o marido “respirou” a universidade até 11 dias antes de morrer. Nem mesmo nas férias conseguia deixar de pensar na instituição. “Ir na universidade todos os dias era uma necessidade para ele. O Clóvis tinha que estar lá. Depois da nossa casa, era o local em que ele mais gostava de estar. Quando viajávamos, sempre ligava, olhava o e-mail, queria saber das correspondências. Ele não desligava”, contou, com olhos marejados. Os dois foram casados por 15 anos e juntos compartilharam, além de muitas viagens, o gosto pela educação.

Filho de educadores e sobrinho de uma professora de francês, com quem conviveu, Clóvis cresceu no meio acadêmico e se tornou professor de história da Unaerp, em Ribeirão Preto. Antes de completar 30 anos, veio para Franca e na cidade abriu uma escola de artes onde era o faxineiro e também o diretor. A escola funcionava em uma sala no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, cedido pelas freiras a pedido de Antônio Baldijão Seixas.

A iniciativa da escola deu visibilidade a Clóvis e foi o embrião para o surgimento da agora Unifran. Segundo Maria Teresa, após um ano, houve um convite por parte de Tomás Novelino, fundador do Pestalozzi, para que ele fosse até o colégio. “O Clóvis foi até o Pestalozzi e os dois tiveram uma longa conversa. No final, o doutor Novelino disse que tinha 12 cursos e os alunos estavam formando, sem os cursos serem reconhecidos e somente o Clóvis faria o reconhecimento (do Ministerio da Educação). Ele respondeu que não tinha condições financeiras para adquirir. Foi aí que doutor Novelino falou que estava dando os cursos de presente”.

Após dois anos no Pestalozzi, Clóvis Ludovice saiu do colégio, foi para Brasília e depois de seis meses, os cursos estavam reconhecidos pelo governo. Maria Teresa conta ainda que, na saída, conforme prometido anteriormente por Novelino na conversa inicial, Clóvis levou com ele os cursos, os funcionários e uma linha de telefone. Nascia assim a Unifran.

Inicialmente, houve a compra de uma parte do terreno onde hoje funciona todo o complexo educacional e, aos poucos, novos cursos foram sendo implantados e a estrutura, sendo ampliada. Em 1975, segundo informa o site da instituição, a universidade possuía 400 alunos. “Ele sempre esteve à frente de todos os processos. Tinha um conhecimento nato e o sonho dele maior era fundar o curso de medicina. Muitas pessoas foram contra, houve muitos empecilhos. Foi uma luta muito grande até obter a autorização”.

Segundo Maria Teresa, toda a estruturação, incluindo corpo docente, cursos, salas de aulas, laboratórios, parte de jardins e manutenção e até a cor dos blocos foi pensada pelo seu marido que gostava de modo especial, da cor vinho. O vinho inclusive acabou sendo adotada por muitos anos no logo da universidade. “O Clóvis foi muito visionário, um sonhador. Sempre gostou da área educacional. Foi comprando os terrenos aos poucos, financiando... Ver a universidade crescer foi o mesmo sentimento de ver um filho crescendo, você cuidando e dando bons frutos. Foi o ápice do sonho dele, maior. Ele vibrava com cada curso instituído, cada nota que saía do MEC. Era sempre mais uma conquista. O Clóvis sempre disse que o ser humano tem que produzir algo em prol do próximo”.

Por toda sua dedicação e incentivo à educação superior em Franca, Clóvis Ludovice recebeu o título de Cidadão Francano. Deixava claro para todos que amava a cidade e acreditava em seu potencial. Político, embora nunca tenha almejado a carreira política, tendo inclusive dispensado convites para concorrer a um pleito, o eterno fundador da Universidade de Franca conhecia todos os cantos do enorme campus. Conversava com os funcionários desde a base até os reitores. Era audacioso e ao mesmo tempo controlador. “Tudo era da cabeça dele. O Clóvis não tinha medo de ser ousado, de concorrentes. Era muito confiante, sempre fazia investimentos e nunca pensou em ter outra faculdade. Ele gostou de Franca principalmente pela maneira como foi recebido, não precisou de esforço”.

Em 2013, já com mais de 50 cursos de graduação, pós e extensão e 16 mil alunos, Clóvis - que também chegou a ter como sócio o empresário Abib Salim Cury -, decide pela venda da Unifran para o grupo educacional Cruzeiro do Sul. “Foi um momento de muita dor, sofrimento. A universidade foi vendida para que ela continuasse viva e também pelo fato do Clóvis não ter feito a sucessão”, revela Maria Teresa. Clóvis era pai de 4 filhos, frutos de um relacionamento anterior. “Mesmo depois da venda, ele ficou com uma sala e continuou indo até a universidade. Ficava meio período. Era lá seu escritório. A universidade, porém, não era a mesma e causava tristeza nele ver o que foi feito”. Segundo ela, Clóvis não dava a universidade por concluída e, caso não tivesse vendido, continuaria a investir e abrir novos cursos.

Legado se mantém na ‘Toulouse Lautrec’

Apesar de não ter feito sucessor na universidade, Clóvis Ludovice passou muitos dos seus ensinamentos e exemplos de gestão na área educacional para a esposa Maria Teresa. Proprietária do Colégio Toulouse Lautrec, ela diz que sempre pensa no marido quando precisa tomar alguma decisão. “Ele me ensinou muito e estava feliz com as ampliações e o caminho que o colégio tomou. O Clóvis foi um ótimo professor e dizia: ‘Você me surpreendeu’”.

Ao adquirir o colégio, Maria Teresa deu início à construção de um novo bloco para implantar o Ensino Médio. O anexo contém dez salas, incluindo sala dos professores e laboratório e será inaugurado, no começo de janeiro, com o nome de Clóvis Ludovice. “O Clóvis me ensinou que é preciso ter harmonia no ambiente de trabalho, viver o bem. Ele era muito humano e isso eu tenho aplicado aqui no colégio”, lembrou, emocionada.

 

Jubileu da Unifran

De autoria do vereador Marco Garcia (Cidadania), a Unifran recebeu na última quinta-feira, 12, na Câmara Municipal, uma moção de aplausos pela comemoração dos seus 50 anos. A sessão solene contou com a presença da reitora da universidade, Kátia Jorge Ciuffi, e de coordenadores que compuseram a mesa de honra.

Durante a solenidade, foi exibido um filme institucional da universidade e houve a entrega de uma placa metálica em homenagem ao Jubileu de Ouro, repassada pela Câmara para a reitora Kátia e o pró-reitor de graduação, Élcio Rivelino Rodrigues.

 

Veja abaixo imagens dos anos iniciais da primeira Universidade da cidade de Franca, fundada em 1970 pelo jovem advogado Clóvis Eduardo Pinto Ludovice 

 


 

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