Sérgio Olímpio Gomes

'Dias Toffoli praticou crimes contra a administração pública'


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Sérgio Olímpio Gomes tem 57 anos e é natural de Presidente Venceslau, cidade localizada no interior do Estado e que abriga a P2, penitenciária famosa por ser a moradia de líderes do PCC. Muitos deles foram parar atrás das grades pelas mãos de Olímpio.
 
Ele ingressou na Polícia Militar em 1978 e serviu a corporação por 29 anos, até chegar ao posto de major. É bacharel em ciências jurídicas e sociais, jornalista, professor de educação física, técnico em defesa pessoal, instrutor de tiro e autor de livros sobre segurança.
 
Foi deputado estadual e federal. Tem como principal bandeira o combate ao crime. No ano passado, foi eleito senador da República com mais de nove milhões de votos, 90 mil deles dados por eleitores de Franca. Se transformou em um dos personagens mais atuantes do Senado, com discursos e iniciativas polêmicas, como pedir o impeachment do presidente do STF, Dias Toffoli.
 
Major Olímpio tem estreita relação com Franca. Desde 2011 mantêm um escritório político na cidade, que funcionava como uma extensão de seu gabinete. É onde recebe pedidos de entidades e prefeituras de toda a região. Devido aos serviços prestados, ganhou o Título de Cidadão Francano em junho de 2014. 
 
Após ser eleito senador no ano passado, já visitou Franca duas vezes. A última foi na segunda-feira, 9, quando participou da abertura de evento na Câmara, despachou com prefeitos e se reuniu com policiais militares no 15º Batalhão. Major Olímpio recebeu o Comércio para esta entrevista exclusiva.

Qual o motivo da visita a Franca?
Por meio do meu gabinete, o Interlegis (Instituto Legislativo do Senado) está promovendo nas Câmaras Municipais um curso de atualização de técnica legislativa, orientação e atualização de Lei Orgânica para Prefeituras, vereadores e servidores. Temos professores de excelência no Senado e já fizemos dez cursos este ano no Estado. O objetivo é melhorar a administração pública em todos os níveis. Em muitos municípios, a Lei Orgânica está defasada em relação até mesmo à atualização da Constituição Federal de 88. Isto dificulta o acesso a benefícios e recursos. Eu vim a Franca para participar da abertura do curso que foi realizado na Câmara Municipal. Também tive contato com o efetivo da Polícia Militar, no 15º Batalhão, onde falei aos policiais sobre a reforma do sistema de Previdência e o impacto para os militares.

Tanto na Câmara, quanto no Batalhão, o senhor recebeu prefeitos em busca de recursos. Será possível ajudar as prefeituras da região que sofrem com a queda na arrecadação?
Recebi pedidos diversos de liberação de emendas parlamentares e para agilizar processos já em andamento. Vejam só a deficiência da administração pública: dois municípios, Pedregulho e Cristais Paulista, me pediram para ajudar a desembaraçar a liberação de emendas que foram feitas nos anos anteriores pelo então senador Airton Sandoval. O dinheiro está bloqueado ou ainda não chegou na totalidade. Além de minhas emendas parlamentares, brigamos para liberar recursos que já haviam sido prometidos antes mesmo que eu chegasse ao Senado. Meu gabinete virou um escritório de apoio aos municípios do interior de São Paulo. Os diretores da Santa Casa de Franca, às vezes, estão mais dentro do meu gabinete do que eu. Fui o senador mais votado em Franca e tenho mais do que obrigação de me mobilizar e ajudar.
 
O senhor é um dos maiores defensores da prisão em segunda instância e brigou para a aprovação do projeto na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o que aconteceu na terça-feira. Qual sua avaliação a respeito?
Foi um momento histórico, uma vitória do Brasil. Demos uma resposta à vontade popular. No domingo passado, tivemos manifestações favoráveis em pelos menos cem grandes cidades no Brasil. Eu estive na avenida Paulista, em São Paulo, com milhares de pessoas e vimos que é a população que está exigindo isto. O povo está dizendo: “parem de safadeza com o povo”. Não é só em relação à prisão do Lula, não.  Além dele, foram colocados em liberdade outros 4.900 condenados. Todos os dias, centenas de condenações em segunda instância acontecem no Brasil. Se não tiver uma medida cautelar, como uma prisão preventiva decreta, os criminosos dão ‘tchauzinho’ e vão para a rua. É um absurdo isto. A polícia fica limpando o chão com a torneira aberta.

No último dia 4, o senhor protocolou no Senado Federal um pedido de ‘impeachment’ do presidente do STF, Dias Toffoli. O que motivou a decisão?
Não foi para causar polêmica não. Eu fiz o pedido de impeachment dele com muita substância e coloquei, principalmente, as manifestações de cinco ministros do Supremo neste julgamento de compartilhamento de dados da Receita e do Coaf. O Toffoli puxou as informações do Coaf também e a ação original não tinha nada a ver com o Coaf. Era Ministério Público com Receita Federal sobre as informações de um casal dono de um posto de gasolina em Americana. O Toffoli, por razões que não são as mais republicanas, puxou o Coaf todo porque tinha investigação do Coaf em relação à movimentação financeira da mulher dele e da mulher do Gilmar Mendes. Estou falando em “on” (para ser publicado), mesmo. Comigo não tem essa conversa, não, e coloquei no pedido de impeachment dele.
 
São crimes contra a administração pública que ele praticou. Como é que o guardião da Constituição vai ficar à margem da lei? Quero que ele passe por um processo de impeachment mesmo. Vou pressionar o presidente do Senado de todas as formas (para instalar o processo). Não tenho o rabo preso, respeito o STF, mas não devo nada a eles. Respeito a Câmara e o Senado, mas respeito, antes de tudo, a população. Devo satisfação para a minha consciência e para a população do Estado de São Paulo.
Precisamos avaliar se este sujeito tem condições de continuar como ministro do Supremo. É a mesma coisa que julgar políticos que estão em processo. Em 2017, votou o Senado acabando com o foro privilegiado. Há 55 mil pessoas com foro privilegiado no Brasil. Por que a Câmara enrolou e não pauta o projeto? Eu te respondo: porque tem 38 senadores processados no Senado e 174 deputados processados.
 
Não adianta falar que está tudo certo na Câmara e no Senado e que os ministros do Supremo são nossos ‘irmãozinhos’. Não são, não. Alguns deles não merecem ser ministros do Supremo. Temos que respeitar as instituições, mas não podemos dizer que não vamos pedir apuração para não gerar desequilíbrio, um desconforto. Eu quero que os caras se danem.
 
Quero que quem estiver devendo, na Câmara ou Senado, que respondam. Se provar que é inocente, parabéns. É pilantra, perde o mandato e cadeia.
 
O Congresso aprovou o valor de R$ 3,8 bilhões para o fundo eleitoral das próximas eleições? Qual a opinião do senhor a respeito?
É uma vergonha. Isso é a maior safadeza com o cidadão. O fundo de financiamento de campanha, que eu chamo de fundão da vergonha, eu já fiz um projeto acabando com ele. Todo mundo ficou puto comigo. A previsão era de que o valor seria de R$ 2 bilhões, o que já era altíssimo.
 
Fizeram uma manobra e colocaram no orçamento aumentando o valor. Apresentei uma emenda arrancando o valor, mas perdi por dez votos a três. Nesta terça-feira, dia 17, deve ser votado o orçamento. Se o povo não gritar muito, esse valor absurdo será aprovado.
 
Eles queriam fazer um acordo amplo para ser votação simbólica. Assim, ninguém saberia como cada senador votou. Eu falei: “de jeito nenhum”. Cada deputado e senador terá que colocar sua digital para o povo saber como cada um votou.
 
Estão tirando dinheiro da Saúde, da infraestrutura, da Educação e da Assistência Social. Imagina quantas pessoas vão morrer com a retirada de R$ 500 milhões da saúde pública. O político que é a favor é gente sem coração. Está pensando em dinheiro para a campanha eleitoral e está usando a desgraça da população com isto.
 
O Ministério do Moro, Justiça e Segurança, vai ter R$ 4,5 bi de orçamento. O fundão eleitoral é de R$ 3,8 bi. Só o povo batendo e batendo muito duro para esta patifaria não ser aprovada.Temos que execrar mesmo. O fundão é uma grande safadeza. Não vamos deixar. Nunca usei nenhum centavo, não vou usar e sou contra quem usa. 
 
Com a experiência de quem foi policial por três décadas, como avalia a atuação da Polícia Militar em Paraisópolis e que resultou na morte de nove pessoas?
É uma coisa impressionante o processo que alguns segmentos da sociedade, mal-intencionados, querem promover de escárnio, de achincalhe da Polícia Militar. Antes de mais nada, vou dizer para vocês: de primeiro de janeiro até o dia 30 de novembro, a PM, só em Paraisópolis, apreendeu duas toneladas e meia de drogas. Numa avaliação mais barata, temos em torno de R$ 35 a R$ 40 milhões que o tráfico perdeu. Além dos vários traficantes presos. Eles estão desesperados. Há um mês, mataram o sargento Ruas, que estava de serviço em Paraisópolis. Intensificamos as operações policiais para tentar prender os assassinos dele. O ‘Baile da 17’ existe há mais de dez anos e já chegou a ter 30, 40 mil pessoas. Tinha cinco mil. Aquilo significa o descaso do Poder Público. A Prefeitura não poderia deixar funcionar. Paraisópolis tem 110 mil pessoas. A maioria é gente de bem, mas 1% é de criminoso, o que equivale a mais de mil bandidos. Esses caras exploram a venda de bebida para menor, prostituição e droga. Essa é a verdade que os poderes constituídos não querem ver. Naquela noite, tiveram 40 chamadas de perturbação de sossego de Paraisópolis para a central da PM. Quem é que vai atender alguma coisa às 4h30 da madrugada? Vai ser as Forças Armadas, o Ministério Público, a Defensoria Pública, as entidades de direitos humanos ou os políticos de esquerda? Vai ser a PM.
Aqueles bandidos são malditos. O pisoteio aconteceu às 4h30. O baile terminou às 10h30. As estruturas de som que eles usam têm quatro metros e meio de altura. A locação custa R$ 50 mil. Quem paga são os traficantes. Eles é que estão putos com a PM estar lá.
 
Mas o senhor não admite que houve excesso da polícia como relatam os moradores e mostram as imagens gravadas por celular?
Para dizer muito a verdade, chamaram a PM para uma isca, promoveram aquele efeito manada. Muita gente morreu porque foi parar em um lugar onde cabia dez pessoas e foram 80. Morreram pisoteadas, por traumatismo. Ninguém levou um tiro ali. Não houve uso de arma de fogo. Por isto que defendo a Polícia Militar neste momento e estou pedindo para a população defender. Policial nenhum pisoteou ninguém, não. Não foi a polícia quem deu causa. Os três policiais se viram cercados, os caras atirando neles, e eles pediram prioridade (ajuda). As viaturas foram lá para socorrê-los. O efeito manada começou antes da chegada das viaturas, com o disparo de armas de fogo dos caras. Nenhum policial militar disparou.
 
Qual avaliação o senhor faz do governo Jair Bolsonaro. E como viu a saída do presidente do PSL? O senhor disse recentemente à rádio Joven Pan que o partido Aliança pelo Brasil será como o Titanic...
Eu fiquei muito triste com a saída do presidente do PSL. Ele é meu amigo, fizemos a campanha juntos. Continuo defendendo as bandeiras dele. Eu disse que é um Titanic, pois acho que vai afundar. Os partidos novos vão ser supermanicos. A cláusula de barreira e as leis vão acabar com isto, temos mais de 30 partidos. É partido demais, tem que acabar e ficar, no máximo, meia dúzia de partido no Brasil. Foram os filhos dele e mais algumas pessoas do entorno que acabaram pilhando, induzindo o presidente numa situação que não era verdadeira e ele acabou saindo. O PSL era 100% dele. Os senadores e deputados do partido votando fechado com ele. Continuarei votando com o Bolsonaro, pois a nossas pautas são as mesmas.
 
Só não vou para o partido, primeiro, porque o filho dele que é senador, o Flávio, é vice-presidente. Eu rompi com ele, pois ele veio me cobrar por ter assinado a CPI da Lava Toga para apurar o STF. Eu falei para ele: “rapaz, você preste contas a quem você deve”. 
 
Ainda torço para o presidente refletir mais para a frente e retornar para o PSL. Seria adorável ele disputar a reeleição pelo partido, agora que o PSL está maior e melhor estruturado.
Eu ficarei no PSL. Como é que vou para o partido lá que tem os filhos dele? Se fosse só o Bolsonaro, eu estava junto e acabou. Mas não quero. Já escolhi meu lado. O Bolsonaro, eu vou ajudar. Alguns que o cercam, eu quero muito distância. Já escolhi o meu lado da lei na vida e acabou.

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