O idioma africâner surgiu na África do Sul como resultado da interação entre os colonos europeus, na sua maioria holandeses, franceses e alemães, e a população local. Em africâner, apartheid significa “separação”. Foi a palavra usada pelos nativos para definir o regime de segregação racial no país a partir de 1948. Privilegiava a minoria branca, e perdurou até as eleições presidenciais de 1994, ano em que ascendeu ao poder Nelson Mandela, o maior ícone de liderança naquele país. Ele pôs fim ao regime segregacionista, lutando pela igualdade racial.
O Brasil tem exemplos singulares de apartheid. Ele é do tipo racial, social, econômico. Por aqui, nos trópicos, se disfarça e pode passar por vezes despercebido. Entretanto, basta olhar as profissões consideradas “de elite”, para ver o quanto essa ideia persiste. Quantos ministros negros teve até agora o STF? Os Tribunais de Justiça? Os Conselhos de Medicina? As Seções da OAB? O Senado? São poucos. Em alguns casos, nenhum.
A explicação está em nossa história. Temos um passado escravocrata, que não se resolveu bem até agora. Muitos brancos se sentem na Casa Grande e olham os negros como se estivessem nas senzalas. Ou então, como disse o alienado presidente da Fundação Palmares, felizmente defenestrado nesta semana, acham que a escravidão foi ótima, “aprimorou” o caráter do negro, fez dele um “forte”. Nosso racismo é Nutella, ele frisou. Será muita parvoíce ou muita hipocrisia? O poeta Carlos de Assumpção tem razão na sua poesia de denúncia e revolta. E tem muito ainda que declamar para fazer chegar aos tímpanos, ao coração e à mente dessa gente preconceituosa o som de seu tambor.
Ainda há muito preconceito no Brasil.
Às vezes ele é escancarado, como foi o caso do universitário branco que se negou a pegar a prova das mãos da professora negra, em Salvador, no começo desta semana. Que isso tenha acontecido na capital da Bahia, o estado brasileiro cuja população é 80% negra, é de uma ironia cortante, surreal, ridícula.
Outras vezes ele é sutil, e extravasa o aspecto racial, como bem lembrou a jornalista Eliane Catanhede, da equipe do Globonews em Pauta, referindo-se aos elevadores de nossos prédios, que continuam sendo projetados em duplas pelos arquitetos - um para o patrão, outro para o empregado. Poucos lugares do mundo acolhem essa excrecência. Haverá maior exemplo de segregação?
Enquanto não tivermos coragem de enfrentar nossa herança profunda, rever nossos preconceitos e reparar nossos erros históricos, iremos ficar divididos como sociedade. Este é um fato pra lá de evidente, traduzido nos últimos dados do Pnud que mostram de forma perturbadora o nível da nossa desigualdade. Os ricos ficam cada vez mais ricos. Os pobres, ainda mais pobres.
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