Katielle Silva Fonseca

'A lei estabelece o estudo da cultura negra nas escolas do País'


| Tempo de leitura: 6 min
A Lei 10.639 estabelece o estudo da cultura negra nas escolas públicas e particulares do país (...) O objetivo é resgatar e despertar a identidade cultural dos nossos alunos e comunidade, levando-os a refletir sobre as questões do negro na história e  na
A Lei 10.639 estabelece o estudo da cultura negra nas escolas públicas e particulares do país (...) O objetivo é resgatar e despertar a identidade cultural dos nossos alunos e comunidade, levando-os a refletir sobre as questões do negro na história e na
A Escola Estadual “Micher Haber”, localizada no Jardim Paulistano, em Franca, ganhou nova energia desde que assumiu a gestão em 2017 uma mineira radicada em nossa cidade, 37 anos, casada, mãe de dois filhos. Graduada em Educação Física e Pedagogia, ela é educadora que inspira colegas e alunos; cidadã consciente dos processos históricos que explicam a permanência de racismo no Brasil; empreendedora dona de uma marca - a “Penduricalhos da Katy”; agitadora cultural em eventos aos quais agrega sua experiência de negra numa sociedade com muitos traços de racismo - aparente ou enrustido. 
 
Desde pequena envolvida com esportes, sabe a força que ele pode conferir às crianças e adolescentes, despertando-os para a disciplina e esforço, o cuidado com o corpo, a competição saudável, a autoestima e a aprendizagem do ganhar e do perder - segundo Rudyard Kipling, o poeta indiano, “dois verbos impostores que todo humano deve aprender a conjugar para se tornar de fato adulto”. 
 
Para falar de seu trabalho como educadora, do engajamento nas causas sociais, da criatividade deslocada para a moda afro, o Comércio da Franca entrevistou Katielle Silva Fonseca. 
 
De Belo Horizonte para Franca. Como foi que aconteceu?
Por causa do esporte vim para Franca fazer parte da equipe municipal na qual me mantive por mais de 10 anos com resultados relevantes e significativos em nível estadual e nacional. Fui coordenadora e fundadora de um projeto esportivo conhecido como Afago, envolvendo centenas de crianças na prática das modalidades de ginástica e circo.
 
Desde quando você está na direção da escola “Michel Haber?
Ingressei como diretora há aproximadamente dois anos, desde que fui aprovada em concurso. Havia muitas vagas em outras escolas, em diversas cidades do Estado, mas torci para conseguir ficar em Franca, cidade que já tinha escolhido para criar meus filhos. Optei pelo “Michel Haber” sem saber nada da escola. Foi uma escolha abençoada. 

O que chamou sua atenção, de início?
Percebi que muitos alunos sofriam com baixa autoestima. Procurei então resgatar e despertar sentimentos de pertencimento, identidade e empoderamento. 

De que forma fez isso?
Não fiz sozinha, porque tudo o que se faz na vida precisa de parceria. Tive o corpo docente ao meu lado e a comunidade de pais também. Restauramos a fachada dando uma nova identidade para a escola. Trabalhamos com frases afirmativas e inclusivas: “E.E Prof Michel Haber- Escola de todos nós!!!” “Você não está sozinho! “. “Sim, nós podemos”. Com pequenas e contínuas ações de toda a equipe, a comunidade foi se envolvendo mais e gradativamente. Rompemos com os mitos, os rótulos e a falta de credibilidade da nossa instituição.
 
E o “Projeto Afrodescendentes?”
Uma coisa que não é de amplo conhecimento é que a Lei 10639 estabelece o estudo da cultura negra nas escolas públicas e particulares do país (...) Implantamos o projeto com o objetivo de resgatar e despertar a identidade cultural dos nossos alunos e comunidade, levando-os a refletir sobre as questões do negro na história e na sociedade. Com o tema A beleza e a riqueza de ser o que somos, conseguimos despertar novos conceitos e entendimento sobre as questões de história, identidade e conscientização da nossa cultura e do nosso povo.

De que maneira os alunos foram estimulados a pensar essas questões profundas e delicadas? 
Trabalhando com a arte e a cultura, levamos os alunos a se expressarem das mais variadas formas, revelando assim o seu talento, imprimindo mais vida e mobilização no cotidiano da escola. Reduzimos os problemas com bullying, aumentamos a autoestima e melhoramos a qualidade das relações entre os pares. 
 
O que constitui o ‘Projeto Afrodescendentes’?
Ele é desenvolvido ao longo do ano e tem a sua culminância em novembro. Realizamos uma gincana cultural onde cinco equipes  cumpriram desafios: recitaram e declamaram poemas; falaram sobre a cultura afro-brasileira; apresentaram-se com vestimentas africanas; elaboraram pratos típicos; criaram comerciais, campanhas e propagandas contra o racismo; apresentaram músicas pertinentes a seu repertório emocional;  pesquisaram e discorreram sobre personalidades negras.

Toda a escola participou?
Sim, toda a escola foi dividida em equipes e os alunos se apresentaram para a comunidade e uma equipe de jurados. Nesse ano os homenageados foram a poetisa Tata Aparecida e o promotor aposentado José Lourenço. O poeta Carlos de Assumpção é o patrono do nosso evento desde o seu início. Com dois anos de existência, percebemos que a implantação do projeto trouxe novos valores e ideais. Através do apoio da Sala de Leitura, muitas das nossas práticas foram fortalecidas, divulgadas e compartilhadas com outras escolas e instituições. 
 

Katielle com o escritor Carlos de Assumpção: lideranças em Franca

 
Sua presença foi bastante notada nos eventos relacionados às comemorações do Dia Nacional da Consciência Negra e também nas redes sociais.
Estive  envolvida com  várias comemorações. Durante a homenagem na Câmara, terça-feira, não fiz uso da palavra, mas tornei público meus agradecimentos nas redes sociais registrando que me despertou grande prazer “ser lembrada e estar junto a várias pessoas que desenvolvem atividades relevantes e trabalhos significativos para o nosso povo e sociedade em geral. E estendi a homenagem, o reconhecimento e os agradecimentos a toda minha equipe, colaboradores, parceiros e apoiadores dos meus trabalhos, atividades e funções.”

Por falar em atividades, o que é o ‘Dia de Garagem’?
São atividades programadas para um encontro com amigos e pessoas interessadas em fazer trocas - de produtos (roupas, sapatos, utilidades domésticas, brinquedos, etc), de experiências, de conversas. Nessa época de avanços digitais, marcada por modismos e consumismo, precisamos parar e refletir sobre valores e atitudes, buscando um sentimento de interiorização, renovação e mudança. O projeto Dia de Garagem foi inspirado nos três ‘Rs’ da sustentabilidade: reduzir, reciclar, reutilizar. Acrescentamos mais dois verbos: reinventar e empreender.
 
Onde acontecem os encontros? 
Na rua Idalina Fernades Leite, 1940, Vila Conceição Leite. Aos sábados, das 8h às 18h. Aos domingos, das 10h às 16h. É bom ressaltar que a prática não tem foco na comercialização, mas nos encontros, no desapego, na parceria onde as pessoas estarão conhecendo e incentivando o surgimento de uma nova marca. 
 
Que marca é essa?
Chama-se “Penduricalhos da Katy”, marca minha. Temos até um slogan: “Inovar e empreender para superar e vencer.” Os produtos são bandanas, turbantes, bijuterias; tudo alegre e colorido, inspirado na cultura negra. 
 
Um balanço do ano de 2019.
 Classifico como bem-sucedidas a minha gestão escolar, o afro empreendedorismo e os projetos sociais. Acho que despertamos novos parceiros, multiplicadores e apoiadores das nossas lutas e causas, com novos olhares, visões e posturas. 
 
Planos para 2020? 
Em relação ao afro-empreendedorismo, queremos ampliar o conhecimento e a valorização da nossa cultura, trazendo para a sociedade francana um novo segmento na parte de moda e acessórios. Para o projeto social Dia de Garagem, buscamos novos voluntários e parceiros. Para a gestão escolar, a proposta é que, juntamente com toda equipe, possamos melhorar cada vez mais o processo de aprendizagem, o envolvimento de toda a comunidade escolar nas nossas ações e atividades, buscando assim construir a cada dia um ambiente mais humanizado e harmônico, comprovando a possibilidade real de se ter uma escola pública, periférica, inclusiva e de qualidade.

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