Antropofágica


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Devoro pessoas, já lhes aviso.Se você for um risco fora da curva então, me dá água na boca. Desejo saber tudo de você, do mapa astral até de onde veio e pra onde vai.

Os incongruentes me dão azia. São pessoas dualistas, discurso x e ação y, não me despertam fome nenhuma.

Eu gosto de humanos, gente que assume ter raivas, traumas e não só que é feliz. Como diz a música “eu gosto dos que têm fome, dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem...”

Acabei de chegar de um rolê intenso na capital. Quatro dias devorando burlescas, trans/viados , fanchas, maconheiros-vagabundos (assim são chamados por consumirem uma planta), tocadores de gaita da Roosevelt, escritores undergrounds e artistas malditos da rua Augusta: um povo delicioso! Um povo congruente e profundamente respeitador, acreditem. Só quem é diferente respeita diferenças.

Devorei uma marquesa em plena rua e luz do dia. Ela vestia um vermelho Lula Livre, e eu a enquadrei na porta do banco só pra dizer: mana, você me faz salivar – nada acontece ao acaso. Sou cheia de encontros fluídicos.

Quando volto de lá para a província sinto que estou indo para um passado primitivo. Pego um busão de mercadores de templos e hipócritas: só porque sai mais barato e eu também sei atuar, pois me causam azia.

São pessoas que excomungariam tudo que eu devoro. São pessoas que me maltratam pelo simples fato de eu existir. São pessoas desrespeitosas e desconhecedoras de limites. Aliás, o único limite que conhecem é o do cartão de crédito.

Voltei ouvindo pregação do presidente fascista e de pastores estupradores, pois eles não usam fone de ouvidos. Assim são suas ações: invasivas, mas graças a EWA, a dona do Arco–Íris, eu estava imune a esse alimento. É uma gente que fecha a cara quando me vê passar alegre, porque deduzem que não a mereço. E sabem o que eu faço? Mostro a língua e sorrio, pois sou cercada de Erês - já disse uma tia cartomante, e de cara feia eu dou risada.

Estou tão satisfeita que agora vou hibernar para me dedicar a essa digestão fabulosa.

Quanto aos mercadores, seguem insaciáveis.
 

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