Quem acompanha os jogos do Sesi Franca Basquete, seja das arquibancadas do Pedrocão ou mesmo pelas transmissões pelos canais de TV ou redes sociais, já deve ter reparado na presença do assistente técnico Pablo Costa. Braço direito do técnico Helinho Garcia, ele é o responsável por auxiliar o comandante do time bicampeão Paulista e campeão da Liga Sul-Americana na tomada das decisões mais importantes para a equipe.
Com 41 anos, o ex-jogador, que assim como Helinho era armador na época que ainda desempenhava seu papel dentro das quadras, passou a ocupar o cargo de assistente técnico na equipe logo após a frustrante temporada de 2017/2018, quando o time, já com o patrocínio master do Sesi, amargou o vice-campeonato do Paulista, perdendo uma final em casa contra o Paulistano e sendo eliminado em uma “varrida” pelo maior rival dos últimos anos: Bauru, também em casa, naquela edição do NBB.
Como jogador profissional Pablo teve passagens por times como o próprio Franca, sua primeira equipe e onde foi treinado pelo técnico Hélio Rubens, além de Vasco, Flamengo, Fluminense, Tijuca, entre outros. Com várias lesões no joelho - foram sete cirurgias - ele se aposentou com apenas 31 anos. Foi durante a recuperação da sua última lesão que recebeu um convite do então assistente técnico da base do Franca, Paulo César Reis Meindl Von Berger, o Paulão, para auxiliá-lo no juvenil. “O Paulão precisava de alguém para auxiliá-lo no juvenil e me convidou. Como ele viajava muito, eu também era o segundo assistente do Hélio Rubens no adulto, e foi assim que decidi parar de jogar. Fiquei cinco anos como assistente técnico do Hélio no time adulto e do Paulão no juvenil, depois fui assistente do Lula (Ferreira) durante um ano e em 2013 fui para Macaé (RJ)”, conta.
No Macaé, time que comandou junto com o irmão Léo Costa (hoje técnico do Minas Tênis Clube), ficou até o início de 2018, quando foi convidado para retornar a base do Sesi Franca e trabalhar em um departamento específico que ajuda jovens talentos a potencializarem suas habilidades. Ele foi também, enquanto ainda atuava em Macaé, o primeiro assistente brasileiro a atuar em uma pré-temporada em um time na Summer League da NBA. Além disso, foi técnico da Seleção Brasileira Sub 17.
Com este currículo e anos de experiência no basquete, Pablo conversou com a equipe do Comércio e contou um pouco mais sobre sua carreira, seu papel no Sesi Franca Basquete e as expectativas para o futuro da equipe.
Do time que foi vice Paulista em 2017 e eliminado pelo Bauru no NBB - no primeiro ano de parceria com o Sesi - para o time bicampeão Paulista e campeão da Liga Sul-Americana, você foi a única mudança na comissão técnica. Como acha que contribuiu para a evolução do elenco?
Voltei na realidade no início de 2018 para assumir o departamento de desenvolvimento de habilidades dos atletas. Fui convidado pelo Sesi e aceitei. Depois de um tempo, já após a primeira temporada do time com o Sesi, recebi o convite para assumir a função de assistente técnico da equipe principal. É importante reforçar que o título não é momentâneo, ele é um processo. Naquele momento eles buscavam um assistente técnico mais experiente e eu tinha essa experiência depois de ter passagens pela Seleção Brasileira, pelo próprio Franca e ter auxiliado o meu irmão no Macaé. Eu sou da opinião de que cada peça é importante na comissão técnica, assim como no elenco como um todo. A gestão fora da quadra, o profissionalismo do Sesi, amadurecimento da equipe, tudo é parte de um processo que culmina em títulos. Tenho, sim, uma parcela de contribuição, assim como todos da equipe que, juntos, contribuíram para o resultado vitorioso.
Como é a sua relação com o técnico Helinho Garcia?
Antes de aceitar o convite para ser assistente técnico do time, tive uma conversa com ele, para saber a opinião dele sobre eu assumir a função. É um cargo de muita confiança, tivemos uma relação antes, moramos na mesma rua, jogamos na base juntos, depois no profissional, depois fui assistente do pai dele enquanto ele era jogador. Era um momento muito complicado quando recebi o convite, mas “fechamos junto” e nos apegamos ao trabalho. Foi uma parceria que deu muito certo, temos uma confiança muito grande um no outro. Eu trouxe muitas coisas da minha experiência como técnico e unimos forças. Consigo falar tranquilamente que temos, lógico que não a de irmão como é com o Léo, mas na relação de trabalho é igual a que mantinha com meu irmão. O nível de confiança que ele me passa, a credibilidade que ele dá, tudo isso me faz estar sempre motivado. Com certeza ele (Helinho) será um dos melhores técnicos do Brasil, está em pleno desenvolvimento. E participar disso, como participei do desabrochar do meu irmão, é muito gratificante.
Já houve algum momento em que vocês dois discordaram de decisões que deveriam ser tomadas ao longo do jogo?
Claro que sim. Costumo dizer que toda unanimidade é burra e falamos muito sobre isso. Temos discussões, mas o assistente técnico tem que entender que existe uma diferença muito grande entre a sugestão e a decisão. Eu preciso dar para o Helinho o máximo de informações possíveis para que ele junte aquilo com o que ele já tem em mente e tome a decisão. Meu estudo pré jogo é muito grande, levo pra ele as informações mais resumidas e o olhar dele pode ser mais reduzido. É preciso se adaptar ao estilo do treinador, a minha função é ser assistente e entender a visão dele. Acho que esses anos todos, ter passado pelo Hélio (Rubens), pelo Lula (Ferreira), meu irmão (Léo Costa), que me auxiliou a ter maturidade de entender o momento de falar, de discutir, de intervir mais ou menos e até de poupar ele de alguma situação. Ele tem que ter confiança que falamos a mesma língua. Essa lealdade é fundamental.
Como foi conquistar um título em casa, com o Pedrocão lotado e depois de tantos anos premiar a torcida com esse troféu?
Foi demais. Fui campeão brasileiro sendo jogador em 1997. Era reserva, mas ganhamos o título e foi maravilhoso. Depois fomos campeões em 2007 e 2008 quando eu já estava no banco como assistente e agora, depois de tanto tempo, ser campeão em casa, com a torcida comemorando junto, entrando em quadra, não tem como descrever apenas com palavras. Vibramos sempre, pois não é fácil, é preciso comemorar. O trabalho é árduo e temos que viver (comissão técnica e jogadores) muito intensamente esse momento e comemorar a conquista de tudo o que foi feito. Estar ao lado da torcida e premiar ela com o troféu é um complemento impressionante.
Qual a melhor característica e deficiência do time hoje? Onde o time ainda pode evoluir?
Temos uma coletividade muito grande, assim como um elo de confiança uns nos outros muito bom e isto é fundamental para o time conseguir bons resultados, essas são algumas das principais características, além do nosso poder ofensivo que também é muito grande. Eu acredito que a evolução ainda passa pelo desenvolvimento de todos atletas, acreditamos na evolução individual de cada um, trabalhamos para isso e para que esse individual agregue ao coletivo. E, defensivamente, penso que temos muito ainda para crescer, na intensidade, a parte de rebotes que é um ponto fundamental e na temporada passada foi crucial para alguns resultados.
O Sesi Franca chegou a duas finais em casa no quesito títulos nacionais que foram a Super 8 e o NBB. O que faltou pro time vencer o Flamengo nas duas ocasiões?
No caso do Super 8 foram muitas circunstâncias, um jogo único, um período ruim, depois até conseguimos entrar na disputa, mas foram tomadas decisões complicadas no fim do jogo tanto por parte dos nossos jogadores como da arbitragem, então é complicado... Acho que o jogo poderia ter ido para qualquer lado. Já nas finais do NBB acho que faltou o aspecto físico, o plantel do Flamengo era mais numeroso e o time conseguiu uma intensidade maior. Fisicamente nos rebotes fomos judiados e isso aumentou muito o volume de jogo deles, dando margem para errarem mais que a gente, então essa característica foi fundamental. Estamos trabalhando muito nesta temporada para chegar melhor neste quesito, focando sempre no volume de jogo, nos rebotes ofensivos e defensivos.
O Sesi Franca acaba de ser campeão Paulista e jogará tanto o NBB quanto a Champions League das Américas Basquete. Como é preparação dos jogadores para estas competições?
Trabalhamos de forma individualizada todos os jogadores. Existe, obviamente, o aspecto coletivo, os treinos que são bons para o time, lógico, mas individualmente temos a carga de treinos necessárias para cada momento e para cada jogador. Temos o planejamento coletivo, porém cada jogador tem o seu planejamento individual, tanto físico como de treinamento.
Como avalia o crescimento do basquete nacional e as condições dos jogadores brasileiros hoje?
Estamos em evolução. A Liga Nacional teve um crescimento muito grande de profissionalismo e hoje as estruturas e os clubes estão muito mais profissionais, podendo oferecer mais estrutura para os jogadores. Hoje os atletas têm ótimos salários, têm estrutura de treinamentos e viagens muito boas, ao menos na maioria dos clubes que estão na primeira divisão. Acho que falta ainda desenvolver melhor o esporte na base fora de São Paulo, que é o Estado que tem um ótimo campeonato de base. Precisamos cuidar da nossa segunda divisão, que é onde terá espaço para os jogadores de formação.
Quais times considera favoritos hoje para levarem o NBB 2019/2020?
Temos muitos times favoritos. Considero hoje Flamengo franco favorito com o melhor plantel. Depois temos também, com bons investimentos, Corinthians, Sesi Franca, São Paulo e Minas, que são times que chegam forte, com boas contratações. Mogi tem feito um bom início de campeonato, temos o Botafogo, Paulistano... Está difícil até pensar nas equipes favoritas para se classificarem para o Super 8. O campeonato vem com bastante força.
Como enxerga a participação cada dia mais comum de jogadores estrangeiros nos times brasileiros?
Acho que se bem escolhidos, atletas com boas posturas dentro e fora das quadras, com boa qualidade de jogo, têm muito a acrescentar ao basquete brasileiro. Acredito que o que prejudica é quando são feitas más escolhas, jogadores com comportamentos ruins e isto acaba tirando o lugar dos jogadores brasileiros. Hoje, para contratar um jogador estrangeiro, é preciso levar em consideração dois aspectos: o de técnica e o financeiro. O mercado hoje, com crescimento dos times, ficou restrito porque, se antes o jogador cobrava US$ 1,5 mil, hoje cobra US$ 4 mil. É preciso escolher depois de estudar bastante o atleta, saber se ele é bom também fora da quadra... Pode pagar mais caro, mas é um tiro mais acertado.
Alguma chance de novos jogadores serem contratados ao longo do NBB (A entrevista foi realizada antes do Sesi Franca anunciar a contratação do pivô Guilherme Hubner)?
Não foi conversado sobre isso internamente. Foi passado pra gente que essa é a nossa equipe, o desenvolvimento deve ser feito com estas peças. É lógico que se vem alguma situação pontual pra gente é ótimo que isso aconteça. Mas nos foi passado que este é nosso grupo de trabalho, estamos focados nele, no desenvolvimento dos meninos, até pelo trabalho da base feita pelo Sesi. Estamos focados nisto. É lógico que se me perguntasse se queríamos mais um jogador, queríamos, com certeza, mas prezamos pela formação mais do que somente títulos..
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