Se dependesse apenas da medicina, esta entrevista não seria realizada. O personagem já estaria morto. A história de Mateus Santos Serafim, 18, é de arrepiar, de emocionar
Então jogador das equipes de base do Franca Basquete, Mateus sofreu uma queda de bicicleta e ficou entre a vida e a morte. Ele sofreu politraumatismo craniano, perdeu parte da calota do crânio, fraturou cinco vértebras da coluna, perfurou o pulmão, quebrou cinco costelas, ficou com o lado esquerdo do corpo totalmente paralisado, adquiriu diabetes insipidus e infecção generalizada.
Mateus ficou internado por 33 dias, 27 deles em estado de coma. Já fez seis cirurgias, das quais, três no crânio. Tem quatro placas, oito parafusos e quatro pinos na cabeça. Ouviu que não voltaria mais a andar.
Difícil acreditar que o estrago tenha sido causado por uma queda de bicicleta. Tudo aconteceu no dia 16 de janeiro de 2018, uma terça-feira. Mateus tinha 16 anos de idade. Saiu de casa, na região da Santa Cruz, e passou na casa de um amigo, no Jardim Piratininga, para pegar alguns bonés.
Por volta das 14h15, ele montou em sua bicicleta e desceu pela rua Jorge Matoso, que liga a avenida Vereador José Granzoti à rotatória da Alonso y Alonso, diante do antigo posto Modelo. Seu destino era a Igreja Menino Jesus de Praga. Mateus planejava participar de um teatro e de uma reza por intenção dos jovens que iriam para o retiro.
Minutos depois, a viagem foi interrompida pelo grave acidente e as orações tiveram que ser direcionadas a Mateus. “O médico me disse que teria que abrir a cabeça dele urgente, caso contrário, iria explodir. Ele disse que a situação era muito grave e que ele poderia morrer a qualquer momento”, relembra a mãe, Cirlei Gama Santos Serafim.
Mas não dependia apenas da medicina. Mateus contrariou as expectativas e sobreviveu. Mais do que voltar a andar, hoje joga basquete, virou palestrante e está aqui para contar a sua história.
Resultado de exames recentes feitos em seu cérebro equivalem aos de um paciente em estado de coma. Quais lembranças você tem do acidente?
Eu estava descendo pela rua Jorge Matoso no sentido a Alonso y Alonso. No mesmo instante, um carro fazia a rotatória. Eu, um jovem com apenas 16 anos, pensei: vou acelerar a bicicleta para a gente não se chocar lá embaixo. Minha intenção era fazer a rotatória antes do carro e seguir pela Alonso y Alonso. Mas o carro também acelerou e cortou a minha frente. Tentei frear e jogar a bicicleta para o lado, mas não consegui. Bati na proteção metálica do córrego. Com a batida, a bicicleta ficou e eu voei para dentro do córrego. Para não bater a cabeça de frente nas pedras, eu virei e bati forte a parte lateral. Machuquei muito a cabeça e quebrei várias costelas. Na hora em que bati, tudo apagou e perdi a memória.
Você ficou internado quanto tempo?
Fiquei internado durante 33 dias, 27 deles em estado de coma. Neste período, não via, não enxergava e não falava nada.
Qual a primeira imagem veio à sua mente quando você recuperou os sentidos?
Eu fiquei perdido, não sabia onde estava. Quando comecei a abrir os olhos devagarzinho, notei um monte de gente de branco ao meu lado. Eu tinha puxado o tubo da traqueostomia e os enfermeiros e médicos vieram colocar no lugar para eu não ficar sem ar.
Como foram os dias após ter recebido alta?
Foi uma fase muito difícil. Eu fiquei com a parte esquerda do corpo, da cabeça aos pés, totalmente paralisada. No começo, minha mão não abria. Melhorei bastante mas, até hoje, estou em processo de recuperação. Tenho limitações e continuo indo na fisioterapia quatro vezes por semana. Também continuo passando pela psicóloga.
Como você está hoje?
Posso dizer que estou ótimo. Acredito que já tenha recuperado 95% de tudo. Eu tinha convulsões há até pouco tempo. Há três meses não tenho mais convulsão. O médico já disse várias vezes para minha mãe e eu que meu caso surpreendeu a medicina. Em agosto, fiz uma ressonância. O neurocirurgião disse que, se algum médico ver o resultado e não ver a pessoa, vai dizer que é de algum paciente que está em coma.
Onde ainda é preciso avançar?
Eu era canhoto e perdi os movimentos da mão esquerda. Preciso recuperar a coordenação. Usava a mão esquerda para tudo: para arremessar a bola, escovar os dentes, comer e escrever. Eu tive que aprender a usar a mão direita. Uma grande dificuldade foi na escola, mas consegui me adaptar bem após muito esforço e repetição. Eu já tinha este ensinamento no basquete e sabia que precisava da repetição para ser um bom jogador. Como tinha isto em mente, repeti “escrever” várias vezes com a mão direita até ela ficar boa.
Você se tornou palestrante e conta a sua história de superação. O que você fala para o público?
Eu falo sobre o medo, que, muitas vezes, as pessoas têm. Falo sobre superação e sobre a autoestima, que sempre nos leva a dar o próximo passo. Eu perdi muitos medos, superei muitos obstáculos e acredito que o pior ficou para trás.
Como está sua autoestima?
Está ótima. Quando as pessoas tentam me rebaixar, me atingir, elas não conseguem, pois estou bem. Eu mantenho minha personalidade, que é minha essência, e eles perdem a palavra. Não conseguem mais me atingir.
Alguém tentou te menosprezar após o acidente?
Passei por um pouco disto na escola. Os meninos faziam brincadeiras de mau gosto.
Como lidou com esta situação?
Eu brincava também para os meninos ficarem sem reação. Talvez não fosse por maldade, mas uma brincadeira de mau gosto que ficou para trás. Está tudo bem e, se Deus quiser, eu termino o 3º ano do Ensino Médio este ano.
Qual faculdade pretende cursar?
Eu pretendo fazer psicologia.Depois do acidente, sempre estou passando pela psicóloga e foi uma área que me encantou, que despertou dentro de mim.
Com quantos anos começou a jogar no Franca Basquete?
Eu comecei com dez anos. Já estava indo para a equipe sub-17. Fiquei em torno de cinco a seis anos na equipe. Meu sonho era ser jogador de basquete.
O que significou para você ver o sonho ser interrompido por causa do acidente?
Eu costumo dizer que eu estava na inércia, numa velocidade constante. De repente, tudo caiu, se acabou e eu tive que juntar forças de diversos lugares para tentar superar e para me reerguer. Juntei forças da minha família, de amigos, dos meninos que eram do meu time de basquete. Eles me deram muita força e, com isto, consegui me reerguer.
Hoje você já aceita bem o fato de não poder mais ser jogador de basquete?
Aceito tranquilo. Corri risco de morrer por causa do acidente, os médicos chegaram a dizer que eu não iria mais poder andar, já que sofri politraumatismo craniano e tive cinco vértebras da coluna fraturadas. Mas, ainda dentro do hospital, consegui dar três passinhos. Foi pouco, mas eu consegui. O impossível não existe.
Você voltou a jogar basquete?
Sim. Eu tenho brincado no Sesi com alguns colegas e com meu irmão mais novo. Em alto nível, não poderei mais jogar por conta das lesões que sofri na cabeça.
Meu neurocirurgião me disse que não posso mais jogar, pois, se levar alguma pancada na cabeça, é perigoso eu sofrer outro traumatismo craniano novamente. Eu uso prótese na cabeça.
O fato de não poder mais defender o Franca Basquete dentro da quadra traz alguma frustração?
Não, de maneira nenhuma. Só de poder torcer por eles e contribuir com a energia positiva, para mim, já está ótimo. Antes eu me via dentro da quadra com o ginásio lotado torcendo pela gente. No começo, foi difícil entender que eu não poderia mais ser um atleta de alto nível. Hoje a ficha já caiu e entendo que sou um torcedor. Sempre que possível vou ao ginásio incentivar o time.
Na decisão do NBB, contra o Flamengo, você conduziu a bola até o meio da quadra e foi aplaudido por todos os jogadores e torcedores. Como foi aquele momento?
Foi muito emocionante e me deu ainda mais vontade de lutar pela vida. Às vezes, muitas pessoas querem desistir por causa de qualquer coisinha. Não pode ser assim. Eu decidi querer sempre mais e mais. A partir daquele momento em que vi o ginásio inteiro me aplaudindo de pé, foi uma emoção muito grande. Foi quando eu pensei: ‘Mateus, eu preciso de mais, vamos lá Mateus, chegou a hora’.
Qual mensagem você gostaria de passar para as pessoas que estão passando por dificuldades e pensando em desistir?
A primeira coisa que eu diria é para a pessoa erguer a cabeça e ligar a luz que está dentro dela. Não estamos na terra para sermos estrela. Estamos para ser luz. Eu diria para a pessoa acender a luz que está dentro dela e acordar o gigante, que é o coração. O coração precisa bater mais forte. Precisamos procurar mais emoções e sermos mais felizes com nossa família e amigos, dar mais risada, dar mais abraços, pois não sabemos o momento que podemos partir e deixar tudo para trás. Temos que aproveitar o que podemos a cada instante.
Como você se define hoje?
O Mateus, praticamente, já é um homem, uma pessoa feliz, que procura se dedicar mais à família e que deixou um pouco de ser jovem, as festas e as baladinhas. Hoje, prefiro ficar mais próximo da família e praticar o verdadeiro sentido da vida, que é amar o próximo.
O que representa para você poder contar sua história de superação nas palestras?
É algo muito gratificante. Quando eu conto minha história, quando procuro motivar as pessoas e vejo as lágrimas caindo do rosto do público, para mim, aquelas lágrimas representam cada marca de vitória. É como se fosse uma medalha que aquelas pessoas estão colocando dentro si.
O que você tirou de positivo do acidente que mudou para sempre a sua vida?
No basquete, eu me via lá na frente, numa espécie de linha reta, já via meu futuro pronto. Minha vida estava reta. Uma pessoa quando está morrendo, o batimento cardíaco dela fica reto. Precisamos ter altos e baixos na nossa vida. Como minha vida estava reta, chegou a hora de ter alguma coisa para baixo. Isto aconteceu com o acidente. Agora, chegou a hora de me reerguer. O que eu tiro de positivo é a vontade de estudar mais, de estar mais perto da família, ajudar mais, conversar mais e dar mais abraços. Espero que minha história possa ajudar a salvar vidas. No final das minhas palestras, já aconteceu de alguém chegar e me falar: ‘Mateus, eu estava pronto para chegar em casa e me suicidar. Mas, após ouvir sua palestra, não quero mais me suicidar, muito obrigado’. Este é o valor de fazer uma palestra, é levar os ensinamentos para as pessoas.
Quais os seus planos para o futuro?
Eu quero ser um grande palestrante motivacional. Espero pode ajudar aquelas pessoas que estão lá embaixo e, com minha história de superação, reerguê-las e mostrar que tudo é possível. Ajudar a elevar a autoestima das pessoas, ajudar a salvar vidas, equivale à uma cesta de três pontos, equivale a um título. Também pretendo continuar estudando e trabalhando mais e mais.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.