Fala infeliz


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Ao dizer a uma jornalista que se a esquerda radicalizar a resposta pode ser um AI-5, Eduardo Bolsonaro provocou reações de repúdio até do próprio pai

 

O Ato Institucional nº 5, de 1968, editado por Costa e Silva, foi o mais duro da ditadura militar, ao revogar direitos fundamentais do cidadão e delegar ao presidente da República o direito de cassar mandatos de parlamentares, intervir nos municípios e Estados, suspender todas as garantias constitucionais, como o direito ao habeas corpus, e fechar o Congresso. A partir da medida, a repressão recrudesceu. Abria-se ali um período que seria chamado de “anos de chumbo”, pelo que representou de fechamento a todas as liberdades civis e ao número de pessoas presas, torturadas e mortas. Quem tem sessenta anos ou mais se lembrará desse tempo de horrores.

Dessa forma, quando um dos filhos do presidente da República, Eduardo Bolsonaro, diz em entrevista à jornalista Leda Nagle que “se a esquerda radicalizar a esse ponto, vamos precisar dar uma resposta e essa resposta pode ser via um novo AI-5,” o mínimo que se pode pensar é que se trata de ameaça de quem não consegue conviver com os movimentos da vida democrática.

“Esse ponto”, ao qual se referiu o filho do presidente, diz respeito aos protestos e manifestações de rua que estão ocorrendo no Chile há alguns dias e que, segundo o grupo que apoia Bolsonaro, teria influência do Foro de São Paulo, entidade de viés esquerdista, constantemente atacada pelos bolsonaristas.

A fala de Eduardo Bolsonaro causou perplexidade nos meios políticos e mesmo entre a população politizada porque reafirmou algo que ele já havia dito na terça-feira, no plenário da Câmara, ou seja, que a polícia deveria ser acionada caso protestos parecidos aos que ocorrem em Santiago se repetissem no Brasil. Mais do que assustador, o discurso de Eduardo Bolsonaro é repulsivo, porque do ponto de vista da democracia não se concebe mais esse tipo de mentalidade ditatorial. O país mudou. Ele não é mais aquele de 64. Desde março de 1985 é um Estado Democrático de Direito que retornou à normalidade quando um governo civil substituiu a ditadura militar que completava 21 anos.

A Oposição foi ao Conselho de Ética contra a fala de Eduardo Bolsonaro. Rodrigo Maia, presidente da Câmara, manifestou-se indignado. Alcolumbre, no Senado, idem. Os ministros do Supremo, ibidem. Militares mostraram-se preocupados. Até o pai de Eduardo sentiu o peso e a gravidade da tal afirmação - o que soa, no mínimo, inusitado.

“Quem está falando sobre AI-5 está sonhando”, disse ao ser questionado por jornalistas na saída do Alvorada na quinta-feira. “Não existe. AI-5 no passado. Cobrem dele (Eduardo).” Eduardo, horas depois, pediu desculpas.

É difícil saber se o presidente da República pensa realmente assim, pois o torturador Brilhante Ulstra é seu ídolo. Mas sempre é bom lembrar que a Carta Magna de 1988, sobre a qual juraram na posse de seus cargos os eleitos no último pleito, criminaliza cidadãos ou grupos que atentem contra os princípios e fundamentos da Constituição. Seja de esquerda - ou de direita.

 

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