Pastora Mirian Rosa Guerra de Carvalho

'O caminho é Deus, não é a religião'


| Tempo de leitura: 14 min
Eu estou aqui e quero ter saúde e vida. E muita! E não é assim ‘estou com 65 e estou velha.’ Não estou! Hoje eu tenho mais força do que quando eu comecei.”
Eu estou aqui e quero ter saúde e vida. E muita! E não é assim ‘estou com 65 e estou velha.’ Não estou! Hoje eu tenho mais força do que quando eu comecei.”

Natural do bairro Penha em São Paulo, mas morando em Franca há mais de três de décadas, a Pastora Mirian Rosa Guerra de Carvalho é um dos nomes mais reconhecidos da Igreja Quadrangular de Franca. Por causa de dificuldades financeiras da família na infância, concluiu apenas até a 4ª série do ensino fundamental. Deixou a capital aos 16 anos, quando se casou pela primeira vez. Hoje, com 65, é mãe de cinco mulheres, avó de dez netos e ganhou o primeiro bisneto esse ano. “Eu vivo para essas crianças”, diz ela que tem na família um de seus mais fortes valores. Após 30 anos casada e 7 viúva, casou-se novamente com o Pastor Samuel Rodrigues, que veio a falecer em 2013, após um acidente em uma madeireira no Jardim Redentor.

Com o primeiro marido, Paulo Fernandes, fundou a segunda Igreja Quadrangular da cidade. Já fez cursos de teologia, computação e oratória e é superintendente da 2ª região, que abrange 18 locais de culto da religão.

A senhora sempre fez parte da igreja evangélica?
Sempre. Desde neném. Meus pais já eram evangélicos quando que eu nasci. Eles eram da Assembleia de Deus.

E há alguma diferença entre a igreja deles e a Quadrangular?
Não tem diferença. A palavra de Deus, tanto na do Evangelho Quadrangular quanto na Assembleia de Deus é a mesma. São diferentes estatutos, então tem pequenas diferenças de doutrinas, que não são nem doutrinas bíblicas, são do homem. Hoje eu creio que elas nem existam mais.

Quando e como a senhora se tornou pastora?
Eu tinha 36 anos quando comecei. Sempre busquei Deus e comecei a estudar mais. Foram surgindo trabalhos na minha vida do evangelho. E Deus foi trabalhando em mim de uma forma diferente, até receber o chamado para ser pastora. Porque pastor não se escolhe. É Deus quem escolhe. E eu nem imaginava isso na minha vida.

Como foi esse chamado?
O chamado foi na cidade de Varpa em 1985. Foi muito bonito porque eu não estava esperando ser pastora. Eu era só mãe e dona de casa, ia à igreja todos os dias de culto. Surgiu a oportunidade do meu esposo ser Pastor. O Paulo Fernandes. Ele foi convidado para trabalhar em uma denominação da União da Fé e eu fui ajudar ele na obra. Ali foi nascendo o amor de Deus e do ministério no meu coração para ser pastora. Nós ficamos dois anos em Varpa nessa obra e voltamos para Franca em 1987.

E como começou a realizar os cultos e pregações?
Eu estava em casa com as minhas filhas, sem esperar nada e chegou uma pessoa que me fez um convite. Foi uma grande amiga que falou assim “Eu queria que a senhora fosse comigo fazer uma visita a uma pessoa que precisa” e eu fui. Chegou lá e a senhora estava doente. Eu e ela começamos a orar e Deus me deu muitas revelações dentro dessa casa. A partir daquele momento, a própria família fez o convite e perguntou onde podiam ir para eu dar bênção para eles. Eu pensava “Gente, eu não tenho lugar para isso. Só minha casa.” E convidei para ir lá. Eu morava na Vila Nova. Eles perguntaram quando e eu falei para irem toda quinta-feira. E eu pensei “Eu faço uma oração para eles e tudo bem.” Mas ali já tinha nascido o chamado para o pastoreio. Porque eu não sabia, mas Deus trabalha assim. Quando você acorda, já está dentro do ministério.

Como foi essa visita na sua casa?
Foi muito bonita porque elas começaram a vir e na primeira vez eram umas 5 ou 6 pessoas. A sala era muito pequena, só cabia 5 mesmo. Então eu orei para elas e elas se sentiram muito bem e perguntaram se podiam voltar. Elas voltaram em 20 pessoas. O grupo foi aumentando sem eu esperar. E eu pensava aonde eu iria por as pessoas, não cabia na salinha. Então fomos para a copa, mas nem cadeira tinha para sentar. E elas disseram “quinta vamos trazer mais gente.” E eu pensei “Aonde eu vou por esse povo?” Quando eu vi, não podia voltar atrás, porque era Deus na minha vida. Eu tirei a mesa da copa, coloquei no quarto em cima das camas, arrastei geladeira para dentro de quarto e pedi mais cadeiras emprestadas para os vizinhos. Eu fiquei uns 2 meses dentro de casa e não comportou. Na última reunião já estávamos acima de 100 pessoas. Tinha gente enfiada no quarto, no corredor, na janela. Não tinha como comportar mais. Foi aí que meu marido alugou um salão na Rua Pará, próximo a Avenida Brasil. Começamos atender o pessoal lá toda quinta. Mas eu pensei que aquele salão era enorme. Eu falei para ele “Paulo, você não acha que é grande demais?” E ele falava assim: “Deus proverá. Lá em casa já tem mais de cem.” Na primeira quinta-feira foram mais de 200 pessoas. Lotou, ficou pequeno e não tinha banco para sentar.

Como vocês lidaram com a situação?
Não tinha um altar ou púlpito, então eu levei a mesa da minha cozinha para lá. Levei minhas cadeiras, que era meia dúzia. Comecei a pedir para eles levarem de casa. O ponto de ônibus era em frente ao salão. Quando o ônibus parava só descia gente com banquetinha, banquinho, cadeira. Às vezes paravam com caminhonete na frente da igreja cheia de cadeiras em cima. E o povo vinha de ônibus. Terminando a reunião, alguns deixavam de presente para a igreja. Um fiel até aproveitou umas madeiras que tinha em casa e fez um daqueles bancos rústicos. O pastoreio começou aí.

Isso já faz quanto tempo?
Nós vamos completar nesse mês de novembro, dia 28, 32 anos que eu sou pastora dessa igreja. E você vê hoje essa igreja aqui (na Avenida Rio Branco), grande e que cabem mil pessoas. No domingo nós temos que dividir o povo. Vem uns às 9h da manhã e a outra parte vem às 18h porque não comporta tudo de uma vez.
Estamos aqui há 4 anos. Ficamos na Rua Pará por 4 anos também e saímos porque não tinha jeito de manter 500 pessoas lá. Mudamos para a Rua São Paulo, ficamos um ano porque subiu para 600 e o salão era pequeno. Depois fomos para a Avenida Brasil e lá foi o maior número de pessoas. Mas lá foi denunciado por causa do horário, porque era muita gente também. Tiramos as baterias, tiramos os sons. Eram mais de 800 pessoas e a gente tinha que falar gritado. Mas nos denunciaram e deram ordem para fecharmos. Foi quando meu marido conseguiu alugar o antigo Cine Santo Antonio. Eles ainda passavam filmes pornográficos lá.

Quando vocês foram para o Cine Santo Antônio?
Foi por volta de 1996 que mudamos para lá e ficamos até 4 anos atrás. Foi a maior benção de Deus porque tinha tudo, tinha acústica e não tivemos problema. Ficamos pagando aluguel a já comprando esse terreno aqui e construindo. Essa igreja aqui eu ainda não terminei. É muito grande, são dois andares. Mas estamos devagar. Aqui tem sido uma benção, é de Deus e é próprio. Nós já chegamos a pagar 12 mil só de aluguel.

Como superintendente, por quantas igrejas a senhora é responsável hoje?
Franca tem 66 anos de Igreja Quadrangular. A minha foi a quinta igreja da cidade. Cresceu tanto que dividiu em duas regiões. Aqui passou a ser a sede da segunda região e lá tem outro superintendente. Eu tenho 18 igrejas de Franca e região. São 15 aqui, uma em Itirapuã, outra em Patrocínio Paulista e agora uma em São José da Bela Vista.

Quantas pessoas freqüentam a igreja nas duas regiões?
Aqui dá umas mil pessoas dentre membros. Mas tem muitas pessoas que vêm e vão embora com freqüência. Eu não tenho nem noção de quantas. Sei que são muitas. Tem mais de 50 igrejas só dentro de Franca. Da minha região, cada igreja tem de 100 a 400 pessoas. Sempre centenas, nunca dezenas.

Vocês realizam trabalhos sociais?
Nós temos uma equipe de auxiliares que trabalha fora da igreja. Temos o “Casa de Paz”, que é um trabalho dentro na casa de pessoas que não querem vir, mas querem a oração e a palavra de Deus, mesmo que a religião seja outra. Então nós enviamos alguém para pregar a palavra dentro da casa deles por 8 semanas. De segunda a segunda tem essas reuniões nos lares. Quando termina esses dois meses são eles que vêm para a igreja. São cerca de 40 casais líderes que vão às casas aqui em Franca. Agora vamos começar em Patrocínio, Restinga. Eles vão às casas, ajudam. Não falando de religião, mas fazendo orações. Levando a palavra para eles entenderem que o caminho é Deus, não é a religião.
Na área social temos um grupo de evangelistas que saem de madrugada e levam de 200 a 300 marmitas. Eles entram só em lugares onde tem muitas pessoas carentes, usuários de drogas, na rua, famílias onde crianças tremem de fome. No frio que fez esses tempos, fizemos campanha do agasalho. E era um dó quando chegávamos nos lares, as crianças tremendo de frio, de pé no chão. E aí levamos sapatos e cobertas. Pra quem dorme na rua a gente leva coberta, edredom, blusa quente. É um trabalho muito bonito de evangelismo. E também trabalhamos com cestas em casas de desempregados, pessoas que estão com a conta de luz, de água atrasada e vai cortar. A gente também ajuda a eles.

E de onde vem a estrutura financeira desses trabalhos?
Só de nós. Não temos ajuda do governo ou prefeitura. Isso aqui é dos nossos irmãos que amam, que já passaram circunstâncias difíceis na vida e hoje já estão bem. São empresários que freqüentam e tem ofertas e dízimos dos irmãos. Sai tudo daqui. A própria igreja foi construída por eles. Há domingos que fazemos a Santa Ceia e cada membro traz uma cesta básica ou um pacote de arroz, porque não tem como comprar a cesta. Então eles trazem arroz, açúcar, dentro daquilo que eles têm condição. É a união que faz a força. Porque se formos parar para escrever, requerer algo de alguém, ajuda na polícia, na política, a gente não vai ter. Mas a gente consegue com a irmandade da igreja.

Qual a sua função como pastora e quanto tempo se dedica a isso?
Eu estou aqui conversando com você, mas com duas pessoas em mente, que vou visitar. Eu atendo telefone de madrugada, faço oração por telefone. Vou te falar uma coisa. Eu venho na igreja para os cultos as terças, sextas, domingo de manhã e domingo a noite. Agora segunda, quarta, quinta e sábado é totalmente para a obra de Deus. É gente que marca para conversar aqui. Ela faz uma confissão, eu venho, escuto, aconselho, leio a palavra e oro. Eu também visito muito hospital. Todos os hospitais de Franca me vêem lá toda semana. É muita gente que eu faço visita, pelos fieis e família deles. Velórios, por mês, são 3 ou 4 que eu faço culto fúnebre. As vezes não é da igreja, mas é da família de alguém que me liga e pede, porque sentem segurança em mim. Eu sinto tão gratificante. Não há canseira, não há dor, nada que possa me barrar. Porque quando eu vejo a situação eu me esqueço de mim. O dom de Deus é muito forte em minha vida. Então eu largo tudo. Se eu estou com uma dorzinha de cabeça, até passa na hora. É uma missão. Eu vejo que muitos pastores não têm chamado. E eu tenho um chamado de Deus exclusivo na minha vida. Deus me escolheu para isso. E vejo que Ele se agraciou em mim, pela minha vida, minha disposição de fazer a vontade dele. Sou muito alegre, muito feliz. Eu oro demais de madrugada pela minha família e por nossa cidade. Oro pelo desemprego, oro por nossas lideranças. Eu clamo muito a Deus por todos. Porque essa é minha missão: ajudar as pessoas.

O que a senhora faz que atrai tantas pessoas assim?
É a missão de Deus na vida da gente. Porque carisma eu creio que tive desde pequenininha. Mas o que atrai mesmo as pessoas são os dons, o talento, a pregação da palavra. A gente prega e as pessoas choram e falam “Deus falou comigo, eu estava necessitando acordar e despertar.” São muitas pessoas que entram na igreja, pessoas com pensamentos de suicídio, com vários tipos de problema. Pessoas que vêm com AIDS, com ódio, querendo matar outra pessoa, pessoas na droga, com problema familiar, de separação. Entram todos os tipos de pessoas. Jesus veio para salvar o perdido, o cansado, o oprimido. E eu vejo que a pessoa quando está no erro, só fica no pecado quando não tem um apoio. Eu não posso vigiar ninguém, não posso estar atrás deles noite e dia, mas eu posso aconselhar quando fico sabendo de alguma coisa. Oro com a pessoa. Porque é fácil apontar o dedo, é o que todo mundo faz. Aponta e fala “olha, está se prostituindo. Está saindo com fulano. Voltou para as drogas. Roubou.” É fácil fazer isso. Mas você tem que saber o porquê isso está acontecendo. Muitas vezes a pessoa não teve uma estrutura familiar. E as vezes até teve, mas por amizades erradas surgem os problemas. Cônjuge que trai um ao outro. É errado? É. Mas eu quero ver a pessoa fora dessa situação. E eu não excluo ninguém, sabe? Se está errado vamos conversar, ver o que aconteceu. Sempre tem um porque na vida da pessoa. Eu converso, dou minha palavra de fé que não vou contar para ninguém. E aí a pessoa vai mudando.

Que horas a senhora se dedica a si mesma?
Só quando eu chego em casa, meia noite. Deito e vou olhar meu ‘zap’. Eu janto, ando um pouco de pé no chão, tomo banho, fico a vontade e durmo. Mas já levanto com os planos na cabeça. Eu também faço hidroginástica, tenho meus dias de cabelo, de manicure. Dentro de tudo cabem esses momentos. Quem ama a mim é Deus, e mais do que todo mundo aqui da igreja, sou eu, então eu tenho que me cuidar. Tomar minha vitamina C, comer meu ovinho de manhã. E dar exemplo para minhas filhas que me seguem. Ao ver uma mãe forte, elas também querem ser. E isso é o que vale a pena.

A senhora atende muitas pessoas em situações difíceis há muito tempo. Como acha que as pessoas lidam com as frustrações?
Eu acho que as pessoas, hoje, têm mais liberdade de chegar a mim e se abrir. No começo elas se sentiam retraídas, não tinham interesse em saber mais. Eu avalio o povo de hoje mais inteligente, sábio, e que quer saber mais. Eles vêm a mim com situações que não sabem resolver. Muitas pessoas vêm com depressão. E eu digo que a doença do século é a depressão. E é doença, sim. Nós temos profissionais aqui, psicólogos que ajudam, aconselham. Nesses casos a igreja encaminha para os psicólogos. A gente tenta ajudar de todas as formas. E eu vejo que não está como antigamente. A mulher antes sofria calada, morria, padecia e ninguém sabia da vida dela. Hoje eu vejo as pessoas procurando solução.

E como a Sra avalia todo esse tempo, essa história que reuniu tantas pessoas? Até onde isso vai chegar?
Eu avalio minha vida, com as perdas que eu tive, os problemas, que não foi um mar de rosa. Tive 5 meninas muito nova. E olhando para trás, vejo esses 32 anos que foi puro Deus na minha vida. Não foi homem nenhum. Foi Deus que me deu força, sabedoria nesse tempo. Os problemas não terminam, eles continuam de outro jeito. Hoje dou risada dos problemas que eu enfrentava no passado. Eu penso “como eu queria aqueles probleminhas” perto dos que tenho hoje. Mas tudo é uma preparação de Deus. E essa obra não vai parar. Ela vai continuar. Porque eu não perdi a disposição. Continuo disposta a trabalhar e fazer as visitas. Eu sempre penso que a igreja está pequena demais, sempre a visão de águia, eu quero mais para o reino de Deus. Eu estou aqui e quero ter saúde e vida. E muita! E não é assim “estou com 65 e estou velha.” Não estou! Hoje eu tenho mais força do que quando eu comecei. Eu cansava mais do que hoje. Agora eu não tenho marido para cuidar, nem filho pequeno para olhar. Eu sou livre para ir às casas e visitas para fazer orações e ver alegria dos fieis. Essa é minha missão e quero levar sempre em frente até a hora que Deus quiser. Quando ele achar que está bom, então está bom. Mas penso que ele ainda não acha que está bom, não. Acho que ele quer que eu continue sempre em frente.
 

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