Gabriel Felizardo, o Gabeu

'É importante que afirmemos quem somos e o que somos'


| Tempo de leitura: 7 min
Eu sempre soube que eu queria cantar, mas não me imaginava fazendo sertanejo e por muito tempo pensei que me jogaria no pop, justamente por ser um gênero onde o discurso LGBT é mais ‘aceito’.
Eu sempre soube que eu queria cantar, mas não me imaginava fazendo sertanejo e por muito tempo pensei que me jogaria no pop, justamente por ser um gênero onde o discurso LGBT é mais ‘aceito’.

Nos últimos meses o nome de Gabriel Felizardo, artisticamente chamado de Gabeu, se espalhou pelo Brasil. Filho do cantor Solimões, da dupla com Rio Negro, o jovem seguiu os passos do pai e se lançou na carreira de cantor sertanejo.

Homossexual assumido, já esteve nos noticiários antes por causa da aceitação que o pai sempre demonstrou ter do assunto nas redes sociais. Aproveitando o mês das festas juninas e também da visibilidade da comunidade LGBTIQ+, Gabeu lançou seu primeiro hit sertanejo em junho deste ano .

A música Amor Rural, que fala sobre se assumir gay diante da sociedade, com metáforas da vida caipira, teve clipe produzido pelo próprio cantor, e por seu namorado e amigos do curso de cinema, que fez em São Paulo. O videoclipe já tem mais de 870 mil vizualizações no Youtube.

Com o bom humor que também herdou do pai, Gabeu contou um pouco de sua história e como tem sido depois que se lançou no meio sertanejo.

 

Você nasceu e cresceu em Franca. Quais características da cidade são suas favoritas e como é sua relação com Franca hoje em dia?
Nasci e vivi em Franca até os meus 18. Hoje, aos 21, moro em São Paulo. Eu amo a minha cidadezinha, minha “Sapatolândia”. Hoje eu tenho uma relação de muito amor com a cidade em si, até por conta do contraste entre Franca e São Paulo. Por a vida aqui ser bem corrida e caótica, gosto da paz e da tranquilidade de Franca, gosto de voltar e me sentir em casa. Eu estudei no Samaritano e no EETC e frequentava muito as pequenas festas LGBTs que aconteciam muito no Barraco Baco, no Espaço Lumiar, e as festinhas da Unesp. Eu morava bem no Centro da cidade. Então, eu vivia por aquela região, tomando um sorvete no Kaka, comendo um salgado e bebendo um suco no Mineiro. Amo! Hoje, quando eu vou pra Franca, às vezes não sobra muito tempo, então fico mais em casa, com minha família, mas quando vou para ficar mais tempo sempre dou um jeito de dar um ‘rolêzinho’.

Como foi crescer sendo filho de um cantor famoso como o Solimões? Você sentia alguma pressão em seguir a área da música? Como você se descobriu cantor?
Muita gente questiona “como é ser filho de famoso?” e eu, sempre respondo, “normal.” Quando eu nasci o meu pai já era famoso, então eu não sei o que é ter um pai não famoso. Para mim sempre foi algo muito normal. Durante a vida toda eu ouvi pessoas me perguntando se eu também cantava, se eu também seguiria na música, mas nunca lidei com isso como uma pressão, até porque é o que eu sempre quis também. Acho que me sentiria pressionado se eu quisesse fazer algo totalmente diferente. Eu canto desde que me entendo por gente, sempre gostei de inventar músicas, brincar de fazer shows com as roupas do meu pai, escrever músicas, até gravava umas coisas amadoras no meu próprio quarto.

Como uma pessoa homossexual assumida, como você, acha que Franca lida com a comunidade LGBTIQ+?
Como em toda pequena cidade do interior eu acredito que faltam atividades, eventos e coisas mais voltadas para o público LGBTQI+. Quando existem, somos nós mesmos quem estamos nos mobilizando para que os rolês possam acontecer. E é bastante difícil fazer sem apoio. Acho até que acabam funcionando como um movimento de contracultura.

Como foi sua descoberta e como foi assumir isso para você e para sua família?
Não houve um momento em que eu me descobri gay. Foi um processo que começou desde criança, de ir me percebendo diferente do que me era imposto. Aos 16 anos eu me assumi para minha família e com eles foi muito tranquilo. Eu tive mais conflitos internos do que problemas familiares. Era muito mais uma luta comigo mesmo do que com o que estava ao meu redor.

Seu pai já disse em entrevistas que lida tranquilamente com sua orientação sexual. Como você se sente tendo essa relação com ele? Qual a importância do apoio dele pra você?
Eu sou muito privilegiado por ter um pai mais aberto em relação a algumas coisas do que outros pais. Eu nunca tive grandes problemas com ele que envolvessem a minha orientação sexual. Uma vez ou outra temos alguns desencontros de ideias, pelo fato de sermos de gerações diferentes, contextos sociais diferentes, estarmos envolvidos com pessoas diferentes e realidades diferentes, mas conseguimos dialogar. Um ponto muito positivo do meu pai é que ele é muito interessado na minha vida de uma forma genuína, de realmente ter interesse em saber o que se passa, o que eu estou fazendo, o que estou sentindo.

Como surgiu a música “Amor Rural”? Por que escolheu o sertanejo ao invés de outros estilos como o pop, por exemplo, em que o discurso LGBT é mais aceito. A inovação foi proposital ou simplesmente aconteceu?
Eu sempre soube que eu queria cantar, mas não me imaginava fazendo sertanejo e por muito tempo pensei que me jogaria no pop, justamente por ser um gênero onde o discurso LGBT é mais ‘aceito’. Nos últimos anos, tenho visto muitos LGBTs se jogando em diferentes estilos, se permitindo mais e se arriscando mais a estarem em lugares que julgam não ser para nós, como o hip-hop, por exemplo. Então comecei a cogitar essa ideia de ser um cantor de sertanejo assumidamente gay. Amor Rural surgiu de uma brincadeira com meu namorado, que escreveu o refrão. Eu achei genial e compus o restante da música.

Como sua música foi recebida pelo público e pelos cantores sertanejos? A repercussão tem sido mais positiva ou negativa?
A repercussão tem sido ótima. Já faz alguns meses que lancei, mas ainda estou colhendo os frutos desse primeiro trabalho enquanto elaboro os próximos. A comunidade abraçou de uma forma linda a proposta do *pocnejo, termo que nós lemos em algum momento em um comentário na internet e adotamos. Eu achei que teria mais rejeição do que tive da galera do sertanejo tradicional, digamos assim. Mas recebi bastante energia positiva de algumas pessoas, inclusive de fãs do meu pai. Claro, com toda essa parte boa vem também o hate (ódio em inglês), mas a gente procura não dar importância e seguir fazendo nosso trabalho. Ter saúde mental é essencial.

Quem são suas inspirações na música?
Tenho diversos artistas que me inspiram. Dentro do sertanejo eu preciso mencionar Rionegro e Solimões, claro! Como não? E Milionário e José Rico, não apenas pela música, mas esteticamente também, as roupas e acessórios. Lady Gaga sempre foi minha “diva mor”. Sou apaixonado desde o início e as nuances da carreira dela me inspiram demais. Shania Twain, a rainha do country, que está comigo desde que eu nasci, porque meu pai ouvia muito quando eu era criança. Orville Peck, um cantor country gay que está ganhando espaço agora nos Estados Unidos. E dessa cena mais pop independente brasileira, a Banda Uó e o cantor Jaloo são grandes inspirações também.

Quais são os próximos passos? Você pretende se fixar no estilo pocnejo ou quer explorar outros estilos musicais também? Vai ter algum show em Franca?
Estou produzindo coisas novas, ainda não sei quando elas vão chegar, mas eu estou bastante ansioso e empolgado pra mostrar para a galera. Vou me manter no sertanejo, sim. Acho importante firmar esse conceito e deixar claro que eu sou um cantor de sertanejo, mas isso não impede que futuramente eu explore outras coisas. Sobre shows em Franca, ainda não temos datas marcadas, mas estou totalmente aberto e seria incrível me apresentar para o meu povo.

Como você avalia tudo que está acontecendo depois de “Amor Rural” e de ser o fundador do “pocnejo”?
Talvez ainda não tenha caído a minha ficha da quantida de coisas que eu conquistei com uma única música e um único clipe. Eu consegui atingir o público que eu queria, consegui chegar aos artistas que eu sempre admirei e que hoje alguns deles me admiram. Quero cuidar disso tudo e crescer enquanto artista e enquanto pessoa também. Toda essa repercussão me fez ver que muitas pessoas estavam precisando de algo assim. Por mais que Amor Rural seja uma música cheia de duplo sentido, que é pra fazer rir mesmo, que é pra ser engraçada, ela também é séria. O trecho “por quanto tempo mais vamos amar no escuro?” é sério. “Vamos assumir” é sério. É importante que nós afirmemos quem nós somos e o que somos para gerar identificação.


*O termo pocnejo, adotado para definir o estilo de música de Gabeu, é uma mistura do termo poc, como homens homossexuais afeminados são chamados dentro da comunidade LGBTIQ+, com o ritmo sertanejo.
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários