Sanidade psíquica


| Tempo de leitura: 2 min

Foi com perplexidade que os brasileiros que ainda conseguem manter um certo equilíbrio diante dos fatos políticos que diariamente se atropelam, souberam na noite da última quinta-feira que o Brasil quase foi parar no noticiário internacional como uma Macondo surreal, a fictícia cidade latina que o colombiano Garcia Marquez tornou conhecida no mundo. Mas, talvez, nem na Macondo de Marquez seria crível um procurador-geral da República dar um tiro na cabeça de um ministro do Supremo Tribunal Federal e depois se matar com a mesma arma. Pois foi por um triz que isso não aconteceu. Na noite da última quinta-feira, Rodrigo Janot, ele próprio, em entrevista ao jornal Estado de São Paulo, confessou que enquanto procurador-geral, foi armado a uma sessão do STF com a intenção de matar Gilmar Mendes, um dos ministros daquela Corte.

Só para refrescar a memória nestes tempos em que os acontecimentos se sucedem de forma tão avassaladora e tumultuada, vejamos quem são as duas figuras.

Rodrigo Janot ocupou o cargo mais alto do Ministério Público Federal de 2013 a 2017. Transformou-se num dos símbolos da Lava Jato no MPF. Denunciou o então presidente Michel Temer duas vezes, no caso das gravações com Joesley Batista. Pediu investigações contra inúmeros políticos apontados por executivos em delações premiadas. Sob sua responsabilidade correu a Operação Patmos, quando se gravou e depois se flagrou o ex-deputado federal e assessor especial de Temer, Rodrigo Rocha Loures, com uma mala contendo 500 mil reais, dinheiro de propina. Em setembro de 2017, Janot foi substituído por Raquel Dodge, que acaba de passar o bastão a Augusto Aras.

Gilmar Mendes é ministro do STF desde 2002, quando se tornou o terceiro indicado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Até então, exercia o cargo de Advogado-Geral da União. Durante a Operação Lava Jato, entre 2016 e 2018, tornou-se expoente de uma ala do Supremo que passou a ser chamada “garantista” , por defender a presunção de inocência e criticar os métodos radicais da força-tarefa de Curitiba. Pelas mãos de Gilmar foram liberados réus como o ex-governador do Rio Anthony Garotinho, o ex-dirigente da Dersa Paulo Vieira de Souza, o empresário carioca Jacob Barata Filho, o ex-secretário de Saúde do Rio Sérgio Côrtes e o empresário Eike Batista – entre outros. A reação de parte da população a essas decisões foi bastante hostil a Gilmar.

No Brasil polarizado em que vivemos, os dois lados têm defensores. Mas não é a questão de tomar partido que espanta. O que causa apreensão é o fato de que pessoas com desequilíbrio emocional, capazes de ímpetos homicidas, possam ocupar cargos públicos. Tanto quanto alentados currículos, seria razoável exigir de todos os que se habilitam a funções de alcance tão vasto e profundo, um atestado de sanidade psíquica.

email opiniao@comerciodafranca.com.br 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários