Guilherme Batista Silva

'Se agarre no que você é bom, no que é forte'


| Tempo de leitura: 8 min
Já vi e vivenciei situações que você realmente acha que não existem, que as pessoas não podem ser tão cruéis. É o que eu acho que mais fragiliza, porque vai no íntimo da pessoa
Já vi e vivenciei situações que você realmente acha que não existem, que as pessoas não podem ser tão cruéis. É o que eu acho que mais fragiliza, porque vai no íntimo da pessoa

Com apenas oito anos, o jovem Guilherme Batista Silva descobriu que tinha uma doença degenerativa chamada Stargardt, que afeta a visão. Apesar das muitas dificuldades que precisou enfrentar desde a infância, Guilherme se reinventou e encontrou na natação um caminho de sucesso. Hoje, com 24 anos, o francano se transformou em um dos principais nomes da natação paralímpica no país, conquistando diversas medalhas.

Uma pessoa muito positiva foi a irmã mais velha de Guilherme, Danielle Cristina Silva, que sofre da mesma doença e colocou o irmão em uma Casa de Assistência Para Deficientes Visuais, onde Silva passou a ter aulas de música, computação e conheceu pessoas novas. Foi através dessas novas amizades que Guilherme decidiu iniciar na natação, descobrindo um grande talento. Para obter o sucesso, o nadador contou com a ajuda de diversas pessoas, principalmente os técnicos Inaldo Wirz e Paulo Nazar, que ajudaram o francano no início da carreira. “No meu primeiro ano competindo já fui para os jogos abertos e já ganhei medalha em âmbito estadual. De lá para cá fui só profissionalizando, pensando em investir. Foi por acaso (começar a natação), mas como eu gostei, vi uma oportunidade”, contou Guilherme.

As principais conquistas de Silva estão em suas duas participações em Parapan-americanos. Em sua primeira participação no evento, em 2015, na cidade de Toronto, o nadador francano conquistou quatro medalhas (uma de ouro e três de bronze). Neste ano, em Lima, no Peru, o nadador fez sua segunda participação no evento. Chegou como favorito e conquistou novamente quatro medalhas, mas sem nenhum ouro (uma de prata e três de bronze).

Durante a infância, como você encarou a deficiência?
A infância foi a pior época. Eu mesmo não entendia minha deficiência, não sabia porque eu estava perdendo, quanto eu perderia. Eu sempre fui muito tímido, então na escola, quando via a oportunidade, eu até me manipulava. Como sentava só na frente, a lousa era dividida em quatro e eu enxergava só a primeira parte. Então se fosse um texto ou uma matéria mais extensa, eu copiava a primeira parte e as outras eu inventava, escrevia coisas da minha cabeça. Ficava com medo de falar, tinha receio das outras crianças. Preferia criar alguma coisa e me passar como uma criança normal. Até que um dia eu pedi ajuda e a professora disse que detestava quem era dependente. Nesse dia chorei muito. Falei para minha mãe que ela tinha que ir na escola, conversar. Depois que minha mãe explicou o que era essa deficiência, que eu não sabia explicar, a professora falou com os outros professores. Ela era muito respeitada, então facilitou muito. Os outros alunos até estranhavam um pouco. As crianças têm uma malícia, mas, ao mesmo tempo, quando você explica, elas aceitam com muito mais facilidade.

A natação foi como um divisor de águas para você?
Cada metro na água eram quilômetros de aprendizado, de mudanças, porque ali eu comecei a me ver vencedor. Antes, eu me sentia sempre menor que qualquer outro da minha idade, sentia mais dificuldade, que meu futuro seria mais difícil. O esporte mostrou que não iria ser assim, que eu teria minha chance. Então, quando eu competia e voltava com o resultado, com aquilo eu era reconhecido na escola... Nossa, eu ficava amarrado (sic). Por conviver com o esporte, eu conheci muitos lugares e muitas pessoas. A timidez foi ficando cada vez menor. Eu consegui lidar com isso, passei a conversar melhor, me expor... Tanto que lá em Uberlândia eu dou palestras. Aqui em Franca também. Já fiz programa de rádio por uma hora, conversando sobre natação. Então o esporte me mudou muito, nesse aspecto de dependência, de mudança na minha característica.

Como foi ter que ir para Uberlândia pelo esporte? Como ficaram seus pais e como foi tudo?
Eu fiquei muito feliz com o convite, porque em 2012 eu terminei o ensino médio. Aqui em Franca ainda é muito difícil para mim. A piscina é curta, é de 25 metros e a gente compete em uma piscina longa, que é de 50. Então muda muito a estratégia e o tipo de treinamento. Eu vi e sentia a necessidade de mais estrutura. Infelizmente aqui eu não consegui. No começo de 2013 eu entrei na seleção de jovens. Quem coordenava era meu técnico de hoje, o Alexandre Silva, que é lá do Praia (Praia Clube, poliesportivo em Uberlandia/MG). Ele viu esse potencial em mim, muito cru ainda, mas ele viu que eu tinha técnica apurada, que tinha muito a melhorar. Eu tive várias convocações durante o ano e ele viu uma evolução. Aí, no fim de 2013, ele me mostrou o projeto de lá. Então cheguei e mostrei para os meus pais, que ficaram com muito receio. Mostrei para o meu técnico, ele falou que era minha oportunidade e que realmente eu não iria ter aqui, disse que sentia muito por me perder. Então, por um lado, eu fiquei muito feliz de alguém reconhecer meu trabalho, meu potencial, que foi da parte do Alexandre em me convidar pro Praia Clube. Por outro, eu fiquei muito triste de não ter isso aqui em Franca para mim, porque é o básico que eu precisava, uma piscina de longa, um preparador físico e um treinador. Desde que eu entrei, a diretoria está sempre do nosso lado. Isso é muito gratificante, eu fico muito feliz.

Sobre essa falta de infraestrutura na natação francana. Existe pretensão de um dia brigar pela natação em Franca ou desenvolver algum projeto?
Nessas últimas viagens que eu fui, conversei com atletas que tiveram que sair das suas cidades e procurar centros de treinamento. Eu entendo o posicionamento da cidade, que é uma cidade de padrão médio para pequeno, para oferecer a infraestrutura que a natação exige. Por um lado o município sempre me reconheceu, mas como eu disse, não tem como só dar tapinhas nas costas e falar “meus parabéns”. O reconhecimento é muito importante, sem dúvidas, mas não foi fácil ter que sair daqui para procurar. Seria muito melhor se tivesse aqui. Então eu tenho vontade de ter um incentivo daqui, de poder falar mais de Franca, mostrar o quanto o município me incentivou no começo. Eu fui o único do projeto que chegou nesse nível. Eu não vejo outros que conseguiram chegar a esse patamar. É isso que me preocupa. O esporte muda vidas e eu fico triste (por outros atletas não terem a mesma oportunidade). Agradeço ao Praia que me abriu as portas, mas tenho sim vontade de conseguir mais. Não só para mim, mas para deixar um legado, para a criançada ter a mesma oportunidade que tive. Dada todas as dificuldades que um atleta enfrenta e todas que uma pessoa com deficiência enfrenta, ter que ir para longe da sua família, é mais uma. O ideal é que não fosse assim, mas quem sabe no futuro eu converse com alguém que tenha uma boa ideia e pense num projeto.

Agora em Lima, nesse último Parapan-americano, apesar de não conquistar o ouro, como no último, você teve grandes conquistas, como uma prata. Como você analisa seu desempenho nele?
O esporte paralímpico, pela notoriedade que está tomando, fica muito mais forte. Senti isso em Lima, onde já tínhamos um estudo maior de como seria, já que é muito mais fácil estudar nas Américas. No Canadá eu nadei com a marca de 1’14’ e agora em Lima, como estava fazendo a preparação pro mundial, não estava na minha melhor forma. Mas, mesmo assim, nadei dois segundos abaixo do que eu havia nadado no outro pan e peguei prata. Então mesmo quebrando o recorde da competição, eu deixei de ser o campeão. Mas consegui conquistar pelo menos quatro medalhas, igual na última edição, mesmo estando muito mais forte. Então isso me deixou muito feliz e claro que fiz o meu melhor para defender sempre nossa bandeira.

Ano que vem é ano de paralímpicas. Qual sua expectativa para Tóquio?
A expectativa é de medo. Como disse, lá em Londres estava muito forte, o índice ainda não saiu, mas a partir do momento que estou fazendo o meu melhor e meu clube está oferecendo a estrutura que eu preciso para conquistar a vaga e uma medalha lá, tudo vai acontecer naturalmente. Porque o esporte tem isso, antes de acontecer, não tem vencedor. O vencedor se consagra depois. No mundial eu vi que pelo tempo, os caras seriam medalhistas, mas eles não conseguiram classificar na eliminatória de manhã. Ou seja, os favoritos, em muitas provas, não conseguiram ficar entre os oito. Então tem essas particularidades. Agora é descansar essa semana e depois fazer todo planejamento, estudar meus oponentes, para ter uma noção de como vai ser o índice. Aí sim trabalhar forte para as seletivas do ano que vem.

Para finalizar, você tem uma mensagem para as pessoas com deficiência e que busquem uma carreira de sucesso?
A mensagem é meio clichê, mas digo para as pessoas não desistirem, não se deixarem ser subjugadas. O lado bom da minha deficiência é que eu não aparento, já que não uso a bengala, como um deficiente visual total, já que eu tenho ainda a baixa visão e consigo me guiar. Mas eu só ando com pessoas que têm deficiência. Então já vi e vivenciei situações que você realmente acha que não existem, que as pessoas não podem ser tão cruéis. E isso acontece, é o que eu acho que mais fragiliza, porque vai no íntimo da pessoa. Então para essas pessoas que sofrem por coisas desse tipo, que não se deixem subjugar, porque cada pessoa tem uma fraqueza. Cabe a você decidir se escorar na sua fraqueza ou na sua força. Então, se agarre no que você é bom e no que é forte.
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários