A morte de Ághata


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Na última sexta-feira, 20, Ágatha Félix Moreira, de apenas 8 anos, foi baleada por um tiro de fuzil, nas costas, dentro de uma Kombi, em uma região no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. A menina morreu. A bala foi disparada por um policial militar. Segundo a PM, havia uma troca de tiros no local, no momento em que o veículo que transportava Ághata passava. A família da menina, no entanto, diz que não foi isso. Eles garantem que a polícia disparou contra um motociclista que não obedeceu a uma ordem para parar, mas que não houve nenhum tipo de confronto.

“Estavam na Kombi e pararam ali na Birosca [uma localidade no complexo do Alemão, onde a tragédia aconteceu], veio um maluco de moto e a polícia mandou parar. O maluco não parou, foi embora, sem arma nem nada, e a polícia atirou. Não teve tiroteio, o único tiro que teve foi o deles, fatal, foi o que tirou a vida da nossa sobrinha”, disse Elias César, 36, tio da menina.

Segundo dados do aplicativo Fogo Cruzado, 16 meninos foram baleados em toda a região do Grande Rio, este ano. Cinco morreram. Ainda não é possível afirmar qual foi realmente a origem do tiro que matou Ágatha. Fato é que inocentes sendo vítimas de balas perdidas nas favelas tem se tornado comum. Um comum assustador.

Pensar que nós, seres humanos, somos parte da natureza e que há cerca de 250 milhões de anos éramos apenas mais uma entre muitas espécies de animais que habitavam este planeta nos obriga a uma reflexão complexa. Desde o surgimento da nossa espécie, o homo sapiens, fomos nos dividindo em grupos de dominadores e dominados, vivendo sob regras que se distanciaram da ordem da natureza e passaram a ser definidas por critérios que podemos chamar de menos humanos. Apesar de todos os homens e mulheres termos a mesma origem, a mesma natureza, nos dias atuais parecemos estar desconectados dessa relação de convivência.

Por algumas razões na nossa história, muitas vezes mais pessoais que coletivas, grupos conseguiram conquistar mais território e poder. Por isso passaram a se sentir melhores, especiais e capazes de serem regidos por uma ordem alheia ao coletivo. Enquanto isso, na outra ponta, outros grupos foram relegados.

Ainda hoje, quando pensamos na origem da nossa espécie, que somos todos frutos da mesma fonte, perdemos essa irmandade ao imaginar que crianças pobres estão mais sujeitas à violência, enquanto os filhos de famílias que vivem em condomínios fechados, nas regiões mais abastadas, têm uma probabilidade muito menor de serem vítimas de uma bala perdida. A própria existência de uma bala perdida já não faz sentido.

Nós, como sociedade organizada, não podemos abrir mão da reflexão. O problema pode estar distante geograficamente, mas precisa ser observado por que todos somos seres humanos, em tese regidos por uma mesma ordem natural. Entregar tudo ao acaso, à má sorte, é esquecer do mais elementar que nos habita: a nossa própria humanidade.

 

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