Agnaldo de Sousa Barbosa

'Franca perdeu o trem da história'


| Tempo de leitura: 7 min
Não consigo ainda enxergar que o setor de serviços e o comércio sejam o pilar da economia local como era a indústria do calçado”
Não consigo ainda enxergar que o setor de serviços e o comércio sejam o pilar da economia local como era a indústria do calçado”

Com 45 anos - 30 deles vivendo em Franca, cidade para onde veio com os pais, um operário da construção civil e uma costureira - o historiador Agnaldo de Sousa Barbosa é formado em História pela Unesp de Franca, onde também fez mestrado. Também é doutor e pós-doutor em Sociologia pela Unesp com pesquisa na área de desenvolvimento local e regional.

Natural de Frutal (MG) ele, que se considera francano de coração, mudou-se para a cidade em 1989 e foi aqui que formou sua família. É casado e pai de um casal, a menina, que hoje estuda Direito na Unesp de Franca, é uma de suas alunas. Com dedicação exclusiva à Unesp desde 2009, o professor também fez um pós-doutorado curto na Universidade de Coimbra, Portugal, no ano passado. “Costumo dizer que sou historiador de formação e sociólogo de profissão, com graduação e mestrado em história e doutorado e pós-doutorado em sociologia.”

Docente na Unesp no curso de mestrado e doutorado em Serviço Social e na graduação de Direito, além de ser coordenador do mestrado em Planejamento e Análise de Políticas Públicas, Barbosa falou com o Comércio sobre o futuro da economia francana, necessidades de políticas públicas e o prejuízo provocado pelos cortes nas bolsas de mestrados e doutorados.

Franca é uma cidade que ficou conhecida pela força da sua indústria. Hoje, porém, vemos uma mudança nítida na matriz econômica da cidade que desde o início dos anos 2000 tem perdido vagas na indústria, especialmente no setor calçadista, e tem sido tomada pelo comércio e serviços. Como enxerga essa mudança?
É uma mudança positiva, mas devemos ponderar se ela é sustentável no tempo. O que quero dizer com isto? Estes novos estabelecimentos comerciais terão público consumidor que possa garantir que eles vão não apenas se manter, mas se expandir, e também se teremos uma outra atividade que consiga gerar renda para fomentar o comércio? Pois são critérios que poderão comprometer a sustentabilidade deles, por que temos muito próximo a Franca um outro centro de comércio e serviços que é Ribeirão Preto. Lá temos uma economia voltada para a saúde e agronegócio muito forte e ela garante rendas aos serviços e ao comércio. Pensando nestes pontos, Franca tem isto?

Isto significa então que o crescimento de serviços e comércio não deve se sustentar?
Do ponto de vista empírico e prático conseguimos perceber essa não sustentabilidade quando vemos que muitos dos estabelecimentos que foram instalados em Franca uma década atrás acabaram desaparecendo. Como exemplo temos o Carrefour, lojas como a Casas Bahia que tinham mais unidades, Colombo, etc. Então por que isto é muito sazonal? Por que não temos em Franca algo que surgiu para substituir a indústria do calçado e que consiga dar uma sustentação em termos de renda a essas atividades (comércio e serviços). Algumas surgem e permanecem, mas outras não conseguem ter fôlego. Isto é notório observando prédios comerciais no Centro da cidade que na década passada já tiveram algum vigor e hoje estão vazios. Não consigo ainda enxergar que o setor de serviços e o comércio sejam o pilar da economia local, como era a indústria do calçado, pois ainda está muito equilibrado o número de vagas nos três setores citados.

Como explicar o fato de cidades como Ribeirão Preto, localizada a cerca de 100 km de Franca, e São José do Rio Preto, com uma população pouco maior que Franca, se desenvolverem mais nos últimos anos?
Vamos pensar na última década e meia. Neste período o poder público local não conseguiu ser o fomentador de algo que é essencial para a economia no nosso tempo que são as atividades ligadas ao conhecimento. O conhecimento, ao contrário das matérias primas convencionais de antes, seja o couro como era aqui em Franca ou petróleo, por exemplo, é o principal insumo de qualquer atividade. Falamos hoje que vivemos a era da informação e do conhecimento. Se pensarmos em Franca, ao contrário de cidades como Ribeirão Preto, Campinas, São Carlos, Uberlândia (MG), Maringá e Londrina (PR), cidades médias, todas têm em comum uma grande instituição de ensino superior, geralmente pública e que tem ali atividades de pesquisa. Isto vai atrair empresas voltadas para essa nova economia, que inclui tecnologia, logística, biotecnologia, saúde, entre outras. Em Franca você tem o campus da Unesp, que é pequeno. Nas duas últimas décadas se observarmos quase todos os polos urbanos médios do Brasil tiveram a instalação ou de um campus avançado de uma universidade federal ou mesmo de um instituto federal. Ou seja, não temos o que podemos chamar de uma usina dessa principal matéria prima da economia moderna que é o conhecimento.

Franca tem universidades como a Unifran, o Centro Universitário Uni-Facef, a Faculdade de Direito de Franca e a própria Unesp. Elas não são suficientes para atrair crescimento através do conhecimento?
Nós temos sim universidades, mas elas não são unidades que formam conhecimento e sim profissionais. Obviamente as grandes empresas, seja de qualquer área hoje, se aproximarão de locais onde existe produção de conhecimento, e não apenas a formação de profissionais, que é o que Franca oferece. Não é por acaso que tem polo tecnológico em São Carlos, polo de tecnologia da saúde em Ribeirão Preto, em Uberlândia um polo de tecnologia ligada ao agronegócio, em Campina Grande, na Paraíba, um polo de microeletrônica.

Qual o principal motivador da falta de crescimento neste sentido de conhecimento em Franca?
O poder público local nas últimas duas décadas deixou muito a desejar neste sentido. Se Franca se mantiver como agora, atrelada às atividades de transformação, onde o que prevalece é a mão de obra manual e barata, o desenvolvimento continuará não vindo. Em 2008 eu dei uma entrevista e no mesmo dia estava sendo reeleito o prefeito daquela época. Por exemplo, não fez parte da gestão dele, mesmo aquele sendo um momento propício para isso, lutar pela ampliação do campus da Unesp de Franca. Neste meio tempo 12 campus da Unesp ganharam cursos de engenharia e nenhum deles foi aqui. Nesse mesmo tempo também tivemos a instalação de institutos federais em cidades pequenas e em Franca nada. Como se a gestão não visse no conhecimento prioridade. Não dá pra pensar que governar é só asfaltar ruas, tampar buracos e lidar com essas coisas pequenas. Qualquer visão estratégica hoje de gestão pública tem que ter na sua perspectiva o fato de que é preciso adensar a capacidade deste território criar novas atividades econômicas.

É possível reverter este quadro a curto e médio prazo?
Não vejo instalações de universidades públicas ou instituições federais na cidade a curto e médio prazo. Estamos vendo que todas as instituições públicas estão sendo congeladas ou tirado os orçamentos delas, então Franca perdeu o trem da história. Eu posso dizer que nas duas últimas décadas nenhuma gestão de Franca teve como objetivo estratégico o desenvolvimento, por que se tivesse essa teria sido uma prioridade.

Como Franca está hoje em relação às políticas públicas?
Vamos pensar em alguns aspectos das políticas públicas, por exemplo o transporte público. Estamos em uma cidade que tem uma das maiores manchas urbanas do Brasil, uma cidade muito horizontalizada, com distâncias grandes e com um serviço de transporte público que não atende esta peculiaridade. E a cidade cresce periodicamente e dificulta o serviço de transporte, o serviço de água e luz, dificulta o acesso a educação. Algumas políticas públicas têm sido muitas vezes feitas na base do improviso, como se fosse apagando incêndios, ao invés de realizadas com um planejamento a médio e longo prazo. Isso sem falarmos da saúde. Falta um planejamento que possa dar sustentabilidade em termos de efetividade nos atendimentos das demandas e necessidades mínimas da população.

Como o corte de bolsas para mestrados, doutorados e pós-doutorados feitos recentemente podem prejudicar a educação no Brasil?
Isto tem a ver com a minha fala em toda a entrevista. Se não existe um desenvolvimento local sem uma base de conhecimento, pensando em um desenvolvimento mais amplo, em escala nacional, ele simplesmente não existe sem ciência e tecnologia. Todas essas bolsas eram a base do sistema de ciência e tecnologia do Brasil. Obviamente isto terá um impacto muito grande e uma implicação muito forte nas perspectivas de crescimento do país nos próximos anos já em curto e médio prazo, nem estou ponderando a longo prazo. Quando você nos dias de hoje fere de morte o principal canal de financiamento de formação de quadros da ciência e tecnologia do país você está criando uma sangria que pode resultar na ‘morte’ a curto prazo. Como o grupo no poder atualmente enxerga o desenvolvimento? É de dentro pra fora ou de fora pra dentro, apenas com importações e investimentos externos? Sem criar uma base genuinamente nacional? Com o corte de bolsas de pesquisa você corta qualquer possibilidade de desenvolvimento nacional autêntico, autônomo e independente de qualquer outra força para o país.

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