A vida angustia. Angústia pode sufocar e aprisionar o peito, impedir a criatividade se muito intensa. Mas pode ser a companheira, a sinalizar a necessidade de reconfigurações dos sentimentos/pensamentos, percepções/expectativas, dores limitantes/constrangedoras. A angústia também pode ser fiel bússola para o crescimento psíquico e espiritual.
Paredes grafitadas têm cativado meu olhar. Reflexões condensadas em imagens, poesias expressas em frases, palavras-baú. Vi uma em São Paulo.
Grafitar já foi transgressivo. Para alguns grafiteiros, deixar de ser atividade marginal tornou banalizado o que era ato heroico, de denúncia.
Pensar é ato criativo: pode ser penoso: implica em lidar com situações angustiosas, desconhecidas, internas e externas.
Sair do “quadrado familiar” é uma ousadia do espírito para novos horizontes. Angustia suspender a pálpebra sonolenta do familiar para o que contraria crenças estabelecidas que são o esqueleto de um modo de ver/viver.
Pensar cria nova perspectiva; permite novas sensações; faz emergir sentimentos imprevisíveis...
Arregalo olhos para as ruas, para o céu, para o chão, para pessoas com que cruzo nos meus “caminhos da roça” – casa/trabalho; casa/cidade em que moro; cidades que visito. Perscruto abismos e cavernas: mundos e fundos.
Drummond está certo: o mundo não cabe em um só coração. E também: o que os olhos não veem... não sofrem, assim, com dolorosas percepções.
Somos seres limitados, embora abertos; sensíveis, embora impermeáveis; pensantes, embora parcialmente robotizados.
Uma frase grafitada, que tanto gostei, sumiu dentro de mim; conexões se perderam. Ficaram duas palavras - “arrumo”/“arrimo”. Ao meu modo, conectei arrumar e arrimar como constante oscilação - caos/cosmos.
Há que ter arrumação cósmica para amparo, escora, arrimo no caos. Dentro de arrumar mora o rumo. Dentro de arrimar, a sustentação.
Arrimar é coisa do possível. Arrumar, coisa do necessário.
Entre possível e necessário...grafitar a alma... para conter a angústia de existir, aberta e alerta.
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