Tempo nublado


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No cenário de risco de recessão mundial, Paulo Gudes avalia que nossa economia terá de trilhar caminho estruturante e lento antes do reaquecimento

 

As duas maiores economias do mundo, China e Estados Unidos, parecem se aplicar a uma ruptura que prenuncia nuvens escuras no cenário econômico de ambas as nações. E no de outras, pois o mundo se tornou globalizado, com todos os bônus e ônus que isso representa. Surpreendendo seu público, nos últimos dias, Trump voltou atrás na decisão de retaliar imediatamente os chineses no âmbito dos negócios. Fez um recuo tático e anunciou que vai agir só depois das compras de Natal. Sua ousadia parece ter cedido lugar à cautela, tendo em vista as notícias divulgadas no começo da semana, por órgãos ligados à economia, segundo os quais os riscos de uma recessão mundial não são pequenos. A Alemanha, por exemplo, surpreendeu o mundo ao reconhecer que não está crescendo como esperava. Usando linguagem técnica, economistas explicaram que o crescimento está desacelerando em muitas nações porque não aconteceu a demanda prevista no âmbito do segmento consumidor. Há muito estoque de tudo no mundo todo- de carros a brinquedos. Portanto, não poderá haver investimento a não ser quando esses estoques girarem.

No Brasil, aos problemas de base que o governo está enfrentando para reverter uma recessão que lançou ao desemprego milhões de brasileiros, outros aderem sem necessidade, por rudeza e insensibilidade do presidente Jair Bolsonaro. Há dias, diante da provável vitória de um candidato da esquerda na Argentina, ele manifestou de forma ácida suas ojerizas direitistas ao País com quem sempre mantivemos relacionamento comercial, cultural e histórico importante. Essa conduta agressiva não acresce nada ao esforço que se faz para reerguer nossa economia dinamitada. Também não é positiva a reação descabida à Alemanha e à Noruega, países que retiraram seus aportes ao fundo Amazônia e a outros fundos diante das notícias de que cresceu no último ano o desmatamento da floresta Amazônica. Fica mal para nosso País, pois a questão ambiental faz parte da agenda de todo o mundo civilizado e a imagem arranhada acaba pesando nas relações econômicas, num momento em que isso é o de que menos precisamos.

O ministro Paulo Guedes, sempre focado em encontrar caminhos de recuperação da economia, manifestou-se na mídia sobre o anúncio recente de que no segundo trimestre deste ano continuamos no marasmo. A redução para baixo do PIB jogou água fria no ânimo dos que aguardavam algum crescimento. Guedes, objetivo e racional, respondeu que nada vai acontecer num estalar de dedos e que medidas oportunistas nunca dão certo. Completou frisando que nosso crescimento voltará a acontecer de forma estruturante, firme, mas bem lenta. Isso é manter os pés na realidade. Mas o que talvez não lhe tenha ocorrido é que para os milhões de desempregados brasileiros e empresários que já não estão aguentando o alongamento do período recessivo, suas palavras soam desanimadoras. Porque o que mais todos têm é pressa.


*O texto está sendo republicado, pois foi impresso com erros na edição de sábado, 17 de agosto de 2019 

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