Fiz cirurgia de catarata. Nos dois olhos.
No começo, resisti à ideia, resistindo, quem sabe, ao envelhecimento. Depois aceitei e decidi confiar na minha médica. Fiz as mesmas perguntas um trilhão de vezes, convicta de que se eu soubesse tudo sobre aquele assunto, estaria protegida.
A cirurgia foi um sucesso e estou enxergando tão bem que consigo ver todas as rugas do rosto que não existiam para mim. Passei a enxergar o que não via antes.
Compreendi que a luz não chega à retina porque o cristalino vai ficando opaco.
E não é assim na vida?
Essa experiência me trouxe a certeza de que é preciso retirar a névoa que traz a opacidade de uma outra visão.
Enquanto as emoções reprimidas, as saudades não abandonadas, as dores não perdoadas e os sonhos perdidos continuarem vivos e atuantes no nosso espírito, iremos, cada dia mais, perdendo a transparência da estrada por onde caminhamos. Não sabemos que não enxergamos mais. Um véu de ignorância nos envolve e para nos livrarmos dele é preciso muita lucidez. Muitas vezes é necessário um dolorido esvaziamento para que morramos de algum modo. Onde está a luz e por que sou eu mesma que não a deixo passar? Eu acho que tenho que molhar meus olhos de esperança para que, na insegurança das sombras, eu possa me antecipar à claridade!
Não há um procedimento cirúrgico para isso, mas agora sei que ainda tenho muito que caminhar para retirar a névoa dos meus outros olhos e começar a ver o que não via. Ainda que tenha que ver as rugas da alma...
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