Marwan Chahoud

'Se não deixasse a Síria, eu poderia ter morrido'


| Tempo de leitura: 9 min
'A gente fica muito triste por ver os irmãos se matando por causa de religião, de petróleo e política. A situação lá é complicada e confusa. Mesclou tudo'
'A gente fica muito triste por ver os irmãos se matando por causa de religião, de petróleo e política. A situação lá é complicada e confusa. Mesclou tudo'

Marwan Chahoud, hoje com 58 anos, nasceu na cidade de Latakia, que fica no litoral da Síria, onde o pai servia ao Exército. Quando completou um ano, mudou-se com os pais e irmãos para a capital, Damasco.Em 1975, com apenas 15 anos de idade, Marwan e a irmã mais velha, Sabáh, 18, vieram para Franca visitar os avôs, tios e primos que haviam imigrado para a região anos antes para fugirem da guerra e dos constantes sofrimentos a que os povos sírios eram submetidos.O plano inicial era de que os dois irmãos ficassem três meses em Franca e, depois, retornassem para a Síria. Marwan não falava uma palavra em português sequer, mas se encantou por Franca e tomou uma decisão que mudaria sua vida para sempre: o que era apenas passeio, tornou-se definitivo e ele resolveu não retornar para casa e fixar residência de vez em Franca. Acredita que hoje poderia estar morto se tivesse retornado para Damasco.Quarenta e quatro anos se passaram e Marwan nunca mais voltou para a Síria. Se adaptou rapidamente à cidade e se considera um legítimo francano. Casou-se e constituiu família em Franca. É pai de quatro filhos, Tiago, Ana Carolina, Guilherme e Mariana, e avô de três netos, Ana Clara, Mirela e Pedro. Sempre trabalhou no ramo da culinária e comandou restaurantes especializados em pratos típicos da Síria. Há 15 anos, trabalha na Tenda Árabe com o primo Michel.Marwan recebeu o Comércio, contou sua história, falou do amor à primeira vista por Franca, das saudades que sente da Síria e dos planos de, enfim, poder retornar ao País onde nasceu.

Como você veio parar em Franca?
A família da minha mãe já se encontrava aqui na região. Meu avô fugiu da Síria por causa da 1ª Guerra Mundial, veio tentar a sorte no Brasil e foi parar em Cristais Paulista, onde ficou por cinco anos. Quando se estabilizou e começou a fazer a vida, mandou buscar a família. Ele tinha dez filhos e trouxe todo mundo para cá, com exceção de minha mãe. Ela era a mais velha dos irmãos, estava noiva, se casou e ficou na Síria.Em 1973, minha mãe resolveu vir para Franca para rever os pais e os irmãos dela. Ela ficou durante três meses aqui e gostou muito. Minha mãe voltou para a Síria dizendo que ficou maravilhada pela cidade e pelo País.Em 1975, ela mandou minha irmã mais velha, Sabáh, e eu para visitarmos os parentes e conhecer Franca. O combinado era para que nós ficássemos aqui por três meses, mas eu não quis voltar, não. Eu disse: “daqui ninguém me tira mais”.

Por que decidiu ficar?
Morar na Síria era muito difícil. A instabilidade política lá é grande. O País está sempre em guerra. Por outro lado, gostei muito aqui da região e decidi ficar. Depois que conheci aqui, eu falei que não queria voltar mais, não.Um ano depois, para não dividir a família, meus pais, meu irmão e minha irmã caçula também vieram para Franca. Minha irmã mais velha mora na Síria até hoje. De três em três anos, ele vem para o Brasil para passear. No ano passado, ela esteve aqui. A família toda do meu pai ainda mora na Síria.

Como o seu avô descobriu a região de Franca?
Por causa da guerra, do sofrimento e da miséria em nosso País, sempre havia os aventureiros que queriam sair de lá em busca de uma vida melhor. Naquela época, na aldeia de meu avô, alguns amigos dele já tinham vindo para o Brasil e se fixado na região de Franca. Era comum alguém trazer depois um parente ou amigo. Meu avô veio desta maneira.Sempre tinha alguém conhecido aqui que mandava buscar as pessoas lá para tirar os mais próximos do sofrimento. Foi assim que a colônia árabe se concentrou muito em Franca. Quem veio, gostou e foi trazendo mais gente.

O que mais chamou sua atenção em Franca?
Tive a oportunidade de ficar perto da família. Gostei muito do lugar. Aqui nós temos liberdade de expressão, o povo é muito carinhoso e hospitaleiro. A única dificuldade que enfrentei quando cheguei foi para aprender a língua. Não sabia nenhuma palavra de português. Eu falava apenas o inglês. Em cinco ou seis meses, já estava me virando. Nesta época de aprendizado, meus primos me zoavam muito. Eles me ensinavam tudo errado só para me zoarem.

O que você fazia em Franca na época?
Comecei a estudar e a aprender a língua. Estudei no EETC e no Alto Padrão. A gente precisava trabalhar para manter a família e nos sustentar e não foi possível conciliar trabalho com estudo.Em 1978, surgiu uma oportunidade na Estação e montamos um restaurante lá que se chamava Damasco. Depois, tive um bar na avenida Champagnat chamado o Rei da Kafta, que ficava ao lado do Picanha. Agora, trabalho com meu primo na Tenda Árabe há 15 anos. Sempre trabalhei com o ramo da culinária, comida árabe.

Já retornou a Síria alguma vez?
Não. Nunca mais retornei nem para passear. O problema foi que sai da Síria com 15 anos e deveria ter voltado para servir o exército. Como não voltei no período obrigatório, se voltasse depois, eles iriam me pegar e não poderia sair mais.

Você tem vontade de voltar para o seu País?
Tenho. Se Deus quiser, o ano que vem vou para a Síria. Agora, posso entrar lá e voltar sem problema. A Guerra Civil já maneirou 90%.

Como é para um sírio acompanhar de longe a Guerra Civil que provocou milhares de mortes e obrigou mais de cinco milhões de pessoas a se refugiarem?
É uma situação muito lamentável. A gente fica muito triste por ver os irmãos se matando por causa de religião, de petróleo e política. A situação lá é complicada e confusa. Mesclou tudo. A gente não sabe mais quem é quem. Tem o interesse iraniano, o interesse russo, americano e israelense. Infelizmente, os americanos usam muito o fator religioso. Eles incentivam uns contra outros, apoiam grupos que são favoráveis a eles. Misturou tudo e cada um está puxando para o seu lado. Diante desta bagunça, muitos inocentes estão sofrendo e sendo obrigados a fugirem do País.

O povo sírio é muito religioso. Por que eles brigam tanto?
Os sírios são muito religiosos mesmo e não são tão violentos quanto os povos de outras regiões. Só que, infelizmente, sempre tem aqueles grupos mais radicais que ficam brigando. Não era para ficar brigando tanto assim. A religião não incentiva a violência, é pacífica. O problema é que os radicais sempre interpretam diferente.

Você perdeu algum parente ou amigo por causa da guerra civil?
Sabe se algum conhecido foi obrigado a fugir da Síria?Perdi vários amigos que morreram por causa da guerra. Duas sobrinhas fugiram de Damasco e estão morando na Alemanha com os maridos e filhos. Graças a Deus, eles conseguiram escapar da guerra.

Você se considera mais sírio o mais brasileiro?
Me sinto mais brasileiro. Tenho mais tempo no Brasil do que na Síria. Amo este País e não pretendo sair daqui nunca. Minha família está aqui, tenho quatro filhos, três netos e me considero como francano.

O que Franca representa para você?
Considero Franca como minha terra natal. Sou super adaptado à cidade. Cheguei aqui, fui muito bem recebido, não tive nenhuma dificuldade. O povo é muito receptivo e só tenho a agradecer. Minha convivência aqui sempre foi muito tranquila, fiz muitos amigos na cidade. Nunca tive dificuldade.

Seus filhos conhecem a Síria?
Não. Ainda não. No ano que vem, pretendo levar um deles comigo. Três de meus filhos moram aqui em Franca. Um deles mora em São Paulo, onde é oficial da Polícia Militar.

Você disse que sempre trabalhou na área culinária, não é mesmo? Qual é o seu prato predileto?
É o quibe recheado assado na brasa, é muito gostoso. Também gosto muito da sapa de trigo com galinha, que se chama herisse.

O que não pode faltar na mesa de uma família síria?
Não pode faltar quibe, esfilha, coalhada e tabule, que é a salada típica árabe. A comida árabe é muito saudável.

Como é a procura pelos produtos oferecidos pela Tenda Árabe?
Temos um movimento muito bom. A maioria dos nossos clientes é de brasileiros. Também temos clientes de origem italiana, espanhola e portuguesa. É claro, tem os árabes também, mas a maioria mesmo é gente de Franca. Os francanos gostam muito. A comida árabe é muito apreciada aqui na cidade. A receita, os temperos e produtos são diferenciados. Graças a Deus, nossa culinária está muito bem difundida por aqui.

Todos os domingos o cardápio do almoço na sua casa tem comida árabe?
Hoje em dia, não é mais todos os domingos, não, pois enjoa. Mas sempre comemos.

Já conseguiu trocar o quibe pelo churrasco?
Sim. Pelo churrasco e pela feijoada. São comidas que apreciamos muito. Fazemos churrasco quase todos os finais de semana.

Como é a comunidade árabe hoje em Franca?
A comunidade era muito grande. Quando cheguei, em 1975/76, e andava na Praça Barão, parecia que eu estava na Síria. Só tinha árabe no local. O pessoal gostava muito de caminhar pelo Centro, principalmente nas manhãs de domingo.
Com o passar dos anos, as pessoas mais velhas foram morrendo. Agora, tem os descendentes. Não imagino quantas pessoas de origem árabe moram na cidade, mas tem muita gente. De vez em quando, fazemos festas árabes e estamos nos encontrando.

Você já pensou como seria a sua vida na Síria se não estivesse vindo para o Brasil?
Já pensei muito nessa possibilidade sim. Não sei se eu estaria vivo hoje. Antes de sair da Síria, eu já tinha presenciado duas guerras. Com seis anos, vi a guerra de 1967. Quando tinha 13 anos, aconteceu a guerra de 1973.
Acho que ou eu estaria morto por causa das guerras ou sofrendo como o pessoal lá está sofrendo. Vir para Franca, graças a Deus, foi uma decisão acertada. Não me arrependo, não. Tão logo cheguei aqui, já havia decidido ficar. Mesmo se meus pais não quisessem vir para cá, eu ficaria de qualquer jeito. Como dizem por aqui, eu tomei a água da careta.

Você tem saudades da Síria? Qual lembrança é mais forte em sua mente?
Às vezes, tenho do local em que eu nasci. Me lembro dos amigos com quem eu brincava no bairro. Por causa da guerra, a gente se separou e nunca mais ouvi falar deles. Me recordo também dos passeios que fazia com o meu pai pelo interior do País e pelo litoral. Meu pai era militar, sofreu muito na Síria e não queria que a gente sofresse como ele. Tenho saudades da família e dos primos que ficaram por lá

Já está sonhando com a viagem para a Síria?
Estou sonhando, sim. No ano que vem, vou lá rever tudo, se Deus quiser. Estou muito ansioso e não vejo a hora da viagem chegar.

Qual mensagem gostaria de deixar?
Só quero agradecer. Me sinto tão bem no Brasil e aqui em Franca. Me considero brasileiro nato. Sempre fui bem tratado. Sou muito feliz aqui. Foi uma decisão acertada ter vindo para Franca. Graças a Deus, estamos aqui vivos e trabalhando.

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