Se aos 38 em 2019 meu prazo de validade é tido por expirado para o matrimônio à moda recatada e do lar, que parece ser a única opção válida num mundo permeado por intolerâncias, imagine o que não deu o que falar quando a minha avó, aos 25 anos, se casou com o meu avô, filho de imigrantes italianos, quatro anos mais novo do que ela, em 1949? Com muita coragem para enfrentar preconceitos e alimentados pela vontade de ficarem juntos, viveram essa história de amor.
Das histórias que eu escutava enquanto minha avó cozinhava, a que mais gostava era, de longe, a de como eles tinham se conhecido. “Nós nos conhecemos no bonde, num dia em que eu ia para o trabalho. O bonde estava lotado, uma senhora entrou e eu cedi o meu lugar para ela. Seu avô se levantou depois, cedendo o lugar dele para mim. Eu recusei e agradeci. Ele insistiu. Recusei novamente e disse: “Você deveria ter cedido o lugar para a senhora, não para mim.”
Para mim essa foi a frase fatal, e neste momento ele caiu de amores por ela. E não era para menos. Ela era autêntica e corajosa que só. Depois disso, ela teve que enfrentar o pai que não aprovou o namoro e que, depois, se negou a abençoar o casamento. E ela se casou mesmo assim. Quando recebeu o convite de casamento, meu bisavô se indignou, perguntando porque estava sendo convidado se ele a conduziria ao altar. Quanta presunção para um homem que só causou obstáculos. No meu imaginário, eu via a vovó altiva, não imbuída de soberba, mas de toda a dignidade que tinha, ao lhe responder: “Desculpe, mas se o Senhor não concordou com o namoro, nem aprovou o noivado, não tem como meu casamento ser abençoado se o senhor me conduzir ao altar.” E, assim, ela foi conduzida ao altar pelo tio do meu avô, que fez as vezes de pa(i)drinho e os ajudou a realizar o tão almejado matrimônio.
Sempre gostei de histórias de heróis. Se a mitologia - ainda que viva meio esquecida em prol de neomitos políticos nefastos nos tempos confusos em que vivemos - nos ensina tanto da natureza humana, as pessoas reais veiculam os heróis de verdade. Neles, o que há de divindade é o superpoder da coragem de serem autênticos e fiéis a seus sonhos e ideais. Pouco importa se quem vai contra os seus sonhos, boicota seus planos e torce contra é quem nos colocou no mundo, ou um chefe ou um colega de trabalho ou uma falsa amizade. Para existirmos e aqui estarmos foi preciso muita coragem. E, para seguir em frente, também. Eu sigo inspirada na heroína tinhosa que me zelava com o contar de histórias entre temperos e que me curava com cafunés.
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