Marcos Henrique Louzada da Silva, 20, nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, cidade do Espírito Santo, conhecida por ser a terra do cantor Roberto Carlos. Outro filho ilustre da cidade é o cronista Rubem Braga.
Quando a mãe ainda estava grávida, Marcos recebeu da avó o apelido de Didi. Ele sempre foi uma criança alta, esguia e forte. Gostava de jogar futebol de salão e se destacava entre os colegas da mesma idade.
Quando completou dez anos, Didi fez uma escolha que iria mudar sua vida. Trocou a bola pesada pela bola laranja e passou a fazer parte do projeto social da Liga Urbana de Basquete de Cachoeiro de Itapemirim. A ascensão foi rápida. Aos 15 anos, foi convocado para a seleção brasileira de base.
Descoberto por um olheiro durante campeonatos juvenis, recebeu o convite para se mudar para Franca. Tinha de 15 para 16 anos e aceitou a proposta na hora. Na Capital do Basquete, encontrou o lugar ideal para desenvolver seu jogo e aprimorar suas habilidades.
Passou a ser nome constante nas seleções brasileira de jovens e chegou ao time profissional do Franca Basquete na temporada 2017/18. No ano passado foi campeão Sul-Americano pelo Brasil no sub-21 e, depois, chegou à seleção principal. Passou a ser monitorado e a receber cada vez mais visitas de olheiros da NBA, que começaram a colocar seu nome de vez na alça de mira para o Draft de 2019.
Didi fez um grande NBB este ano e chegou até a decisão com o Franca contra o Flamengo. Perdeu o título, mas recebeu dois troféus: destaque jovem e jogador com maior evolução. No dia 20 de junho, 12 dias antes de completar 20 anos, ganhou um presente antecipado de aniversário e foi selecionado no Draft da NBA pelo New Orleans Pelicans.
Para ganhar experiência e aperfeiçoar o inglês, jogará a próxima temporada na Liga Australiana de Basquete e vestirá a camisa do Sidney Kings. Didi passará por um programa chamado NBL Next Stars, no qual jovens ao redor do mundo têm a oportunidade de jogar no campeonato australiano para se desenvolverem.
Didi também foi convocado para defende a seleção brasileira na Copa do Mundo da China, que será disputada de 31 de agosto a 15 de setembro. Antes da apresentação para os treinamentos visando ao mundial, o ala retornou a Franca para se despedir dos amigos e concedeu esta entrevista exclusiva ao Comércio da Franca.
A ficha já caiu um mês após ter sido selecionado no recrutamento da maior liga de basquete do mundo? Como está se sentindo?
Está sendo uma sensação muito boa. Caiu a ficha sim, mas, só depois da Summer League e dos jogos que fiz pelo Pelicans neste torneio de verão. Foi quando me dei conta de que eu estava na NBA. Estou bem contente com isto e queria agradecer à torcida de Franca e ao Sesi Franca por terem me ajudado a chegar na NBA.
Como foi no momento em que teve o nome anunciado para integrar uma equipe da NBA?
Foi um momento único na minha vida. Quando era mais novo, eu sonhava em jogar na NBA, mas era algo distante. Ver agora que este sonho se tornou possível é muito gratificante para mim. Minha mãe estava comigo no dia do Draft e também ficou muito feliz. Vou me lembrar para sempre daquele dia e pretendo contar para a minha família inteira e para os meus filhos, quando eu tiver, como foi essa experiência.
Você chegou em Franca ainda adolescente e teve uma ascensão meteórica, com convocações para a seleção brasileira até chegar na NBA. Qual a importância que o Franca Basquete teve na sua trajetória?
Foi uma importância muito grande. Vim para Franca com 15 anos para jogar nas categorias de base. No primeiro ano, fui feliz e tive a oportunidade de conquistar o Campeonato Paulista. Depois de algum tempo, cheguei à equipe adulta e passei a acompanhar o time. No início, eu não jogava muito. Quando fiz 19 anos, comecei a jogar mais e deu tudo certo. Estou muito feliz com isto. A equipe do Sesi sempre me ajudou em tudo o que eu sempre precisei.
Você teve uma boa atuação nos jogos da Summer League. O desempenho inicial surpreendeu você?
Não fiquei muito surpreendido, não, porque nos treinos eu já estava bem focado e sabia o que queria. A boa atuação que tive em quatro jogos da Summer League, com certeza, foi muito importante para eu mostrar o meu trabalho para os coaches do técnico.
Durante a Summer League você tentou mostrar para a comissão técnica do Pelicans que você poderia ficar no time já nesta temporada ao invés de ser emprestado para ganhar experiência?
Sim, com certeza. Entrei em quadra com este pensamento e dei o meu máximo e tive boas atuações. O fato de sair agora não me deixa decepcionado. Tenho certeza que a equipe do Pelicans está fazendo o melhor para que eu possa desenvolver o meu jogo e voltar mais maduro no futuro para a NBA.
Já se encontrou com alguma estrela da NBA?
Não tive a oportunidade de falar com eles, não, mas, na Summer League, tinha o Chris Paul que estava assistindo ao meu jogo. Vi de perto o LeBron James, o Anthony Davis, o Josh Hart e o Lonzo Ball. Este foi meu contato mais próximo com eles. Não cheguei a falar com nenhuma estrela da NBA ainda.
Qual jogador sonha em conhecer? Com qual estrela da NBA gostaria de tirar uma foto?
Gostaria muito de conhecer o Russell Westbrook. É um jogador que sou muito fã. Este é um dos caras que, com certeza, vou pedir para tirar uma foto.
Já parou para pensar que tem muita gente querendo tirar uma foto com o Didi?
Sim. Fico muito feliz com isto. É sempre muito bom ter este reconhecimento. Estou bem contente com isto e espero poder fazer a alegria do povo.
Você saiu do Espírito Santo ainda jovem, morou em Franca, que é uma cidade de porte médio e, de repente, estava jogando nos Estados Unidos. Como foi este choque de realidade?
Foi uma grande mudança. Quando fui para lá pela primeira vez e fiquei por quase um mês, minha adaptação foi difícil. A cultura é muito diferente. Foi um choque grande. Sair de Franca e ir direito para os Estados Unidos jogar a NBA não tem preço. Estou muito feliz com tudo o que está acontecendo na minha vida.
Está certo que você vai mesmo para o Sidney Kings? Você ficará na Austrália por quanto tempo?
Está tudo certo, sim. O planejamento é ficar um ano na Austrália. Vai ser um ano de várias experiências para mim. Poderei adaptar a um jogo diferente e também pretendo aperfeiçoar o meu inglês para falar com mais fluência. Estou me dedicando nos estudos e o meu inglês está bem melhor do que quando sai daqui.
Dependendo de suas atuações, é possível que você volte antes do prazo para a NBA?
Em princípio, ficou definido que disputarei a temporada toda pelo Sidney, mas, dependendo de como eu for lá, eles podem me trazer antes. Vou fazer de tudo para tentar voltar antes para a NBA.
Seu contrato com o Pelicans é de quanto tempo?
Não tenho contrato com o Pelicans. Meu contrato mesmo é com o Sidney. Assinei com eles por um ano. Meu objetivo é arrebentar na Austrália para ser chamado antes pela NBA ou para completar um ano com grandes atuações e me desenvolver na liga australiana.
Qual a grande diferença que você percebeu entre o basquete praticado no Brasil e o jogado pelas equipes que disputaram a Summer League?
A maior diferença é a velocidade e o físico dos atletas. Nos Estados Unidos, os jogadores são muito individuais. Estas foram as principais diferenças que notei nos meus primeiros contatos com os jogadores de lá.
O que você pode nos contar sobre o seu futuro time? Quais informações você tem do Sidney Kings?
O nível do basquetebol praticado na Austrália é muito forte. O time do Sidney é muito bom, foi três vezes campeão da NBL, que desenvolve o programa chamado NBL Next Stars. Lá tem jogadores como Andrew Bogut, que jogou e foi campeão da NBA pelo Golden State Warriors. Estou bem ansioso para jogar ao lado dele neste ano.
Antes de se apresentar na Austrália, você se juntará à seleção brasileira que vai disputar a Copa do Mundo da China. Como está sua expectativa?
Na quinta-feira embarco para Goiânia e vou me apresentar à seleção para iniciar os treinamentos. Estou muito feliz de estar compondo a equipe mais uma vez. Jogar o primeiro mundial com 20 anos não tem preço e mostra que meu trabalho realizado em Franca foi aprovado. Tenho certeza que vou ajudar o Brasil a chegar bem longe no mundial.
O técnico da seleção terá que fazer três cortes antes de seguir para a disputa da Copa do Mundo. Você está confiante que permanecerá na lista final?
Nem sonho em ficar de fora. Vou fazer de tudo para ir bem nos treinos, vou focar nos treinos e me dedicar muito para permanecer na relação final. Ninguém tem vaga definitiva no time. Vai ser nos treinos que vamos mostrar quem merece permanecer na seleção.
O que você está planejando para o futuro? Quais são os sonhos na mente do jovem Didi?
No momento, passa pela minha cabeça fazer um ótimo campeonato na Austrália para, depois, voltar para a NBA e me firmar lá como um jogador de destaque. Entrar na NBA é difícil, mas o mais difícil e complicado é se firmar lá como jogador.
Antes de você, o Anderson Varejão, que também foi formado pelo basquete de Franca, jogou e foi ídolo na NBA. O basquete de Franca é conhecido nos Estados Unidos?
Com certeza; Franca é a Capital do Basquete. Quando sai um jogador daqui para a NBA ou para Europa, com certeza, eles devem reconhecer a origem e de onde saíram os atletas. Em Franca, há uma história grande e uma tradição de muitos anos que são reconhecidas lá fora.
Você fez questão de retornar a Franca e de treinar com os companheiros do Sesi. Como foi o reencontro com a equipe?
Foi um encontro bom. Cheguei no domingo e na segunda à tarde já treinei com a rapaziada um pouco. Eles me receberam muito bem. Todos estão torcendo por mim. Fico muito feliz com isto. É sempre bom rever meus ex-companheiros de equipe. Deixei muitos amigos na cidade. Sempre que possível, pretendo retornar a Franca para estar com eles e matar as saudades.
Você teve uma queda de rendimento na reta final do NBB e alguns torcedores chegaram a dizer que foi por causa de sua iminente saída para a NBA. A possibilidade de ir jogar nos Estados Unidos teve alguma interferência nas suas atuações?
Não. Em nenhum momento pensei em negociação ou me poupei. Fiz de tudo para ajudar o Franca a conquistar o NBB. Infelizmente, tive uma luxação no cotovelo e não pude voltar para o último jogo da final. Fiquei triste por perder o título e por ter me machucado logo no começo do jogo, mas sempre procurei dar o meu melhor.
A derrota em casa para o Flamengo ainda está engasgada?
Está engasgada, sim. Eu queria muito ser campeão do NBB por Franca antes de sair e ir para a NBA. Não consegui conquistar este título junto com meus ex-companheiros e fiquei frustrado por isto. O time e toda a cidade queriam e mereciam muito ter conquistado o título.
Após brilhar na NBA, o Anderson Varejão decidiu desenvolver um projeto social em Franca como forma de retribuir o apoio recebido na cidade. No futuro, você pensa em fazer algo parecido para o basquete de base de Franca?
Pretendo, sim. É uma coisa que já vinha pensando desde quando eu ainda morava em Franca. Minha ideia é abrir um instituto semelhante ao do Anderson Varejão para ajudar as crianças que querem jogar basquete e que esperam também chegar à NBA. Ainda é uma ideia embrionária. Acredito que dentro de dois a três anos, já tenha algo mais concreto.
O técnico Helinho tem agentes com empresas fora do Brasil e, inclusive, já tentaram colocá-lo nas Espanha. Você acredita que ele tenha perfil para treinar alguma equipe da Europa ou dos Estados Unidos.
Sim, com certeza. Ele está trabalhando firme para isto. Acredito que, para qualquer time que ele for, vai se dar bem como técnico.
Você espera um dia voltar a jogar em Franca e encerrar a carreira no time que o lançou para o basquete?
Penso nesta possibilidade, sim. Espero por este momento um dia, mas tem muita coisa ainda para acontecer. Quando eu estiver mais velho e perto de encerrar a carreira, com certeza, gostaria de poder voltar a jogar por Franca.
O que o Franca significa na sua vida?
Significa tudo. Foi aqui que comecei mesmo a jogar o basquete brasileiro. Foi aqui que aprendi todas as coisas que sei hoje. Franca significa muito na minha vida.
Boa sorte, sucesso ao longo de sua carreira que está apenas se iniciando. Fique à vontade para deixar uma mensagem para os torcedores.
Obrigado pela oportunidade. Gostaria de agradecer à torcida de Franca, ao time do Sesi e à imprensa por me ajudarem e por torcerem por mim. Fui muito bem acolhido em Franca. Todos me fizeram sentir em casa. Isto é sempre importante para um jogador que vem de fora. Obrigados a todos que me ajudaram e que torcem por mim. Espero conquistar muitas coisas ao longo da minha carreira.
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