Não foi falta de dar conselhos. Falei muitas vezes.: - Donizete, meu amigo, larga essa mulher, homem. Ela ainda vai levar você para o buraco.
Mas ele sempre respondia:
Como, Alfredo, me explica, como vou viver sem ela? Desde que conheci Malvina, não tenho mais sossego. Gosto dela.
Conheci Donizete no trabalho. Precisava retificar o motor do carro e procurando daqui e dali, alguém me indicou sua oficina.
Bom dia! O senhor é dono da oficina?
Sou sim, Donizete para lhe servir.
Eu me chamo Alfredo. Preciso de um serviço neste motor. Dá para fazer?
Num instante.
Ficamos amigos.
Donizete tinha separado da esposa fazia tempo. Tinha uma oficina mecânica e morava nos fundos e estava muito bem.
Mas como a sorte às vezes é madrasta, Donizete acabou conhecendo, num dos botecos da vida, a Malvina.
Mulher de seus vinte e seis anos, morena, corpo esbelto, cabelos compridos, brincos dependurados nas orelhas, vestido bem ajustado, gingado no andar, transpirava sensualidade.
Donizete ficou vidrado na moça. Conversa vai, conversa vem, em pouco tempo meu amigo estava totalmente envolvido. Acabou indo morar com a moça. Por esse e outros motivos me afastei do amigo.
Porém, um dia, resolvi passar em sua oficina para tirar um dedo de prosa. Donizete não havia chegado para o trabalho, embora o sol já estivesse alto no céu. De repente ele veio chegando, olhos inchados, vermelhos, semblante contrariado, não precisava observar muito, para saber que estava infeliz.
Mas que cara é essa, amigo? Você andava nas nuvens com Malvina, feliz, cheio de planos, achei que isso iria durar para sempre.
Antes fosse, Alfredo. Você não sabe como tem sido a minha vida.
Mas, o que aconteceu?
No começo ela era a mais carinhosa das mulheres. Não saía de casa e vivemos momentos de grande alegria. Mas outro dia cheguei do trabalho e não encontrei Malvina. Apareceu de manhã cheirando à bebida e com jeito de quem passou a noite na orgia.
E você falou com ela?
Falei, mas ela descaradamente me disse:
Minha vida de mulher honesta acabou. Não nasci para segurar um casamento. Gosto de ser livre e fazer o que bem entendo. Se quiser assim, tudo bem, senão pega sua roupa e vai embora.
Fui embora para Minas Gerais, junto à minha família, e arranjei emprego por lá. Mas não aguentei e voltei. Não consigo, amigo, ficar sem Malvina. Penso até que estou enfeitiçado.
A vida é preciosa, homem. Sai dessa enquanto é tempo.
Mas ele não me ouviu. Na sua loucura, passou a perambular pelas madrugadas no encalço da mulher. Uma noite viu quando Malvina entrou no carro de Carlitos, o dono do Bar do Ponto.
Na malandragem da noite, Donizete conseguiu um revólver emprestado. Bebeu e esperou. Quando Carlitos abriu o bar no dia seguinte, ele chegou de arma em riste, mas ao acionar o gatilho, recebeu antes dois balaços direto no coração, indo cair estatelado no asfalto.
Quando cheguei ao local, nem uma viva alma na rua, apenas o corpo estirado no chão, coberto por um jornal manchado de sangue.
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