Faixas


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Acho admirável a forma como a Coreia do Sul saiu do atraso em que se encontrava no pós-Guerra, quando um acordo fixou linha, chamada Paralelo 38, que a separou da Coreia do Norte. Nos anos 60, o governo decidiu empenhar-se num amplo projeto nacional para reverter a situação. Convocou a reduzida elite pensante do país, chamou os pais coreanos para a conversa, firmou com eles um pacto de responsabilidade, investiu em peso na educação. Decorrido meio século, a Coreia do Sul surpreende o mundo com seu ensino que a coloca no quinto lugar em qualidade, segundo avaliações internacionais. Tem 100% da população alfabetizada e um número impressionante de jovens nas universidades.

Voltei a pensar na história recente desse povo, que saiu da estagnação e hoje se destaca nos rankings de desenvolvimento econômico e social, ao assistir na última semana a uma cerimônia na “Academia de Artes”, ONG onde atuo e oferece a crianças e adolescentes do Jardim Elimar vários cursos. Um deles o Taekwondo – de origem coreana e já no rol dos Jogos Olímpicos. Graças ao esforço do instrutor Valdir Malta, essa arte milenar tem mudado para melhor a vida de meninos e meninas de nossa cidade. Conosco há dez anos, Malta intermediou contato com a Federação Paulista em 2017 e, desde então, a parceria que vamos construindo é gratificante. Foi tal parceria que ensejou a visita à ONG do mestre coreano Jin Yeop Kim e seus colegas Jonas Nascimento, Alex Marques e Donizetti Silva. Eles quiseram conhecer os alunos e participar da cerimônia de troca de faixas.

Quando a criança se inicia no Taekowndo milenar, ela aperta seu dobok com uma faixa branca. Ao evoluir, passa por avaliação que pode lhe permitir o acesso à amarela. Depois, adquiridas novas habilidades, usará a verde. E assim sucessivamente, porque como dizem os orientais “conhecimento que não se amplia, perde-se a cada dia”.

Após o exame e antes das novas faixas, mestre Kim falou às crianças e familiares. Disse que muito além de movimentos bonitos, o Taekwondo incorpora filosofia e maneira de ser e estar no mundo encarando as dificuldades inerentes à vida. Frisou o caráter de defesa aos ataques não apenas físicos de mãos e pés. Mas também a outros tipos de ataques, representados pelas adversidades que surgem a todo momento e com as quais o ser humano deve aprender a lidar desde cedo, com disciplina, autocontrole, respeito e persistência. Aprende quem alça novo estágio sem ignorar o que foi vivido: a velha faixa desatada da cintura e deixada cair para dar lugar à nova, não fica no chão, pois deve ser delicadamente recolhida e guardada, como lembrança do esforço responsável pelo avanço.

A metáfora delicada me trouxe de repente à baila a metamorfose das borboletas, que saídas da crisálida, ganham com novas cores invejável autonomia.

E tudo é energia a sustentar cada etapa. Como na natureza, não há saltos na construção da vida humana, processo que começa na fecundação e segue enquanto o coração bater.

Viver é lutar. E lutar é viver.

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