Edson Arantes
ESPECIAL PARA O COMÉRCIO
O radialista Cléber Rosa sempre gostou de fazer graça. Adorava imitar parentes, professores, amigos e até superiores no Exército. Na escola, deixou aflorar todo o talento ao lançar um jornal de humor. Quase foi expulso pela diretora.
Em janeiro de 2011, ele perdeu o bom humor constante por causa da chuva que teimava em cair em Pouso Alegre, sul de Minas Gerais, onde mora. Sentou-se no sofá de casa, improvisou o controle remoto da parabólica como se fosse um microfone e gravou uma reclamação sobre o temporal.
O vídeo com a reclamação bem humorada bombou nas redes sociais. Especialista em marketing social, ele percebeu que a brincadeira poderia se transformar em negócio sério. Resolveu apostar no entretenimento online e passou a postar reclamações diversas sobre temas do cotidiano. O bordão se tornou famoso: “Alô, moça, bom dia. Eu queria fazer uma reclamação”.
Foi uma aposta certeira. Suas reclamações já tiveram mais de 500 milhões de visualizações. Ao todo, são mais de dois milhões de seguidores nas plataformas digitais. No ano passado, o humorista passou a interpretar o personagem Chico da Tiana, que foi inspirado nos vídeos da campanha ‘O Brasil que Eu Quero’, da Rede Globo. As brincadeiras deram origem ao espetáculo “Nói que é pobre”, que está lotando casas de shows por todo o Brasil. Cléber Rosa faz de 15 a 17 shows por mês e está com a agenda lotada até janeiro.
O Chico da Tiana veio a Franca no final de junho e lotou o Teatro Municipal. Como não poderia deixar de ser, reclamou até dos buracos que tomam conta das ruas da cidade. Só deixou de reclamar quando recebeu o Comércio para contar a sua história. Alô, moça, bom dia. Com vocês, o maior reclamão da internet.
É a primeira vez que o Chico da Tiana dá o ar da graça em Franca?
Prazer estar falando com vocês. Eu não conhecia Franca. É a primeira vez que venho à cidade. Na minha primeira passagem pela região, fizemos só Ribeirão Preto. Depois, também passamos por Batatais, Pitangueiras e Bebedouro. Agora, estamos fazendo shows em Franca e São Joaquim da Barra. Foi uma felicidade enorme me apresentar em um teatro lotado e para uma plateia muito animada.
Você é natural de uma cidade pequena no sul de Minas Gerais, iniciou a carreira no rádio e, de repente, se tornou um fenômeno da internet com milhares de seguidores. Está esgotando ingressos e lotando casas de show por onde passa. A ficha já caiu? Você tem noção do que virou o Chico da Tiana e a Reclamação do Dia?
Estamos viajando muito e ficando bastante cansados. Fazemos de 15 a 17 shows por mês. Viajamos sempre de quinta a domingo. Agora, no mês de julho, estamos viajando de quarta a domingo o mês todo. A cada dia, estamos em um lugar diferente. Felizmente, somos muito bem recebidos pelas pessoas. O carinho é muito gratificante.
Eu sempre falo que este retorno positivo que estamos recebendo é o resultado que a gente espera. Sempre fazemos alguma coisa esperando resultado, mas não imaginava que fosse tão rápido e tão grande assim.
Em dois anos de projeto, já passamos de 500 milhões de visualizações e de dois milhões de seguidores. Temos um público muito fiel. São fãs que não querem apenas dar risada e tirar fotos depois dos shows. Querem abraçar, conversar e contar alguma história de superação. Tenho relatos de pessoas que estavam com depressão e que melhoraram depois que começaram a ver os vídeos. Há também gente que perdeu um ente querido e que, depois de ver os vídeos, voltou a sorrir e criou coragem para sair de casa. Não há preço que pague este tipo de retorno. Como o projeto se chama Reclamação do Dia, eu chamo isso de “inspiração do dia”.
Sempre para e penso: o negócio está grande demais, mas, ao mesmo tempo, temos que trabalhar para manter, o que é mais difícil. Temos que construir na rocha porque a internet coloca você lá em cima muito rápido, mas, se você não estiver estrutura e preparo, vai lá para baixo também muito rápido. Estamos correndo para manter e levar alegria para todo mundo.
Qual é o segredo para se manter em alta na internet?
O segredo é sempre prestar atenção no que as pessoas falam. A gente não encara os nossos fãs apenas como seguidores, mas como amigos. Recebemos conselhos e dicas importantes. Este retorno do público funciona como uma espécie de termômetro.
Fomos moldando o projeto, basicamente, em cima do que o povo gosta. O primeiro personagem, que é a Reclamação do Dia, que sou eu mesmo, o personagem não tem nome, então ficou Cléber Rosa, fui me direcionando com base nos comentários. O pessoal gosta que eu falo errado? Então, vamos falar errado, apesar de ser radialista há muitos anos. O pessoal gostava quando eu falava do universo do pobre, então mantive, tanto é que o nome do show acabou sendo um dos maiores jargões dos vídeos que é o “Nói que é pobre”.
O segredo é você sempre estar olhando e entendendo o que as pessoas querem de você. Sou um prestador de serviço. A pessoa gosta disto? Então, vamos fazer.
Já recebi propostas para fazer muitas coisas que achei melhor não fazer para deixar o projeto do jeito que está. O Plantão do Brasileirão é um exemplo. Quando fizemos o plantão da Copa, foi um estouro, cada vídeo tinha cinco, sete milhões de visualizações e tinha jogo quase todos os dias na Copa.
Recebi a sugestão de fazer o Plantão do Brasileirão, mas achei que não era o momento. Este ano, já estamos fazendo e também está sendo um grande sucesso, não só de visualizações, como também comercial. Fechamos várias parcerias e estamos fazendo sorteios de brindes bacanas.
Como tudo isto começou? De onde vem o Chico da Tiana e qual foi a inspiração para o quadro Reclamação do Dia?
Trabalho com humor há muitos anos. Sempre fiz graça e sempre imitei parentes, professores e conhecidos. Na época do quartel, eu imitava os superiores. Sempre fui o “Zé Graça” da turma. Meu pai também era piadista. Na minha família tem várias pessoas assim.
Oficialmente, comecei em 2001, quando escrevi um jornalzinho de humor na escola. Quase fui expulso, inclusive. Não tinha nada demais, mas não foi bem recebido. Depois, acabou virando sucesso e durou o ano todo, que foi o meu último ano no colegial.
Foi quando descobri esta veia humorística e comecei a escrever. Depois, fui apresentar programas em rádio e escrever em blogs, que hoje são famosos. Hoje as pessoas que veem o blog “Não Salvo”, que tem milhões de visualizações por dia, não imaginam que começou pequenininho, junto com a gente ali.
Como a coisa foi dando certo, as pessoas começaram a cobrar e me incentivar a produzir vídeos para a internet, mas, como estava todo mundo fazendo a mesma coisa, não quis ser apenas mais um. Decidi esperar até eu ter a receita de uma coisa legal, diferente.
Sem querer, apareceu. Não fiz esperando. Fiz uma brincadeira no sofá de casa, reclamando da chuva de janeiro de 2017 e explodiu. Vi que as pessoas gostaram e comecei a fazer outros vídeos com diferentes reclamações. Como eu já trabalhava com mídia social, avaliei os números e entendi que as pessoas haviam gostado mesmo, que aquele era o caminho.
A explosão mesmo aconteceu quando fiz a reclamação sobre o filme 50 Tons de Cinza. O vídeo viralizou e foi para o Brasil inteiro. Foi quando começamos a fazer shows e viajar. Em maio, completamos dois anos na estrada com este show e viajamos bastante.
Na primeira vez que fomos em Ribeirão Preto, fizemos meia casa. Na segunda vez, tivemos que fazer duas sessões lotadas no teatro. O retorno que estamos tendo é sensacional.
Tudo é persistência. Falo isto no palco, não tenho vergonha nenhuma de falar: em Bebedouro, quando fui me apresentar pela primeira vez, tivemos que cancelar a apresentação porque não vendeu ingresso. Na segunda, esgotou tudo. Por isso,digo sempre que é preciso ter persistência. Se desistirmos na primeira porrada, nunca vamos conquistar nossos sonhos.
Temos um histórico de grandes teatros do interior de São Paulo que fomos, como Bauru e Marília, e que nos apresentamos para 50, 60 pessoas. Quando voltamos, um pouco depois, todos os ingressos foram vendidos com antecedência. Hoje, graças a Deus, nos apresentamos para teatros lotados, como foi o caso de Franca, ou temos que fazer duas sessões.
Você perdeu a sua identidade. Como é chamado nas ruas? De Chico da Tiana ou do cara da reclamação?
Brinco que nome eu não tenho mais. A grande maioria das pessoas me chama de Chico. Inclusive, no mês passado, tive alguns dias de folga, o que é raríssimo de acontecer, e fui passear na cidade de Monte Verde, no sul de Minas. Lá tem uma presença muito forte de turistas do interior de São Paulo, onde tenho muitos fãs.
Não consegui andar. As pessoas a todo o momento perguntavam se eu era o Chico, se eu era o cara que fazia o stand up ou se era o cara que fazia a reclamação do dia. Era raro alguém me chamar de Cleber Rosa. Acho isto superlegal, é a prova de que a pessoa acompanha o meu trabalho e que me reconheceu.
É comum as pessoas pedirem para você reclamar ou imitar o Chico?
Não, isto é muito raro. Hoje, 99,9% das pessoas querem tirar foto. Na verdade, 90% querem foto. Tem uma parcela do público que quer vídeo, só que não faço vídeo nem áudio por conta de contrato com televisão. É preciso tomar cuidado, pois não sabemos o fim destes vídeos.
Às vezes, a pessoa dá um fim publicitário e a gente nem está sabendo. Então, não mando vídeo, nem áudio para ninguém, mas foto é um grande prazer. No final dos shows, atendo todo mundo. É a forma de retribuir o carinho que a gente recebe.
O que você planeja para futuro? O Chico da Tiana, que saiu lá do interior de Minas, pode ir parar em alguma grande rede de TV?
Como disse no começo da entrevista, meu foco é manter o trabalho que estou fazendo. Graças a Deus, temos shows marcados até o final do ano. A agenda está lotada até janeiro do ano que vem.
Estamos criando novos quadros e personagens. O Chico da Tiana tem uma presença muito forte na internet e pretendemos usá-lo em novos quadros. Vou ser bem sincero: nunca tive ideia de televisão. Já recebi muitas propostas. Hoje estou na TV Alterosa, que é afiliada do SBT no sul e sudoeste de Minas.
Tive propostas de outras emissoras, mas, hoje, não quero assumir nada que atrapalhe minha agenda, que está muito forte. As propostas estão vindo e estamos avaliando. Caso seja possível conciliar com a agenda, é possível que possamos aparecer em rede nacional logo.
Quantos personagens você tem?
Tenho o Chico da Tiana, a Reclamação do Dia, que sou eu, o Priscilo e o Tangerino, que acho um personagem muito legal. Ele tem um mau humor muito peculiar de dono de bar. Estamos estudando algumas formas de melhor usar ele para falar dos assuntos atuais.
Você se identifica com qual personagem?
Me identifico com todos. Gosto e me divirto demais com eles. O Priscilo é sem graça, fala coisa coisas sem noção e é totalmente inocente. Acho que isto é muito inerente do ser humano.
Às vezes, a gente dá uns fora e conta umas piadas ruins para caramba e acha que está abafando. O Priscilo é assim. Ele acha que é um bom locutor de rádio, emposta a voz. Ele faz o “Priscilo News” e o “Priscilove”, que é o programa de rádio dele.
Me identifico com todos, adoro todos os personagens. Às vezes, o pessoal não entende isto. Quero lançar um personagem novo e as pessoas dizem ‘não’, que só o Chico da Tiana que é bom. Eu digo que há lugar para todos, todos são eu mesmo, não tenho ciúmes de nenhum.
Para quem ainda não teve a oportunidade de assistir ao Chico da Tiana, como é o show?
O show tem cerca de uma hora e quarenta minutos. Começo com o Chico da Tiana, contando os causos de roça, piada de bar. São aquelas histórias que todo mundo tem um parente que conta. O Chico transformou estes causos em uma história que se passa lá na vila da “Cadela Moiada” e se apresenta por cerca de 40 minutos. Depois, eu volto eu faço mais uma hora de stand up falando de toda a vivência do pobre, casamento e de um monte de coisa bacana. É bem surpreendente e sem nenhum palavrão.
A Vila da Cadela Moiada é um local fictício, mas dará vida a um time de futebol com uniforme e tudo...
Sim, é o Cadela Moiada Futebol Clube. Já estamos fazendo a camisa do time, as amostras já estão prontas. Sempre fui apaixonado por futebol, apesar de hoje eu estar muito descrente com o futebol. O esporte perdeu a paixão, virou muito comercial, muito dinheiro envolvido, mas gosto muito.
O Plantão do Chico trouxe este universo do futebol e aquela paixão do brasileiro pelo esporte. O pessoal está entendendo os comentários irônicos e críticos que faço. Estou achando muito bacana. O mais gostoso disto é que eu falo mal do meu time e o pessoal reclama que estou falando mal, mas critico por que está merecendo. Mas não falo qual é (risos). Como a brincadeira deu uma repercussão legal, decidimos criar o time e fazer as camisas da Cadela Moiada, que ficaram muito bonitas.
Qual mensagem você gostaria de deixar para as pessoas que adotaram o Chico da Tiana?
Quero agradecer a oportunidade de ter sido entrevistado. Este papo foi muito legal. É sempre muito gostoso estar contando histórias. Fica o convite para o pessoal conhecer o nosso trabalho. É só procurar o endereço reclamação do dia no Instagram, Facebook ou Youtube. Você vai encontrar humor para toda a família, não tem palavrão, não tem duplo sentido, criança pode assistir, pessoal de idade pode assistir, tanto na internet, quanto o show também. A classificação é livre. Fazemos um show de quase duas horas sem palavrão, é a nossa filosofia que eu trouxe do rádio, foi o que deu certo.
A dica que dou para quem está começando é persistir sempre. Graças a Deus, tive a sorte de ter acontecido tudo muito rápido comigo, não passei pelo barzinho. Hoje, recebo muitas propostas para me apresentar em bares, mas, infelizmente, não posso, porque a agenda não permite mais. Só fazemos teatros, clubes e casas de shows. Temos uma média de público de 400 a 500 por apresentação. Já fizemos público de 1,2 mil pessoas. A palavra é persistência, é correr atrás que uma hora dá certo
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