Em café da manhã com jornalistas estrangeiros nesta sexta-feira, nosso presidente reagiu de forma irritada quando indagado a respeito de dados divulgados pela FAO, órgão das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura. Segundo este, “o combate à fome no Brasil se estagnou, apesar de o País ter saído do chamado Mapa de Fome em 2014.” As pesquisas indicam que 5 milhões de brasileiros ainda têm uma dieta muito aquém da considerada básica, em quantidade e qualidade.
À pergunta sobre desigualdade e combate à pobreza no País, Jair Bolsonaro respondeu que “falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira.” Depois, confrontado com números, voltou atrás, explicando não saber por que “ pequena parte” da população passa fome e por que “outros ainda passam mal.”
É verdade o que ele diz sobre a ausência de figuras esquálidas em áreas urbanas ou rurais. Não temos nada parecido com a Venezuela, onde a população sob o (des) governo de Maduro emagreceu em média 10 quilos no último ano; ou semelhante a muitos países da África, engalfinhados em guerras religiosas ou tribais há décadas. Nosso país é privilegiado por condições especiais que vão do clima à terra, onde até hoje a frase de Caminha não foi desmentida- “nela em se plantando, tudo dá.” Somos grande produtores de grãos e frutas; nossa bacia leiteira é invejável; a pecuária garante exportação de milhões de toneladas de carne. Entretanto, e isso é desconcertante, a subnutrição de crianças é fato atestado de forma bem simples: milhares de estudantes da rede pública, especialmente nas regiões mais pobres do País e nas periferias das metrópoles, buscam com o estudo a merenda que lhes é oferecida e, muitas vezes, constitui sua única refeição. São crianças que não chegam a ficar esqueléticas, porque em seu socorro vão também centenas de ONGs e muitos grupos religiosos, que levam sopas à periferia, marmitex a moradores de rua, cestas básicas para famílias em situação de penúria. Mas aos pequenos podem faltar proteínas, vitaminas e sais minerais que se equilibrem com carboidratos. “Matar a fome” não significa exatamente “alimentar-se bem”.
Há fome de comida atingindo cerca de cinco milhões de brasileiros. E há outras fomes vitimando muito mais gente. Fome de segurança, já que a marginalidade cresceu de forma atordoante. Fome de justiça, porque punição que tarda ou nunca se faz é estimulante para marginais e os que entram na senda do crime. Fome de igualdade de oportunidades, num mundo onde os bem aquinhoados sempre terão os melhores caminhos a percorrer em relação aos pobres, cujo acesso ao caminho do êxito é muito mais complicado. Fome de educação, pois é visível que estamos formando gerações de analfabetos funcionais num mundo onde o conhecimento precisa se expandir velozmente. Fome de empregos: são 13 milhões de chefes de família fora do trabalho há um ano. E fome de interação construtiva na sociedade binária à qual o país foi convertido.
email opiniao@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.