Quando Corrêa Neves formalizou a compra do Comércio da Franca junto a Alfredo Palermo, no dia 1º de março de 1973, ele ainda não tinha filhos. Júnior, o primogênito, nasceria em fevereiro do ano seguinte. Mas o prédio apertado recém adquirido na rua Ouvidor Freire, Centro, seria uma extensão de sua casa. Júnior pisou pela primeira vez no chão do jornal quando tinha de dois para três anos. Apesar do aspecto sombrio do prédio, pouco ventilado e que cheirava graxa, se encantou pelo lugar, sobretudo pela sala do pai, que estava sempre repleta de papéis.
O menino gostou tanto dos corredores, redação e gráfica que deu birra para ir embora. Por causa da teimosia, levou umas palmadas da mãe, Sônia Machiavelli, ao chegar em casa.
Começava ali uma relação intensa de proximidade entre Júnior e o Comércio, que já ultrapassa 40 anos. O menino cresceu, foi estudar fora, mas sempre dava um jeito de visitar os pais no jornal. Quando tinha de 16 para 17 anos, começou a frequentar mais a rotina da redação. Não tinha como buscar outra profissão. O jornalismo corria em sua veia. Herdou o amor pelas palavras do pai, que era jornalista, e da mãe que, embora professora, respira os ares do jornal há 40 anos.
No Comércio, Júnior já fez de tudo um pouco: trabalhou na impressão, distribuição, foi repórter e editor. Não foram raras as vezes em que teve que dormir ou se alimentar na gráfica para poder dar conta do fechamento da edição diária.
Master em Jornalismo pela Universidade de Navarra (Espanha), em parceria com o IICS (Instituto Internacional de Ciências Sociais) de São Paulo (SP), Júnior sucedeu o pai no comando do jornal. Em 2005, assumiu o comando da rádio Difusora. Três anos depois, criou o Portal GCN, hoje um dos 30 maiores sites de notícias do País. Sob sua gestão, em 2011, o Comércio recebeu um dos únicos Prêmios Esso, o maior prêmio de jornalismo do Brasil, já concedidos a um jornal fora das capitais.
Apesar de hoje ser executivo da empresa, o jornalista escreve a Gazetilha, que é publicada todos os domingos no jornal. Também acompanha a produção de matérias e contribui com sugestões de pauta, além de ser comentarista do programa A Hora da Verdade, que vai ao ar diariamente pela rádio Difusora, das 11 às 12h30.
Com a projeção conquistada no jornalismo, era natural que Corrêa Júnior tentasse entrar para a política. Em 2014, disputou as eleições para deputado federal e obteve quase 30 mil votos. Dois anos depois, foi o segundo vereador mais votado em Franca com 6.060 votos. De perfil atuante e combativo, desagrada adversários. Nesta entrevista, Júnior fala sobre os desafios e planos pro jornal, avalia o seu primeiro mandato na Câmara e analisa o cenário político local e nacional.
O Comércio chegou aos 104 anos tendo que tomar medidas drásticas para sobreviver, como reduzir a circulação só para os sábados e domingos. O que você planeja? Vai manter este formato do jornal, pode voltar à circulação diária ou será extinto?
São muitas questões envolvidas nesta pergunta e nenhuma tem uma resposta simples. Temos um desafio mundial, que são todas as mudanças que afetam negócios de mídia em todos os países do mundo. Todos passam por estas transformações, que é o digital, a queda do hábito de leitura impressa e mudança no comportamento dos leitores.
Outro fator é a crise econômica brasileira, que vem de uma forma mais intensa desde 2013 e que, mesmo com a eleição do Bolsonaro, não dá sinais de diminuir. Estes dois fatores fazem com que as decisões que afetam o nosso negócio estejam sempre em análise. Não conseguimos dar uma solução definitiva para o problema ignorando estes dois fatores. É preciso sair da crise econômica brasileira e ver a perspectiva que os países todos estão desenvolvendo com seus negócios de comunicação.
No caso do Comércio, estamos avaliando permanentemente as opções. Este é um exercício cotidiano. Todos os dias, a gente tenta ganhar eficiência, cortar custos e resistir. Muitas outras cidades desistiram, grupos de mídia abandonaram a operação impressa, mas o Comércio permanece firme, completou 104 anos de história. É uma das empresas mais antigas do Brasil e que segue com novo formato de circulação. Acho que não cabe mais jornal impresso diário, não tenho planos de retomar a circulação diária. Venho defendendo isto desde 2014. No formato de sábado e domingo, com alguns eventuais ajustes, vejo viabilidade para o negócio, vejo o jornal sendo relevante para os leitores e atraindo anunciantes. Temos que aprimorar esta fórmula.
Você avalia acabar o jornal impresso também nos finais de semana?
Não. É uma situação que precisa, permanentemente, ser avaliada, mas, hoje em dia, o Comércio da Franca, em número de páginas, ainda é o grande referencial de noticiário. Temos uma produção de conteúdo muito grande com grande contingente de assinantes. Tivemos um cancelamento inicial de assinantes que foi mais abrupto, mas que foi estancado. As pessoas se adaptam, gostam deste jornal no final de semana e querem mais. Vejo o jornal de sábado e domingo com força, relevância, com bom jornalismo, sendo discutido e com matérias que fazem diferença para a vida da comunidade.
Você planeja implantar novidades nas edições de sábado e domingo, como ampliar a cobertura do esporte, principalmente, da Francana e do basquete?
Este é um ponto fundamental. Aumentar a cobertura do esporte é uma das nossas prioridades. O momento é diferente na cidade. Passamos alguns anos com o basquete sem ganhar nada relevante e com a Francana apenas cumprindo tabela. O basquete voltou a ganhar títulos e a despertar paixão. A Francana faz um bom campeonato, atrai público. Por outro lado, também temos o futebol feminino e outros esportes que despertam interesse. Tudo isto faz com que haja demanda e necessidade de uma cobertura esportiva maior.
O jornal sempre se destacou pela cobertura política. Esta característica será mantida mesmo com as transformações que o jornalismo impresso tem passado?
A cobertura política é instantânea. O nosso portal acompanha o noticiário quente do dia-a-dia. A rádio Difusora também faz isto com muita competência, com espaço para análise e repercussão. No jornal, precisamos ampliar a análise e discutir como os fatos impactam a vida das pessoas, especialmente, porque a gente vive este momento de fake news, de mentiradas e de boataria, que afetam todo o universo político mundial. No ano que vem, teremos eleição municipal. Acredito que a disputa será muito hostil e agressiva. Temos que estar bem preparados para fazer uma boa cobertura.
A marca Comércio da Franca é muito forte. Você já pensou na possibilidade de transformar o portal GCN em Comércio da Franca? Assim você teria o formato digital todos os dias e o jornal impresso nos finais de semana, mas todos com o nome Comércio da Franca.
Algumas pessoas sugeriram isto, mas não vejo necessidade. O GCN é um sucesso per si, tem vida própria. Ele nasceu como filhote do Comércio, mas é uma empresa independente e que funciona muito bem. Não podemos misturar as coisas. O grande portal da Globo não é o Globo.com, é o G1. Há o Globo Play e inúmeros derivados da matriz que é a Globo. Muita gente não percebe, mas o Uol é da Folha de S. Paulo. O GCN tem uma identidade própria, uma produção de conteúdo que vai além. Não é um mero reprodutor do conteúdo do impresso do final de semana. Não vejo esta fusão com o Comércio, não.
Você citou as transformações pelas quais os meios de comunicação passam no mundo e a crise econômica nacional para justificar a redução na circulação do Comércio. O fato de você ter entrado na política e se tornado vidraça também não atrapalha o jornal?
A minha condição política só deu transparência e luz a um movimento que já existia e que ficou mais escancarado. Todo veículo de comunicação que tem uma posição hegemônica ou muito longa numa comunidade qualquer, é alvo de críticas e combates. É só pensarmos no que falam em nível nacional da Globo, da Veja, da Época, Estadão e da Folha. Todo veículo de comunicação é combatido e duramente atacado. Com o Comércio da Franca não é diferente. Todo mundo que já foi alvo de alguma matéria nossa associada a algo que não é bacana, quando tem a oportunidade, reage. A diferença é que fomos alvo de um movimento organizado nos últimos tempos com uma tentativa de boicote ao Comércio da Franca. É uma tentativa muito baixa para nos impactar, mas temos a força, o prestígio e a tradição do jornal. Não quer dizer que somos inatingíveis. A gente resiste e luta, mas é óbvio que alguns movimentos nos atingiram. Mas isto é secundário. O grande problema mesmo é conjuntural. Várias redações imensas do País, que tinham correspondentes em todas as capitais, não existem mais. Antes, haviam grande equipes para fazer uma cobertura. Hoje, qualquer um com o celular consegue produzir conteúdo e disponibilizar em qualquer lugar. Estamos vivendo um outro momento e temos que nos adaptar.
Quem é o dono do Comércio da Franca? Sidnei Rocha, Gilson de Souza ou outro investidor?
Isto é muito engraçado. Não importa qual seja o governo, sempre há esta tentativa de nos vincular. Já enfrentamos isso com o Gilmar Dominici, com o Sidnei, com o Geraldo Alckmin e, agora, com o Gilson. Estes comentários fazem parte do imaginário daqueles que gostam de teorias conspiratórias e servem de instrumento, de arma, para aqueles que querem nos atingir fazendo esta vinculação. As associações mentirosas são feitas de maneira muito canalha, de forma baixa e leviana, mas acabam encontrando respaldo em determinados segmentos do Ministério Público, que acolhem denúncias anônimas se elas forem voltadas contra a gente. Mas, se elas forem voltadas contra outras pessoas, não há o mesmo empenho nas investigações. Isto vamos discutir nas instâncias de controle do Ministério Público. O Comércio da Franca nunca foi do Sidnei Rocha, nunca foi do Gilmar nem do Gilson de Souza. Pertence à nossa família.
Quando você se torna alvo de ataques não se arrepende de ter entrado na política?
Não me arrependo. É um grande aprendizado e uma grande oportunidade de fazer coisas relevantes. Lamento que o nível do debate seja este. Lamento que meus detratores e opositores sejam covardes, que não tenham coragem de assinar embaixo do que fazem. Gostaria que o debate fosse franco, aberto. Na minha vida inteira, sempre assinei embaixo do que falei e respondi pela consequência daquilo que defendi. O que não dá para admitir é a acusação falsa e, ainda por cima, anônima. Há poucos dias, foi divulgado que a Prefeitura gastou R$ 1 milhão em emissora de TV durante quatro meses. Não vi ninguém fazendo denúncia anônima ou falando que o diretor da TV levou vantagem indevida. Agora, se vem R$ 8 mil para o Comércio da Franca, vira procedimento de investigação como se fosse um crime. O problema não é quanto a Prefeitura gasta, é onde. O que não querem, é que haja anúncios no Comércio da Franca.
Por que o Comércio da Franca incomoda tanto?
Porque ele tem 104 anos de história, tem tradição de independência, nunca se curvou, nem vai se curvar. Isto, obviamente, incomoda uma elite da cidade que gosta de ter controle sobre tudo. Esta elite gosta de decidir quem pode ou não fazer determinadas coisas e quem governa. Nunca compactuei com isto. As pessoas não toleram isso. Por debaixo daquela cara de santo que alguns ostentam, fazendo parecer que são os paladinos da transparência, você tem um grupelho que, na verdade, quer fazer o contrário, agir como uma máfia controlando os destinos de Franca. Como a gente diz “não” a isto, eles se revoltam e usam os meios mais baixos possíveis para nos atacar.
Como sua mãe, mulher e filhos convivem com as falsas afirmações de que você fraudou o projeto da São José ou que estava negociando a venda das faculdades com grupos chineses?
É muito difícil manter a serenidade e a calma diante desta máquina de destruir reputações que foi criada em Franca e muitas cidades do Brasil. O sujeito ouve alguma coisa, grava um áudio, distribui em grupos de Whats App e sai todo mundo replicando sem checar se é algo verdadeiro. Tenho uma filha que mora em São Paulo. Meu filho mora comigo e com minha mulher. Minha mãe também mora aqui. Todos são muito afetados, além da própria equipe que está comigo. As pessoas que trabalham comigo me conhecem de perto e sabem que jamais eu me envolveria em qualquer coisa escusa. Este é o grande mal adicional que as pessoas que perpetram este tipo de comentário produz, porque gera um clima muito difícil de você lidar. Não tem como você desmentir para cada uma das pessoas. O grande problema não é o núcleo mais próximo, mas as pessoas que se relacionam com este núcleo, como os colegas de escola do meu filho. Tudo é muito desagradável e difícil de se lidar.
Você já chegou a pensar em dar porrada na cara de alguém?
Muitas vezes, muitas vezes. Mas é quando temos que buscar equilíbrio para não ceder à esta tentação. O que fazem é muito canalha, tem que ter muito estômago. Na Câmara, já aconteceu de um colega chegar, perguntar sobre determinado projeto e dizer que tenho razão, que o projeto é bom, mas que votará contra por causa do partido e que não falará nada. Logo depois, ele vai na tribuna e desqualifica o projeto e todo mundo que está envolvido nele. Há esta hipocrisia generalizada, tem o sujeito que planta boato e você tem que conviver com ele. Infelizmente, o mau caratismo atinge uma parcela da população e os políticos não estão imunes. Eu procuro olhar nas boas pessoas que estão na Câmara e na Prefeitura. Tenho grandes colegas vereadores. Olho para os bons e deixo os maus, pois eles vão encontrar o seu próprio destino.
O Comércio sempre foi contundente e fez denúncias que afetaram interesses diversos. A postura combativa do jornal explica o fato de você ter se tornado alvo?
Claro, é exatamente isto. Por exemplo, falando com você que é meu entrevistador agora. Cada piada ou crítica que fez em sua coluna política nos últimos anos, é uma pedra que se volta contra mim hoje. Um vereador, repetidamente, fala na tribuna que eu o critiquei no jornal, por isto, me ataca agora. As pessoas não sabem separar uma coisa da outra e reagem de maneira inconsequente. A diferença é que a crítica oriunda do jornalismo profissional tem base, fundamento, apuração e dá o direito ao acusado de se explicar. O boato, não. O sujeito fala qualquer coisa sobre qualquer pessoa e sai distribuindo nas redes sociais. É complicadíssimo desqualificar isto.
E, mesmo assim, você não se arrepende de ter entrado para a política?
Não. Só lamento não ter tido maior consciência do tamanho do desafio que eu iria enfrentar. Talvez teria tomado uma precaução ou outra a mais. Há muito pouca discussão aberta de projeto e há muita intriga e espaço para puxação de tapete um do outro. Eu gostaria de discutir mais projetos.
O vereador Corrêa Neves Júnior tem uma relação muito próxima com o prefeito Gilson de Souza ao ponto de ser chamado de líder informal do governo. Não foi um erro ter dado tanto apoio ao prefeito?
Nunca deixei de conversar com quem quer que seja. Este é um dos problemas que temos no Brasil hoje. Política é a arte de sentar à mesa e encontrar uma alternativa. Isto tem que ser feito com quem pensa diferente e não com quem pensa igual.
O que algumas pessoas reconhecem em mim é algum tipo de competência política, de conhecimento de um assunto ou outro e, por isto, sou chamado para dar minha opinião. Me sentei com todo mundo que quis conversar.
Com o Alexandre Ferreira, não...
Ele nunca demonstrou interesse, mas tive a altivez de votar a favor da aprovação das contas dele, mesmo havendo uma pressão de antigos aliados dele para que eu votasse contra. Não faço política com o estômago, não faço política com o fígado. Não é pelo fato de eu ter inúmeras críticas ao Alexandre Ferreira, que vou votar contra as contas dele quando havia uma recomendação técnica do TCE pela aprovação. Seria me rebaixar ao nível destes que conspiram. O que lamento é que o Gilson não tenha aproveitado melhor toda a rede de apoio que se formou em torno dele no início do mandato. O Gilson não me cumprimentou na posse e passou os três primeiros meses do governo sem falar comigo. Defendi o voto no Sidnei Rocha, defendi com convicção e não me arrependo. Só que eleito, o que não podemos fazer é esta oposição sistemática que vota contra tudo porque o cara é de outro partido. O Gilson apresentou, sim, bons projetos que tinham que ser defendidos. Jamais fiz um endosso das atividades pura e simples do Gilson. O que fiz foi separar.
Qual nota você dá para o governo Gilson de Souza?
6,5. Uma das funções básicas de quem governa é convencer as pessoas de que você está fazendo certo. Não basta fazer certo. O Gilson falha, miseravelmente, em convencer as pessoas sobre o que ele está fazendo. Ele inverte prioridades que são relevantes para a sociedade e compra brigas desnecessárias. Ele fez uma ciranda muito intensa de secretários que traduz uma sensação de que falta liderança. Por outro lado, herdou problemas graves e teve o mérito de resolver, como foi o caso do pagamento das férias dos servidores. Só que ele não consegue explicar isto. O governo fez um corte de 40% no número de comissionados, mas que, na cabeça das pessoas, parece que ele criou vagas de comissionados. O Gilson tem dificuldade em explicar. Há uma percepção do governo muito pior do que o governo é. Boas coisas foram feitas.
Você dividiria a mesa com Adermis Marini e com o Marco Garcia para tomar um café ou chope?
Não, não, não sentaria. Conversaria, institucionalmente, com eles se houvesse a necessidade de discutir algum projeto de interesse da cidade. Me sento com qualquer um. Me sentei com Alexandre Ferreira no auge das nossas diferenças, ele prefeito e eu jornalista, porque havia um apelo para buscarmos uma solução para o basquete na época. Chope e café a gente toma com quem temos um laço mínimo de afinidade. O Adermis e o Marco adotaram uma postura de hostilidade contra mim permanente, a ponto de o Marco colaborar para a difusão daquela ideia falsa de venda das faculdades para um grupo chinês porque ele disse que”ouviu dizer” sem jamais falar onde ou de quem. Depois, o Ministério Público apura e não se comprova nada disto. Pouco interessa o resultado final das investigações, pois o desgaste já foi feito. Repetiram agora com esta coisa patética da ressalva que fiz no parecer do transporte coletivo. Tentaram dar a impressão de que eu tivesse alterado alguma coisa no projeto, o que é mentira, mas o desgaste já está feito de novo. Então, não vejo espaço para tomar café, nem para tomar chope, mas, para uma conversa institucional, a qualquer tempo.
Se a companhia for o promotor Paulo Borges, rola o café?
Também não vejo razão nenhuma para tomar café com o Paulo Borges, mas me sento à mesa com ele para discutir qualquer problema na hora que ele quiser. O café é uma cortesia para amigos ou pessoas próximas. O Paulo Borges, no episódio agora do parecer, poderia ter me chamado para explicar o que era a ressalva, mas não. Lamento que, ato contínuo a uma denúncia anônima infundada, ele tenha ido fazer diligência e recolher documentos na Câmara sem autorização judicial. A ação me expôs, fazendo parecer que havia alguma coisa errada, mesmo depois que o presidente da Câmara, Donizete da Farmácia, do primeiro secretário, Pastor Palamoni, e da procuradora, Maria Fernanda, terem dito que estava tudo certo. É este tipo de coisa que incomoda.
Como você avalia o trabalho da delegada Graciela e de Roberto Engler como deputados?
Muito tímido o trabalho de ambos. A Graciela tem sido melhor de marketing, mesmo porque chega com uma equipe renovada, mas há limitações muito grandes. Parte desta timidez nem se deve à responsabilidade deles. Deputado estadual pode muito pouco. Ele é um despachante dos assuntos do governo do Estado. Vejo com preocupação que a gente não consiga romper o ciclo das vaidades e falo para os três envolvidos: Doutora Graciela, Roberto Engler e Gilson de Souza. Não vi um encontro deles ainda. É preciso deixar a vaidade de lado. Juntos, eles poderiam mais.
Como avalia o governo Jair Bolsonaro?
É prematuro fazer uma avaliação. O Bolsonaro tem uma agenda econômica bonita, mas ele não implementa. O discurso de ódio é muito ruim e precisa ser banido. Ele é o presidente da República e precisa entender que, na família dele, as coisas podem ser de determinada maneira, mas, a vida dos outros, cada um vive como quiser desde que não incomode as pessoas. É preciso respeitar as diferenças. Acho também que ele faz um jogo de cena com os países comunistas, que é muito seletivo. Ele se irrita com Cuba e com a Venezuela, mas não se irrita com a China e com a Coréia do Norte. A China é um grande parceiro comercial. Atrás do discurso ideológico, há uma questão econômica. Acho que os filhos do Bolsonaro são um desastre absoluto. Por mais que eles tenham sido eleitos, não devem ficar se metendo e desestabilizando o governo.
Você tentará a reeleição para vereador no ano que vem, disputará a Prefeitura ou ficará fora das eleições?
Esta é mais uma grande diferença que tenho em relação a meus opositores, especialmente, estes que fizeram da vida me infernizar. Eu, realmente, não vivo de política e acho que a política tem o seu tempo. Uma das desgraças que temos no Brasil é o ciclo eleitoral permanente, ou seja, o sujeito acaba de ser eleito para um cargo e já está pensando nas próximas eleições. Ele decide, não de olho se o projeto é bom ou ruim, mas de acordo com a galera para quem está jogando em busca do voto que ele quer para o próximo ciclo eleitoral. Eu disse que não iria disputar a eleição para deputado, não acreditaram e eu não disputei. E repito agora: não sei se disputo a eleição e, se disputar, para que cargo vai ser. Só vamos decidir isto no ano que vem.
Qual o seu principal foco hoje?
Temos imensos desafios para superar no jornal. A gente vem fazendo um processo de equalização de dívida e venda de ativos. Temos uma questão tributária que enfrentamos... Fizemos várias ofertas de pagamento para o governo federal, que ainda não disse se aceita. Reduzimos o quadro de pessoal significativamente e estamos lutando para pagar todo mundo. De 2015 até agora, foram 201 demissões. Deste total, 168 receberam tudo o que era devido, um valor superior a R$ 2,5 milhões. Ou seja, 83% dos funcionários que demitimos, já pagamos. Restam 33 funcionários que têm parcelamentos em curso e que vamos honrar. Dos assinantes que cancelaram, menos de 5% do total, 76% já receberam o reembolso devido. Agora, na política, como na vida, tudo pode acontecer. Infelizmente, os políticos se apequenam muito quando agem motivados apenas pelo ciclo eleitoral, unicamente em função de como vão aparecer na foto e, não, de acordo com o que é certo ou errado. Não é o meu caso. No momento certo, defino se disputo ou não algum mandato.
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