JORNALISMO

104 anos de grandes coberturas


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Em 2007, as imagens de uma mãe resgatando o filho num poço da cidade ganham o Prêmio Esso de fotografia
Em 2007, as imagens de uma mãe resgatando o filho num poço da cidade ganham o Prêmio Esso de fotografia
Contar histórias. Retratar acontecimentos. Bons, ruins, trágicos e alegres. Ao longo dos últimos 104 anos o Comércio da Franca esteve presente nos momentos mais importantes de Franca, região e até do Brasil. Com a missão de sempre, proporcionar aos leitores a melhor cobertura dos fatos, as páginas do jornal estamparam casos como a inauguração do prédio da Santa Casa de Misericórdia de Franca, do primeiro estádio da Francana e do Franca Basquete; o funcionamento da Estação Mogiana; a Revolução de 32, as duas Guerras Mundiais; o golpe militar de 1964, a eleição e morte de Tancredo Neves, os impeachments de Fernando Collor e Dilma Rousseff, a prisão do ex-presidente Luíz Inácio Lula da Silva e a eleição de Jair Bolsonaro. 
 
Mais de um século e 23 mil edições retratando a história do povo francano e sendo um instrumento de luta. A partir de agora e nos próximos parágrafos os leitores poderão acompanhar um pouco mais sobre as grandes coberturas de um dos mais antigos jornais em atividade no Brasil.
 
Desde sua primeira edição o jornal - então O Commercio da Franca - trazia em suas páginas a luta do povo francano em busca do progresso. Em dez décadas a cidade já teve como carro chefe da economia o café até se transformar na Capital Nacional do Calçado, passando a ter como forte a venda de sapatos e couro. Todos os momentos acompanhados e registrados de perto pelas equipes que passaram pelo periódico ao longo dos anos.
 
O calendário apontava o ano de 1922 quando edições especiais retrataram a inauguração do novo prédio da Santa Casa de Franca e também a inauguração do majestoso estádio de Franca. Anos depois, em 2007, quando a Santa Casa completava 110 anos de fundação, o Comércio traria em suas páginas a realidade de dívidas e problemas enfrentados pelo hospital que em alguns momentos chegou a cortar o atendimento. No início de 1928, o Comércio também esteve presente na fundação da Escola Normal Livre de Franca, que também já foi conhecida como IEETC (Instituto Estadual de Educação “Torquato Caleiro”), hoje Escola Estadual “Torquato Caleiro”.
 
No Mundo, o jornal acompanhou e noticiou aos seus leitores os principais passos das duas guerras mundiais. No Brasil os leitores da cidade sempre acompanharam notícias sobre política: a Revolução de 32, o Golpe Militar de 1964, o Diretas Já, com a eleição indireta de Tancredo Neves até a sua morte e a chegada de José Sarney ao poder. O impeachment de Fernando Collor e as eleições de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva também estiveram em matérias publicadas pelo centenário, assim como a chegada de Dilma Rousseff ao comando do País - primeira mulher a ocupar o posto - e alguns anos depois o seu impeachment.
 
Em Franca foi o principal veículo de comunicação a acompanhar a greve dos sapateiros em abril de 1986. Na ocasião, revoltados com as perdas salariais decorrentes do Plano Cruzado, no governo Sarney, os trabalhadores, apoiados pelo ex-presidente Lula e do então presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), Jair Meneguelli, pararam por 12 dias.
 
Mortes suspeitas também tiveram destaque em vários momentos da história do jornal. Um destes casos foi registrado em agosto de 1997, quando um médico ginecologista e uma empresária foram encontrados mortos e nus em um motel localizado entre Franca e Restinga. Antônio Carlos Pinheiro Vissoto, 46, e Renata Olivito Benedini, 36, teriam sido asfixiados com gás após uma falha no ar condicionado.
 
No esporte acompanhamos a Francana durante sua busca pela ascensão, tendo como destaque a disputa da semifinal do Campeonato Brasileiro da Série C, até sua luta para voltar a vencer depois de anos no “esquecimento”. No basquete vimos Franca se transformar na Capital Nacional do Basquete e conquistar títulos brasileiros, paulistas, internacionais e dois vice-mundiais. Relatamos a batalha do time para sair do vermelho e voltar a ser um dos melhores do País com o título Paulista, a Liga Sul-Americana e o vice do NBB (Novo Basquete Brasil). Em 2010, um fotógrafo e um repórter do jornal acompanharam os bastidores da Copa do Mundo de Futebol na África do Sul.
 
Reportagens premiadas integram a trajetória de sucesso do Comércio. Em 2007, as lentes do repórter fotógrafo Tiago Brandão registraram uma mãe resgatando um filho que não sabia nadar e caiu em um poço com 10 metros de profundidade. A sequência ganhou o Prêmio Esso, mais importante premiação do jornalismo brasileiro. Em 2011, repórter e fotógrafo foram até o Paraguai investigar um esquema de fraude e triangulação para a entrada ilegal de calçados da China no Brasil. O país vizinho era utilizado como entreposto pelos chineses para vender o produto mais barato por aqui, uma concorrência desleal. A matéria foi reconhecida pelo Prêmio CNI (Confederação Nacional da Indústria) de Jornalismo na categoria Destaque Regional.
 
Escândalos religiosos não faltaram em 104 anos. O Comércio noticiou em primeira mão uma história que chocou a cidade: dois padres, irmãos, engravidaram jovens em Franca. O caso correu o Brasil e dezenas de jornais e TV repercutiram a situação. Os padres Heliberto dos Santos e Edson Franciso dos Santos foram transferidos para outros estados. Anos depois, já em 2010, o jornal, novamente em primeira mão, deu início a uma série de reportagens sobre acusações de abuso sexual contra o padre José Afonso Dé, que na época tinha 76 anos. Um ano depois o religioso foi condenado pela Justiça a 60 anos e 8 meses de reclusão por estupro e atentado violento ao puder. Ele nunca foi para a cadeia e recorreu em liberdade. Padre Dé morreu no dia 14 de julho de 2016.
 
Entre os crimes chocantes eternizados nas páginas do jornal estão duas chacinas. Em 2002 um casal de Batatais - e um adolescente contratado por eles por meio quilo de maconha - matou cinco pessoas da família do rapaz. O motivo seria o fato da família dele não aprovar o relacionamento com a namorada. Outras duas crianças, também parentes do jovem, foram agredidos. Em outubro de 2008 o ex-seminarista Hélder Rezende atirou contra a mulher, três filhos, sua mãe e na sequência se matou com um tiro na testa. Apenas uma das filhas e a esposa do assassino sobreviveram ao crime que ficou conhecido como a Chacina da Ouvidor Freire.
 
Entre os acidentes com morte que chocaram os francanos estão a queda do ônibus na serra de Rifaina, na conhecida Curva da Morte, com 20 mortes - 19 estudantes e o motorista - em 2002. No mesmo local, em 2008, uma tragédia com a Kombi da Apae de Rifaina acabou com cinco mortes. No dia 31 de outubro de 2015 um grave acidente na avenida Paulo VI matou três jovens: Mariana Luiza de Sousa, 19; Bruna Cintra Justino, 20, e Carolina Rodrigues Borges, que no dia fazia aniversário e completava 20 anos. Em dezembro de 2017, poucos dias antes do Natal, um acidente na avenida Doutor Armando Salles Oliveira, no Parque Universitário, acabou na morte dos jovens Eduardo Brandão e Henrique Pini Maniglia, ambos então com 18 anos e João Moura Mattos, 19.
 
Nossas páginas também deram voz a lutas como a da família do pequeno Davi Miguel Gama que precisava de um transplante de intestino depois de nascer com uma síndrome rara. O jornal foi o primeiro a contar a história da família e acompanhou as campanhas realizadas para arrecadar dinheiro para o procedimento, que só poderia ser realizado em Miami, nos Estados Unidos, até a Justiça obrigar a União pagar a cirurgia. Em quatro anos foram diversas reportagens para contar a mudança do garoto para o exterior, até ele ser descartado para o transplante neste momento e o retorno para Franca.
 
Nos últimos anos, crimes passionais deixaram a cidade estarrecida, especialmente pela crueldade dos assassinos. Em setembro de 2015, inconformado com o término do namoro que durou um ano, o comerciante Breno Helton da Costa Rezende foi até o estacionamento onde a bancária Rosane Bertelli de Souza, 24, parava seu carro, na rua Júlio Cardoso, no Centro, e a matou a sangue frio. Em dezembro de 2016 o pintor Denny de Queiroz, 36, matou e esquartejou Ana Cláudia Abib, 40. O assassino usou um bisturi no crime e depois de matar separou partes do corpo e dispensou em sacos plásticos em locais diferentes. Em setembro de 2017 um dos caos mais impactantes: a jovem comerciante Núbia Ribeiro, de 21 anos, foi morta por Leonardo Cantieri (com quem havia mantido um breve relacionamento), Lauany Viodres do Prado (namorada de Leonardo à época do homicídio) e Italo Vinícius Neves, que teria ajudado o casal no crime. Núbia morreu de traumatismo craniano e estava viva quando teve o corpo parcialmente queimado.
 
No dia 18 de julho de 2015, o Comércio publicava a primeira matéria do que se tornaria um grande escândalo na cidade: o Caso dos Falsos Médicos que atuaram na rede pública municipal. Pablo Vinício Tomaz Galvão era dos casos denunciados pelo Comércio, em dezembro de 2014, de médicos que recebiam supersalários para trabalhar no Pronto-socorro Municipal “Álvaro Azzuz”. No ano seguinte seria descoberto que na verdade Pablo Mussolin - verdadeiro nome do falso médico, usava irregularmente o registro do CRM (Conselho Regional de Medicina) de Pablo Vinício Tomaz Galvão. Ele foi preso depois que uma mulher, que se passava por Cibele Lemos e Silva - médica que na época atuava na região de Franca - abandonou um plantão na cidade de Alumínio (SP).
 
O caso, que ganhou repercussão nacional, deu origem a uma investigação policial que identificou uma quadrilha de nove falsos médicos que trabalhavam prestando serviço em hospitais e unidades de saúde pública de cidades do interior paulista. Em Franca, o grupo agiu por meses e atendeu mais de oito mil pacientes.
 
Eles eram contratados pelo ICV (Instituto Ciências da Vida) que recebeu da Prefeitura mais de R$ 22 milhões durante os 15 meses de contrato, de junho de 2014 a setembro de 2015.

 

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