(a cada vez que te mato, você me ressuscita por pura maldade)
Resolvi me embriagar de Bethânia hoje. não faz muito tempo eu ansiava com o dia de hoje, que amanhã também já será nada, como nada tem sido esses últimos dias de aflição e torturas.
o gim ajuda a viajar, mas não impede que a viagem seja dolorosa. como não saber terrivelmente que tudo termina, sem conseguir escrever o final da história, apesar de sabê-lo?
estático observo o presente passar, sem colocar em prática tudo que me foi prometido por mim mesmo. procuro no desespero a alquimia para minha paz. a fórmula existe, eu a conheço, mas seria apenas o início de outro desespero.
as tardes passam torturantes entre um horário de contemplação inútil e falsa, enquanto tento jogar a minha própria âncora nos ombros de quem já não tem fortaleza suficiente para tanta carga acumulada.
estou estéril ante tanta perturbação, mas sorrio a falsidade que de mim esperam e dissimulo fortaleza onde não há mais alicerce. minhas trincheiras abrigam senilidades, onde antes abrigavam febres inesgotáveis de lutas inúteis e necessárias.
tento tocar um chão qualquer, sentir-me seguro e seguir em frente. o chão, claro, não existe. então procuro um palco, mambembe que seja, como tantos onde já representei, e também isso me é negado.
por serem incontáveis os bastidores por onde andei, perdi o caminho do palco principal e condenado sigo sequer sendo coadjuvante.
não tenho mais muito tempo e também não sei o que faria se fosse tanto. as trilhas antes tão numerosas descortinadas à minha frente, hoje se resumem a um único traço rasgado na direção oposta de todos os meus discursos estéreis e poderosos.
nesses dias de resistência estou muito mais que sou. arrasto-me por obrigação, convicção ou cansaço mesmo. nem me importo mais com as certezas. já descobri, faz tempo, que a coroa do rei é de lata. apenas sigo esbarrando nas paredes estreitas que não me oferecem mais opções.
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