HOMERO ANTÔNIO ROSA JÚNIOR

'O outono é traumático para as nossas vias aéreas'


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Estamos perto de oito mil casos de dengue notificados este ano. É nosso recorde absoluto em todos os tempos”
Estamos perto de oito mil casos de dengue notificados este ano. É nosso recorde absoluto em todos os tempos”
Homero Antônio Rosa Júnior, 54, nasceu em Delfinópolis e mudou-se para Franca ainda criança. É médico pediatra formado pela Universidade Federal de Uberaba e trabalha na Prefeitura de Franca desde 1994. Há 15 anos, atua na Vigilância Epidemiológica, que tem a finalidade de oferecer apoio aos programas de prevenção, controle e erradicação de doenças, epidemias e surtos. O especialista recebeu o Comércio para falar sobre a explosão de doenças respiratórias nesta época do ano em Franca. Ele também afirmou estar preocupado com o crescimento dos casos de dengue e com o reaparecimento de doenças, como a sífilis.
 
Qual o trabalho prestado pela Vigilância Epidemiológica?
É um centro de inteligência em saúde. Aqui lidamos com dados que recebemos e retransmitimos para os governos estadual e federal. Passamos informações para o secretário de Saúde e para os gestores. Lidamos com grandes grupos de atuações, como imunização. Todas as vacinas do município chegam até a gente. Treinamos as esquipes, fazemos a distribuição e bloqueios com as vacinas dependendo da necessidade e da doença. Também lidamos com os mais diversos tipos de soro, como contra picada de cobra, de aranha, de escorpião e atendimento antirrábico contra raiva, entre outros.
 
Qual o tipo de acidente envolvendo picada mais comum em Franca?
A ocorrência mais comum é a que envolve escorpiões, especialmente, do tipo amarelo. Graças a Deus, não temos óbitos registrados até hoje, mas isto não quer dizer que não devemos nos preocupar. Casos de picadas de cobra temos uma quantidade pequena na região, já foi maior. Aranhas venenosas também temos poucas ocorrências, felizmente. Em relação aos casos antirrábicos, prestamos mais de 100 atendimentos por mês.
 
A que se referem estes atendimentos?
São ocorrências referentes à mordida de cães, gatos e outros animais que podem transmitir a raiva.
 
Quais são estes outros animais?
Porco, cavalo, boi, morcego (que é, extremamente, perigoso), animais silvestres de uma forma geral e uma infinidade de outros mamíferos que podem albergar o vírus e retransmitir para a gente nos acidentes.
 
Qual o tipo de mordida mais inusitada que o senhor já atendeu?
Já nos deparamos com vários casos curiosos. Uma vez atendemos um sitiante que havia sido ferido por um tamanduá bandeira. Ele foi separar uma briga entre o cão dele, um pit bull, e o tamanduá. Ao tentar retirar o cão, foi machucado pelo tamanduá e nos procurou para receber a medicação antirrábica. Já atendemos a vários casos de mordidas de morcego. Ocorrências envolvendo cão e gato têm frequência alta, mas eles podem ser observados por dez dias, o que facilita muito o atendimento. Às vezes, não precisa nem de soro. Agora, os bois, cavalos e porcos nos preocupam, pois o período de incubação não é de conhecimento, o vírus pode demorar meses para atacar o cérebro da pessoa e matá-la.
 
Qual a orientação para a pessoa que vier a ser picada por algum destes animais?
Procurar atendimento médico e, se possível, levar o animal morto ou fotografar e pegar referência junto a alguém que conheça. Isto ajuda bastante. Não é preciso levar uma cobra viva, como era solicitado antigamente. Tentar identificar o animal; ajuda bastante para fazer o soro e específico quando necessário.
 
Os boatos e notícias falsas divulgados pela internet prejudicam as campanhas de vacinação. A população idosa tem medo de se vacinar?
Estamos conseguindo diminuir muito a resistência verificada no início, quando o governo começou a fornecer a vacina. A vacina de gripe teve um impacto de impressão errada. Normalmente, ela é aplicada no mês de maio, quando estamos em pleno outono e já temos uma quantidade enorme de doenças respiratórias que vão se sucedendo. Pegamos uma doença, saramos e já pegamos outra, seja vírus, bactéria ou fungo. Isto confunde a cabeça de uma pessoa leiga que imagina que a vacina que ela tomou foi que causou os sintomas. Mas não é o vírus da vacina. A vacina mais tranquila de todas que existem é a de gripe, pois o vírus é morto, despedaçado. Não tem como ele desenvolver a doença se a pessoa receber a vacina. Ele pode causar um mal-estar leve ou dor muscular onde é aplicado, mas é coisa simples que se resolve sozinha. A vacina é extremamente necessária. O ideal é que a aplicação fosse feita em março, que é quando começa o outono, o efeito é maior e ela não causa efeito colateral. A vacinação é vítima de seu próprio sucesso: quanto mais doenças você evita, menos pessoas se preocupam em prevenir. Por isto que está caindo a adesão à vacina contra a poliomielite. As pessoas mais novas deixar de vacinar seus filhos contra a paralisia, pois acham que é uma realidade distante, que não precisam se preocupar. Deixar de vacinar o filho é crime. A vacina salva vidas. Não tem motivos para não vacinar.
 
Os casos de gripe são comuns nesta época do ano?
Este ano foi atípico. Tivemos poucos casos de gripe comum em Franca. Ocorre que há muita confusão de diagnóstico. O que tem de sinusite nesta época é uma coisa absurda. A tendência é a pessoa falar que está com gripe, mas, na verdade, é sinusite, que tem uma relação muito grande com o ar extremamente seco e com as grandes variações de temperatura. O outono é traumático para as vias aéreas na nossa região. A cidade é alta, com quase mil metros de altura, a umidade do ar já chegou a 12%. Isto é pior do que respirar no deserto do Atacama, que é o mais seco do mundo, com média anual de 13%.
 
O que é a falada virose que tanto provoca transtorno no frio?
Virose, na verdade, é o apelido que a ganhou a gastroenterite, que é a diarreia com ou sem vômito. A doença tem relação com a queda natural da imunidade ocorrida nesta época do ano, justamente, pelo fato de o ar ficar muito seco.
 
O que fazer para evitar as viroses?
A transmissão de doenças é muito comum neste período e quase todas são respiratórias. Pneumonia, meningite, resfriado, sinusite, otite, amigdalite, entre outras, têm um pico muito grande agora. Boa parte é transmitida pelas vias aéreas, mas algumas são transmitidas pelas nossas mãos, como a h1n1, diarreia e conjuntivite. São as mãos que não foram bem lavadas que se contaminam e repassam o microorganismo.
 
Além de lavar as mãos adequadamente, o que é possível fazer em casa para reduzir os transtornos causados pela baixa umidade? 
O ar seco repercute no exterior do nosso corpo e, principalmente, no interior. As vias aéreas perdem sua defesa e nossas mucosas ficam desidratadas, o que reduz a prevenção de doenças. É preciso se hidratar bastante, ingerir muita água. Não é suco, nem refrigerante e muitos menos bebida alcoólica. Também é recomendado deixar o ar o mais respirável possível aumentando a umidade. É possível improvisar com bacias com água e com toalhas úmidas. O ideal mesmo é usar o umidificador com água perto de onde a pessoa estiver respirando. 
 
Qual é a faixa etária mais suscetível a contrair doenças como gripes e pneumonias?
São os extremos de idade. No caso das crianças pequenas, a imunidade ainda está em construção. Na faixa de um a três anos, é quando as crianças mais adoecem, pois estão mais vulneráveis porque o sistema imunológico está em desenvolvimento. No caso dos idosos, é o contrário: o sistema imunológico está em declínio e não há renovação por conta da idade avançada.
 
Como está a situação da dengue em Franca?
Estamos perto de oito mil casos notificados este ano. É nosso recorde absoluto em todos os tempos. Fora as pessoas que contraíram a doença, mas que não tiveram o diagnóstico de dengue, mas era dengue, isto acontece, além das que não procuraram o médico. Imagino que milhares de casos não foram notificados. Então, a soma seria muito maior do que os casos reais. Felizmente, só tivemos uma morte de uma pessoa idosa que teve complicações. Estatisticamente, o número de mortes poderia ter sido maior. Em tese, poderemos ter muitos outros casos de dengue em Franca no ano que vem. Temos que entender que a prevenção não é só para o verão, é para todos os dias do ano. Hoje, tenho que pensar na próxima dengue. Daqui a alguns meses, vamos ter um grande número de casos de novo e isto pode ser catastrófico. Normalmente, perdemos esta batalha para o vírus. A nossa cultura é de nos preocupar só quando todo mundo está falando de tal doença, há uma tendência de não pensar no amanhã. Temos que ter a cultura da prevenção. Às vezes, a pessoa tem o costume de reclamar que o vizinho não está fazendo a parte dele, mas não cuida da própria casa. Não podemos procurar o foco da dengue só no chão. É fundamental olhar para cima, como ver se a calha não está entupida.
 
Qual é a doença que mais preocupa a Vigilância Epidemiológica?
Pelo número expressivo, é a dengue. A meningite e a Aids também sempre são muito preocupantes. Temos muitos casos de hepatite C, com várias mortes. Temos uma quantidade sem controle de casos, em progressão de epidemia no País inteiro, de hanseníase, que é a lepra, e de tuberculose, que está matando muita gente. Temos suspeitas de leishmaniose, que é uma doença de difícil cura. Outra enorme preocupação que temos é em relação aos casos de sífilis, que estão aumentando muito, especialmente, entre as gestantes. Todos os meses são registrados de quatro a oito casos novos da doença em grávidas. Isto ocorre porque o parceiro da mulher não aceita procurar o médico para ser atendido e muito menos para ser tratado.
 
Qual mensagem o senhor gostaria de deixar para os leitores?
A quantidade de doenças que estão aparecendo ou reaparecendo nos preocupa muito, pois é sinal de que estamos fazendo danos à natureza. Estes danos têm um preço. Basta ver a quantidade de doenças que eram exclusivas do campo e que estão migrando para a cidade, como a dengue e a febre amarela. Cuidar do meio ambiente e fazer prevenção são ações fundamentais. Recomendo sempre procurar aconselhamento médico e evitar o uso abusivo de medicações, principalmente, de automedicação, tentar consumir o máximo possível de alimentos naturais e ter qualidade de vida.

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